Depois de já ter emagrecido como mo pedira o cobrador, lá estava eu a roçar corpos como nos sugere estas nossas viagens em candongueiros lotados até de bafos.

Ia adentro daquele Jin Bei acompanhado pelos muitos passageiros na vida de fazer-se útil quando, como que com um suspiro terminal, um ngavavô proclamou estar com sintomas de mortes. Sentado na posição de só suportar, esforcei o pescoço, acompanhando-o com o, até então, “acomodado” tronco, e virei-me com os holofotes atrás para conhecer o dono daquela mórbida voz e vi: um mais velho a fechar os olhos com a mesma lentidão de um camaleão apressado.

– Papá, é o kié…? Motorista pára o carro! – Gritou a senhora ao lado do velho, com os olhos já carregados de lágrimas e, sem conseguir esconder, a trémula voz proclamava a desorientação que lhe invadia.

Agora, o interior daquele Jin Bei transformara-se num centro de choros e lamentações, e, embora o susto do momento impedisse raciocínios e lógicas no proceder, calei o corpo e deixei-me na situação com os olhos atentos ao desenrolar das coisas – nesta altura, já o táxi tinha parado e estávamos todos fora com o ngavavô caído e desfalecido entre o roto da estrada e o magro volume do passeio, onde transeuntes já nos tinham violado o território. Rodearam-no com as sombras dos seus corpos e ampararam-no na liquidez das suas lágrimas. Uns com as bocas afiadas entregaram-se à fabricação de mujimbos, outros, com as almas verdadeiramente tocadas, caíam em mares de lágrimas e em berros chorosos, tal pássaros queimados.

Enquanto metade dos passageiros chorava sem sequer olhar para o kota, com medida coragem, fui medir a pulsação (conheço estas coisas de socorrer), como mo aconselhara os especialistas do canal Odisseia no seu sugestivo programa “Do Or Die”.

– Iuê, mô paié! Iuê, paiii… nem no hospitali chegaste?!

– Dona, a pulsação dele está estável, fica calma e, por favor, dêem espaço que ele precisa de respirar.

Com a mais tranquila das calmas falei.

– Faxavor, água, água…! – Assustada, porém, já com uma porção de esperança nos lábios, a dona gritava e agora tinha forças para contornar as linhas da situação.

– Não, não precisa d’água – Agachei-me e arregacei os olhos do ngavavô que logo contaram-me o baixo nível da hemoglobina. Coincidência ou não, o que procurava apareceu, um objecto pontiagudo com o qual pressionei a palma da mão esquerda do velho enquanto chamava por ele com a agudez na monossónica voz que descalçava com a boca muito perto do seu ouvido.

Poucos segundos depois, o kota puxou abruptamente as mãos e soltou um grito miúdo que, embora mórbido, mostrava a estabilidade no gráfico da função da sua já idosa curva. Abriu os olhos com a mesma inocência dum pardal em desfile natural. Situação controlada.

Ao erguê-lo, ouvi em altos débeis uma música, como a que Kapossoca nos doa em clássicas orquestrações: era o sincronizado bater de palmas – chegava-me à relâmpago a lucidez –, e não me deixavam mentir, as pálpebras bailavam descompassadas, denunciando esta minha fiel companheira timidez.

– Twassakidila, tatá!

Em cantos num kimbundu agora trazido do conforto de ver o pai em pé, contava que ia com o velho ao hospital enquanto amarrava o pano à cintura e procurava pela bolsa.

– Mô filio, brigado! Deujo t’abençoa… Ontem ele já num tava bem e hoje acordou já bem máli… eh, Deuj’é grande!

Pariu-se daí novas conversas, agora tínhamos sorrisos a lavarem os rostos e, na retrospectiva, nada se entendia, apenas olhávamos a inocência do velho sob a acidez do dia. Esvaziava-se o espaço enquanto uns insistiam nos aplausos da quase milagrosa recuperação do velho.

– Possas, esse wi, sim senhora, ia…! Se num fosse esse wi, ninguém ia ligar o kota, e, se calhar, ia kubar mbora memu alí… essa mamoite tava tipo o kota já kubou, eh! – disse o cobrador, matando o interior daquele Jin Bei de risos.

A dona ao lado do velho, cantava como que orava em agradecimento às divindades quando se interrompeu e disse, dirigindo-se a mim:

– Moço, num paga mâji o táxi, você é herói do velho Seba!