Os musseques, nas suas formas mais consistentes ou mesmo no caoticíssimo que lhe é característico, configuram-se como o principal espaço de manifestações artísticas e culturais. Num passado não muito distante, os musseques provaram ser berço de grandes revoluções, a par da política. Foi nos vários pontos destas zonas periféricas que se assistiu o emergir de vários artistas e agrupamentos musicais, que, com letras de ouro, grafaram os seus nomes nos anais da história nacional.

As noites culturais nas zonas mais recônditas das periferias da cidade faziam emergir a criatividade em meio a uma sociedade subjugada pelo poder colonial. É na arte que muitos encontraram as ferramentas para provocar profundas reflexões e mudanças nas esferas sócio-politícas e culturais em Angola.

Suspeito que seja com esta revisitação ao passado que António Paciência e seus colaboradores recriam as noites culturais no bairro Kassequel sob o manto artístico de Meu gueto, minha bandula. Ao contrário das grandes casas de artes e espaços culturais que vão se propagando nos diversos pontos da cidade Kianda, o Meu gueto, minha bandula acontece em espaço nada convencional para as grandes performances artísticas com que somos brindados. Aliás, de certo modo, essa falta de aparato técnico (tecnicamente improvisado) acaba por criar a devida aproximação entre o público e os artistas.

O meu Gueto, minha bandula é, nos moldes mais simples, um projecto de rua que congrega, com alguma regularidade, artistas dos diversos segmentos, munidos com o desejo de proporcionar aos seus concidadãos momentos de pura recriação por meio da arte. Do ponto de vista social são visíveis as pequenas, mas significativas mudanças que o projecto tem sido capaz de evocar nos guetos do Kassequel. Nas noites de segunda, quarta e sexta-feira, acontecem conversas de quintal, com fundo temático para as mulheres de várias idades e extractos sociais; aos sábados, o projecto maximiza a sua actuação com noites recreativas, em que a música, poesia, fotografia, dança, teatro e tantas outras manifestações se evidenciam.

A última edição de roda de rua do Meu gueto, minha bandula contou com intervenções artísticas do jovem humorista Scaite (este que vem trilhando pequenos passos, arrancando risos e gargalhadas em vários palcos periféricos), do projecto fotográfico VêSó, chegou-nos uma radiografia em tons realísticos dos guetos do Kassequel nas lentes de Sheila Nangue e Raquel; do recém-formado colectivo de dança EntreDanças, Aneth Silva e Miguel Carlos brindaram-nos com algumas performances de fazer vénia; Unekka, com o seu violão e voz melodiosa, levou o público ao delírio e fez as crianças soltarem as vozes e, em uníssono, entoarem uma versão de encher memórias da canção de serão kabrinkimkim, e, claro, como não podia deixar de ser, o público não ficou alheio a este entrosamento, sob olhar luminoso e invejoso da eterna lua, comprovando que a arte vem dos musseques.