Quem diria que, a Angola, chegaria um dia em que um ministério teria o nome dos seus regentes a ecoar grandemente pelos holofotes da esperança e a ser apregoado até em orações? Atendendo a situação de pandemia que o mundo vive actualmente, a ministra, proclamada “heroína”, da saúde não se fez somente mais uma figura inerte neste país domado por um grupo selecto mais perigoso que qualquer vírus da família Influenza. Num tempo nem tanto remoto, quando soasse o nome da senhora ministra, estava quase sempre envolto em polémicas, daquelas que já nos habituaram os principais detentores de pastas ministeriais, e não só, deste país.

Verdade seja dita, houve, no sector da saúde, assim como em tantos outros, ministros e secretários de estados cujos nomes passaram tão em branco na mente da maior parte de nós que eram como se fossem meros fantasmas ou, dizendo melhor, não eram mais que vampiros que alcançaram a imortalidade à custa daquilo que dá a vitalidade ao povo. Foram pessoas que viveram a sugar as essências do país até deixá-lo a minguar. Mas aí veio o corona e as receitas mudaram os diagnósticos. Hoje, e com certeza, devido ao enorme impacto da doença que fez refém o mundo, o nome da doutora Sílvia Lutucuta e do Doutor Franco Mufinda chega a ser mais repercutido, quer na mente como na boca de muitas pessoas, que o do próprio Presidente da República. 

Seriam magníficos e fariam muito mais sentido os louvores que tem recebido em notas graciosas, se a detentora da pasta da saúde ou o seu auxiliar, de vez em quando, tivesse também fôlego para vir a público e em directo na televisão falar das milhares de mortes que acontecem no seu sector e que nada têm a ver com o coronavírus. Mas disso é melhor não falar. Afinal, à OMS e à comunidade internacional apenas importa os que morrem de outras enfermidades desde que o assunto não seja discutido em público. E, por outra, parece que gastar milhões com as principais enfermidades que nos assolam há décadas seriam “gastos desnecessários”. 

Assim, dum coro, para amenizar um pouco as coisas, a staff da saúde podia bolar uma conferência de imprensa semanal para apresentar somente os números da Malária. Por outro lado, não seria bom se todos nós soubéssemos que eles têm tido videoconferência com os homólogos de outras paradas para discutir sobre a Síndrome Febril Ictérico Hemorrágico? Quem tem feito das tripas o coração para conhecer as suas causas?

A conversa dessa Síndrome, por sinal extremamente fatídica, já não é tão nova assim, mas depois da nota que meteram a circular pelos jornais sobre o assunto, pouco ou nada mais se viu ou se ouviu, até alguém botar a boca no trombone e dizer que essa doença varreu, em uma semana, cerca de duas dezenas de crianças no hospital pediátrico, quatro vezes mais que a Covid-19 em três meses. E a “heroína” e o seu compincha para falarem sobre o assunto ficam tipo tocaram-lhes na ferida com o dedo do meio embebido em gindungo.

Com ou sem capa, são merecidas as aspas à aclamada heroína da saúde, pois, afinal, está no ramo desde o ventre e detém o posto desde séculos antes da pandemia e, mais que isso, conhece a fundo o furúnculo há muito apodrecido que é o nosso sistema de saúde. E como é de praxe entre os nossos dirigentes, apresenta com pompa e circunstância os número para o inglês ver e encafuam os outros que enchem os hospitais de condições precárias, as morgues e os cemitérios. 

Se fosse o contrário, e com isso pudessem importar as toneladas de medicamentos para as outras milhares de doenças que nos assolam há séculos, mil vezes mais intensas que a Covid-19, com certeza a maioria de nós estaria a rebolar na rua e a gritar aos quatro ventos o nome da ministra como quem encontrou uma Santa dos Milagres. E, mais, faria bué de sentido vê-la a ser chamada de heroína, se tivesse coragem suficiente para romper as nossas expectativas e parasse de tratar a pandemia como se de uma criança mimada se tratasse, daquelas mesmo que sentem que devem ter direito a tudo, senão faz birra em público e os tutores passam vergonha.

Se a “mamã” da Saúde olhasse, com os olhos sem qualquer índice de miopia, às enfermidades com as quais, desde há muito, nos deitamos e só acordamos já com sorte, eu, particularmente, soltaria unhas e dentes em defesa de quaisquer deslizes nas respostas que às vezes larga, mais sarcásticas que as incoerências de um bom cronista, e replicaria até aos confins do universo aquele sorriso que virou meme e que hoje, infelizmente, se esconde atrás de uma máscara cirúrgica.