O Circuito Internacional de Teatro foi dos eventos artísticos mais expressivos na cena teatral durante o ano de 2016, permitiu a troca de experiência entre actores e directores nacionais e estrangeiros durante o período de 1 de Julho a 17 de Setembro. Em conversa com Palavra&Arte, Carla Rodrigues, directora artística do circuito e directora adjunta da Companhia de Teatro Pitabel, falou dos desafios e motivações para a realização e lança a questão da falta de abertura para aprendizagem e intercâmbio entre os directores.

Sei que o surgimento do Circuito Internacional de Teatro (CIT) é uma derivação do Projecto Cultura Para Todos. Pode falar-me dele?

O Cultura para Todos é um projecto de inclusão social, vocacionado na formação, valorização e divulgação internacional do teatro angolano, que, por sua vez, pertencente ao Grupo Pitabel e esteve em carteira a partir de 2010. Em 2016 estabelecemos uma parceria com o Ministério da Educação, no sentido de darmos formação em teatro, dança, música, artes plásticas aos alunos nas escolas, tendo sido aceite. A sede do projecto foi a cidade do Kilamba, por ser uma cidade nova, e estávamos na Escola 14 de Abril.

A partir daí, como surgiu o CIT e a que propósito?

Depois dos espectáculos que exibimos, decidimos então fazer uma festa do teatro. Geralmente, os grupos teatrais realizam festivais, mas nós decidimos por um circuito de teatro que fosse internacional, onde a festa estivesse em torno. Que não estivesse parado. Sentámo-nos, então: a Solange Feijó, o Franpénio e o Adérito Rodrigues. A definição do período foi para aproveitar a comemoração do aniversário da cidade do Kilamba, do presidente da república e o Dia do Herói Nacional

O que motivou a escolha deste tema (“Trazer o mundo para Angola e levar Angola para o mundo”) para o CIT?

O tema surgiu dos propósitos do próprio Cultura para Todos, e foi feito a associação da valorização e divulgação internacional não só do teatro angolano, como das outras forças da nossa identidade. Levar o que nós temos de bom e eles trazerem o que têm de bom para nós, constando, ainda disso, o intercâmbio entre os grupos nacionais e estrangeiros.

As peças apresentadas foram curadas para corresponder a esse tema ou os grupos foram livres?

Nós fomos escolhendo nas peças, porque a missão do teatro é educar, fazer as pessoas saírem da sala de espectáculo a pensarem no que faziam. Também trabalhamos com uma escola onde, para além das peças, levávamos uma mensagem. Observámos o repertório dos grupos e, como qualquer festival que possui regras, tivemos o cuidado de as peças não ultrapassar duas horas, possuir linguagem ponderada.

 a missão do teatro é educar, fazer as pessoas saírem da sala de espectáculo a pensarem no que faziam.

Mas a corresponder pelo tema, como aconteceu essa selecção?

Na verdade, o lema não foi escolhido para pôr entrave às peças que nós angolanos temos. Escolhemos os grupos que venceram o Premio Nacional de Cultura e Arte. Não fomos tanto pelo lema, e sim pela qualidade dos espectáculos que os grupos possuíam, porque, na verdade, é isso que queríamos: levarem aquilo que fizemos de bom para o mundo, e os internacionais trazerem o melhor deles. Se verificar, os espectáculos dos grupos internacionais não são muito diferentes, mas eles têm vantagem de terem a formação, muitos deles não fazem nada além do teatro: têm um salário, uma carteira profissional. Diferente deles, nós fazemos o teatro como um hobbie e com os nossos próprios dinheiros.

O evento deu espaço para actividades de reflexão e debates sobre a situação do teatro nacional?

Tivemos, sim, esse tipo de actividade, sobretudo, aos sábados, com os grupos que participaram no CIT e não só. Havia os que queriam dar palestras e queriam aprender. Aprendeu-se muito com isso. Não tivemos reflexões, apenas, em torno do teatro, falámos da sinistralidade rodoviária, da dança, tivemos uma palestra sobre a SIDA, fruto da parceria com Instituto Nacional da Luta Contra a Sida, e, em todos espectáculos, o público encontrava preservativos e brochuras sobre a SIDA nos bancos e nós explicávamos.

Grupo Enigma Teatro após a exibição da peça: A Raiva

Ouve-se muito a falar de pouca expressão do teatro a nível nacional. Porque o certame do CIT olha mais para o intercâmbio internacional quando há essa carência de intercâmbio a nível nacional?

Em primeiro lugar, não tivemos de fora grupos nacionais. Tivemos grupos de Benguela e Huambo e os de Luanda, maioritariamente. É uma experiência nova, sem muitos apoios, não podíamos movimentar grupos das províncias. Alguns grupos internacionais vieram com o apoio das embaixadas, ajudando-os no alojamento e na alimentação.

Agora digo que, entre nós, os artistas, não muito pelos actores e sim olhando para os directores, muitos pensam que são os melhores. Há pouca abertura, sobretudo para aprender. Recentemente, de 01 a 04 de Novembro, demos uma formação de direcção artística com uma professora cubana. E nós, aqui em Angola, somos média de 300 grupos teatrais, mas só tivemos a presença de 10 directores. E isto não é porque não demos esta oportunidade. Criamos condições para a formação com a professora, e os directores não pagaram nada para isso, mas não apareceram. Aliás, os outros grupos, como o Horizonte, têm realizado intercâmbios, mas os directores e actores não aparecem.

A tendência com o internacional é, exactamente, colher diversas experiência de intercâmbio.

Está assim tão mal esse intercâmbio a nível nacional?

Não. Felizmente, o “Cena Livre” e o “Actos e Cenas” têm realizado muitas actividades teatrais e lá há muitos grupos de teatro. Sempre que há uma temporada de teatro ou um festival, há esse intercâmbio. Entre nós, os fazedores de teatro, fazendo uma estimativa: 2016 foi o ano do teatro. Porque, além da crise, o teatro não morreu, houve muitas actividades de teatro, e festivais que surgiram. Só não morreu por causa da nossa persistência em continuar a trabalhar, e olha que nós não ganhamos quase nada.

Há ou havia o aparecimento de grupos das províncias?

As províncias nunca faltam. Particularmente, não gosto falar pelos outros, mas acredito que veio muitas províncias, vi muitos espectáculos destes grupos. Além da dificuldade de transporte, eles nunca são lesados em tais festivais: enquanto os daqui fazem inscrições, os da província, nós convidamos. Não pagam nada para participarem nos festivais.

Acontece de forma geral ou somente aconteceu assim com o CIT e o Cultura para Todos?

Isto é relativo, porque cada grupo tem seu regulamento e normas para seus projectos.

E como foi feito os contactos com grupos internacionais?

Dizer que sempre que tu viajas para fora, a fim de fazer um espectáculo, és sempre o centro das atenções dos outros grupos. Eles gostam muito dos grupos angolanos e moçambicanos, dizem que nós somos muito naturais, e o mesmo achamos deles. Então, levamos sempre uma peça tradicional e nunca o que já se faz fora. Das nossas vestes, da nossa naturalidade e dos temas, eles gostam. Fomos apresentar espectáculos no Brasil (onde fomos a cara do Festival Internacional da Língua Portuguesa), em Moçambique, em Cabo Verde (que desencadeou um convite para Portugal).

HOMELESS, grupo italiano exibindo a peça: Piano sem Teto

HOMELESS, grupo italiano exibindo a peça: Piano sem Teto

Com isto, temos mantido sempre contacto com estes grupos, principalmente pelas redes sociais, onde os acompanhamos.

Como foi para vocês realizar um festival como o CIT em um período de crise? Vocês sentiram o impacto da crise? O que fizeram para contornar?

Essa é uma pergunta que não merece uma única resposta. Sentimos. A resposta é positiva, porque, na verdade, não tivemos nenhum apoio financeiro, de nenhuma empresa, de nenhuma instituição nem mesmo do próprio Ministério da Cultura. Muita coisa foi pela nossa “teimosia”. Trabalhamos com jovens muito dinâmicos, com o grupo Enigma.

Na companhia de Teatro Pitabel, todos os actores têm carro, o que foi uma vantagem, porque todos vivemos aqui na cidade, e facilitou a deslocação do pessoal e das coisas com ajuda da companhia. Agora, quanto à questão financeira, como o teatro não dá dinheiro e precisamos dos actores, não os sacrificámos. Nós mesmos tivemos de abdicar de algumas coisas em nossas famílias e apostámos um pouco dos nossos próprios salários para custear as actividades. O próprio circuito não foi uma coisa muito estudada, tivemos pouco tempo de preparação, e as instituições não estavam abertas (as respostas às cartas vieram muito tarde) devido também à situação.

E ainda tivemos um casal de actores que disponibilizaram a sua casa que nos serviu para hospedar a Academia CIT. Fomos muito organizados internamente: nos distribuímos para corresponder as necessidades de divulgação para comunicação social e para gerir as salas, cuidar da recepção e do alojamento dos grupos.

Quanto tempo levou a produção do circuito?

A ideia caiu-nos logo. Tivemos dois meses, sem muita antecipação. Em Junho, começamos a fazer a programação para o mês de Julho. Fizemos os contactos necessários, e havia o FESTECA a se realizar, e alguns grupos que nós conhecíamos e queriam conhecer Angola apresentaram-se disponíveis.

Como foi a adesão de pessoas ao CIT?

Tivemos êxito. A sala estava quase sempre cheia, e não esquecemos das crianças. Tivemos espectáculos infantis aos domingos, às 16 e às 20, para os adultos.

Os bilhetes ajudaram o CIT a obter algum tipo de lucro?

Não tivemos. A falta de apoios aparece novamente como condicionante, pois os bilhetes todos se revertiam para priorizar a alimentação e transporte dos actores durante os três meses. Todas as semanas tínhamos de comprar o lanche, além do pequeno-almoço e outras refeições que eram semanais.