A ignorância tem níveis e tipologia, tal como a inteligência. Esta última foi até estudada por um psicólogo estadunidense de nome Howard Gardner. Entre as nove inteligências que viram comprovada sua existência, deixou-nos curioso a lógico-matemática e a linguística. Pelas designações, devem perceber que pessoas, pelas suas actividades, devem possuir essas inteligências. Por exemplo, escritores, editores, linguistas e consultores linguísticos devem ser dotados da Inteligência Linguística. Questiono-me, portanto, se a inclusão de glossário numa obra literária é uma atitude inteligente do escritor e editor dessa obra? Se o é, até que ponto?

Tal inquietação surge quando nos deparámos com a obra literária Vozes da Cidade – Crónicas e outros textos, de Mira Clock, com glossário. Para evitar equívocos, procurámos saber o que é um glossário para, a partir daí, termos uma ideia da razão e necessidade do seu uso. É assim que do Novo Dicionário de Língua Portuguesa de Cândido Figueiredo e do Dicionário Integral da Língua Portuguesa da Texto Editores, glossário é uma palavra de origem do Latim que significa, além de outros, “vocabulário em que se explicam palavras pouco conhecidas ou obscuras ou de sentido obscuro”.

Escritora Mira Clock e seu livro, Vozes na Cidade

E no livro referido – de predominância em crónicas –, encontrámos, precisamente no seu glossário, palavras como honga, kumbu, micha, malaike, Kuduro entre outras. Tirando a primeira palavra (honga), as demais são palavras que já foram neologismos (palavras novas no português), mas que, pelo seu tempo de uso, já não devem ser palavras novas para nenhum luandense e para maioria dos angolanos e, portanto, desnecessário que sejam incluídas no glossário de uma obra literária na qual constam. Já a palavra honga (lavra), da língua nacional Kimbundu, é um estrangeirismo[1] e, portanto, neologismo, no Português. Este, sim, pode se fazer constar num glossário, pois deve, ainda, depender muito do seu enquadramento no texto. Casos há que o enquadramento é quase perfeito que nos é desnecessário o apoio de um glossário.

[1] Estrangeirismos são palavras de outras línguas que são empregadas no Português por uma questão de vício, já que existe uma equivalente. 

Além desse último argumento, citamos, como exemplo desta desnecessidade ao uso do glossário, escritores como José Eduardo Agualusa e Mia Couto. Estes, com um enorme reconhecimento na comunidade lusófona, não fazem o uso do glossário em A Sociedade dos Sonhadores Involuntários e A Confissão da Leoa. E eles teriam todas as razões para isso, já que o grosso dos seus leitores são brasileiros e portugueses. Em S.S.I., encontramos palavras como mufete e Cacusso: “Jogámos futebol algumas vezes. Cheguei a ir a casa dele comer um mufete. […] A mulher era do Dondo. Sabia grelhar o peixe. Cacusso. Cacusso legítimo.” (p. 150). Em C. Leoa, encontrámos ntwangu e vantumi va vanu: “– E o que fazemos agora, ntwangu? Como todas as mulheres em Kulumani, chamava o marido como ntwangu. (p. 18). “Da janela vi nesse agitado delírio, reclamando contra os leões-pessoa, os vantumi va vanu.” (p. 22). Tanto em Agualusa como em Mia Couto, as unidades lexicais em causa foram empregadas de forma a evitar dúvidas dos seus significados aos leitores. Ainda assim, a um leitor brasileiro ou português, pode a vir causar sempre alguma inquietação.

Deste aspecto nestas obras, podemos tirar as seguintes ilações: os autores fizeram o uso destas palavras a fim de evitar um glossário ou, a hipótese que mais nos agradaria, simplesmente não o usaram como forma de valorização da variante do Português de Angola e Moçambique que, pela situação linguística desses países lusófonos, é influenciada pelas línguas bantu. Esta segunda hipótese é, para nós, mais aceitável e necessária na luta contra a dependência da variante europeia, criando ruptura e uma maior atenção das políticas que para as línguas não tem existido.

Isso leva-nos também a reflectir e a concluir que a opção do uso do glossário seja consequência de uma insuficiência do escritor no uso de certos vocábulos de formas a evitar dúvida ao leitor, e do editor que não consegue trabalhar com esse, a fim de eliminar essas dúvidas e evitar, consequentemente, o glossário na obra. Ou seja, o glossário acaba por ser um socorro a essas insuficiências.

E por outro lado, em consequência do parágrafo anterior, o uso de um glossário pode significar insegurança do criador, receio a críticas à sua obra por desvio da norma (que é europeia!). O escritor que receia críticas ou seja lá o que for por desvio da norma da Língua demonstra não conhecer o suficiente estes preceitos gramaticais da língua que veicula nas suas obras ou deve se ter cuidado de se lhe denominar escritor.

Todos os argumentos anteriores poderiam não existir, pois, ainda assim, bastar-nos-ia defender o não-uso de glossários pela razão de não lermos obras literárias de autores brasileiros e portugueses com esse recurso. E porque é que autores angolanos o adotariam? É portanto, uma certa falta de inteligência, tomar tal procedimento.

De qualquer forma, outras razões devem estar na base desta decisão por parte da editora da obra de Mira Clock, já que precisamos duvidar, pelas obras já lançadas e pela experiência acumulada, que esta não tenha pensado nos aspectos referidos antes de tomar a decisão de uso desse recurso vocabular.

Não haverá necessidade de um glossário quando as palavras supostamente obscuras foram bem enquadradas, de forma inteligente, pelo escritor ou editor, levando a um exercício de interpretação pelo leitor que acabará por ser interessante pelo gozo que se tem ao descobrirmos algo novo, permitindo e, como exigindo, também, uma maior valorização da nossa variante da língua portuguesa (referindo a obras angolanas) pelos demais lusófonos, portanto.