Epa, começo a ficar preocupado com o nosso acervo linguístico. Embora estejamos a pensar no surgimento de uma gramática descritiva angolana, um modelo de se falar angolano, e os jornalistas deviam ser visto como um dos modelos de muitos benjamins, temos de convir que há muitas “broas” quando muitos deles decidem abrir a boca que desconsigo de meter as bolas nos sítios certos.

Então, não é que em pleno jogo das nossas meninas de ouro, as diamantes, as que brilham no continente e no universo, em plena arena do Kilamba, qual gladiadoras, o caro jornalista da TPA, cujo nome não me lembro (também nem preciso lembrar para não ser acusado de difamação), com muito entusiasmo, bramiu com todas as garras “o resultado é 28 a 8”!

Epa, coitado dos meus ouvidos!

Isto fez-me lembrar aquela tarde de sol na piscina, na companhia de uma pessoa. Fui ao balcão pedir uma bebida.

– Boa tarde! Não têm cardápio? – Perguntei.

Deram-me o cardápio.

– Não vejo o preço das bebidas, senhoras!

– São estes aqui – indicava a cerveja com garra.

E eu aboamado, como diria o meu amigo Dias Neto, embatuquei e, dono da minha verdade, disse:

– Não. Quero Coca-Cola.

No que a garçonete, que estava em plenos amassos com o garçonete, um jovem altivo e de portes, responde-me com desdém:

– Moço, Coca-Cola não é bebida. Coca-Cola é refrigerante.

Epa! Quase que perdi a fonética pela grossura da sapiência da mesma. Então, fazendo uso do método indutivo, procurei saber dela a diferença entre bebidas e refrigerantes, pelo que a garçonete, com ar de Sócrates, diz-me que bebidas são as que contêm álcool e o resto é refrigerante.

Sinceramente, comecei a duvidar da minha idade acadêmica. Parece que a globalização passou por mim e nem notei, ou esta moça devia ser a minha professora de Semântica e ensinar-me os traços mínimos; apesar de em Portugal, segundo um cota que lá viveu, suceder as mesmas situações, ou seja, quando se pede bebidas não é a coca-cola ou a 7up que receberás, mas a nossa famosa Tigra (para eles, talvez, a Sagres?).

Para matar com as minhas raivas e ganas (chamei-a mesmo de burra, analfabeta bonita… no silêncio, claro, pois eu não travo balos energúmenos), investiguei a semântica de refrigerante.

Ficou toda estonteante ao ver que é “bebida artificial composta por água, gás carbônico e substâncias artificiais para dar sabor e odor”, segundo o Wikidicionário, isto é, Coca-Cola. Queria falar-lhe da Etimologia, Morfologia e Lexicologia e Lexicografia da palavra, mas depois… depois dei-me conta da tamanha burrice e perca de tempo que eu teria. Peguei na minha bebida, que é também refrigerante (eu precisava mesmo refrigerar-me depois daquilo, sabem!?) e fui apreciar a água estagnada da piscina.

Entretanto, estas situações fazem-me lembrar de outras situações com as quais me deparo nas minhas andanças. Por exemplo, tenho de saber como sabe o funge de carne seca ou de bagre ou de sei lá o quê, já que o arroz de pato, naquela mistura maluca de pato, arroz, chouriço e outros ingredientes, é um sacrilégio não o comer sem lamber os beiços, para não citar o modesto arroz de legumes ou de cenouras.

Eu prometo que um dia irei mesmo saber isso de um chefe renomado se estas gralhas, que atentam contra a pureza e clareza da magnífica língua que tanto me esforço em estudar e ensinar, não são grelhas que ando a me esquivar.