Numa aldeia distante, era de praxe as crianças irem até ao rio tirar água para levarem às suas casas. Era também costumeiro os pais avisarem-nas para que não brincassem dentro do rio – pois, temiam que as crianças fossem levadas pela forte correnteza – e que muito menos deviam tentar atravessá-lo – pois, havia o risco de elas serem sequestradas pelo infame Homem do Saco. Todavia, havia meninos cuja curiosidade lhes corroía os olhos. Kaculu era desses. E, um dia, decidiu aventurar-se por entre os caminhos proibidos.

Engenhosamente, o rapaz inventou calçados de pedra que o possibilitaram passar incólume pela brava correnteza do rio. Após andar variadas horas por entre as majestosas e intimidadoras árvores, Kaculu viu-se perdido a sonoite. Procurou pelo caminho de volta para a casa, mas sem sucessos. Deixou esvair de seus olhos algumas lágrimas de angústia e medo. Nem lhe foi dado tempo para limpá-las de seu rosto pequeno, pois um barulho sinistro despertou a sua atenção.

O rapaz tentou correr, mas caiu e arrastou-se com os braços até à árvore mais próxima. Enquanto o barulho ganhava maior alarde, Kaculu viu a aproximar-se de si uma figura abissalmente negra, possuidora de um odor horripilante e um par de olhos bizarros, noctívagos, vermelhos escuros, que imediatamente o pôs num grande saco feito de pele de cabra.

Apesar dos gritos e dos movimentos bruscos que o rapaz empreendeu dentro do saco, foi levado com pouco esforço por aquela aberração. Depois de inúmeras tentativas infrutíferas, a Kaculu restou apenas o fôlego para perguntar ao ser que o apanhara:

– Para onde me levas?

Após alguns segundos de silêncio, o maior raptor de crianças daquela área respondeu-lhe friamente, com voz áspera de monstro.

O ratinho que vai procurar comida sem a ajuda da mãe é apanhado pelo gato. As palavras dos teus pais deviam ser como algemas pesadas em tuas mãos, manter-te-iam sempre em casa e seguro. Porém, visto que te atreveste a desobedecê-los, eu farei a ti o que o gato faz sempre que apanha um ratinho.

*

Foto de Adilson Leão

A noite já ia distante. Kaculu estava amarrado a um poste. O ser que o apanhara acendera a fogueira debaixo de uma panela gigantesca e, no momento, colocava o que pareciam ser legumes para dentro dela. Estava abismalmente escuro. Via-se apenas a silhueta dele. Era alguém gigantesco. Não se podia ver o rosto. Via-se o brilho avermelhado de seus olhos. Seria humano? O que pensava fazer com o rapaz? Comê-lo como havia dito?

A figura atemorizante deu passos até ao rapaz. Tinha uma pequena tigela na mão. Brasas – havia brasas na tigela. O ser julgado terrível colocou a mão no arredondado recipiente e girou as brasas. Saía fumo de seus dedos. Ele fez aquilo por alguns segundos, depois atirou – cinzas! Ele atirou cinzas para cima do corpo do rapaz. Como é que conseguira fazer aquilo? Ninguém mexe em brasas e as transforma em cinzas!

O rapaz tossiu – o que saiu das suas narinas pareceram pequenas fagulhas cintilantes em vez das cinzas que lhe foram lançadas. A figura tenebrosa afastou-se. Colocou um pesado e comprido pau na panela e começou a girar. De repente, o brilho da lua aumentou. Kaculu conseguiu ver duas enormes figuras a aproximarem-se do monstro. Um deles parecia ter a forma de um jacaré, o outro parecia ser um fantasma. Ambos se aproximavam lentamente do raptor; não faziam barulho. Quando se aproximaram o suficiente para que a figura de olhos vermelhos sentisse a sua presença, cada um ficou pousado de um lado – um à sua esquerda e outro à sua direita.

De repente, o jacaré começou a ganhar forma humana, assim como o provável fantasma. Os dois ficaram abaixados, em posição de respeito. Pareciam ser seus arautos, seus lacaios, seus servos. Ambos estavam vestidos como indígenas; estavam quase nus. Quando o raptor levantou as mãos para o céu, eles ergueram-se e andaram em aproximação do Kaculu. Desamarram-no e o levaram para perto da figura com os olhos vermelhos brilhantes. Os dois ergueram o Kaculu. O rapaz conseguiu ver o interior da panela enorme. Não era água e legumes que estavam lá dentro. Eram pedras de carvão incendiadas em estado líquido, e cheiravam a petróleo.

Oh! Não! Os homens lançaram o rapaz para dentro da panela. O menino gritou. A panela era tão grande que todo o corpo dele coube dentro do recipiente. Parecia que se afogava em lava. O seu corpo derretia, mas agora já não sentia dor. A sua pele, os seus cabelos, os seus músculos – tudo derretia, menos os seus ossos.

Quando todo o tecido cutâneo, capilar e muscular desapareceu por completo do corpo do rapaz, apenas o tecido ósseo restou. Os dois homens retiram o esqueleto da panela. O esqueleto – o esqueleto tinha vida. Todas as suas articulações não sofreram danos. Ainda era uma pessoa, apenas não tinha músculos, cabelos e pele.

– O que sentes? – perguntou-lhe um dos prováveis lacaios, enquanto o rapaz andava e esfregava os ossos dos braços.

– Sinto frio – respondeu Kaculu.

Outro dos prováveis lacaios colocou um pano pesado sobre o menino. Kaculu sentiu-se aquecer. Os quatro andaram até uma tenda. O raptor estava à frente de todos.

– O que é que vocês fizeram comigo? – perguntou Kaculu, depois de se ter sentado e ver inúmeros objectos artesanais no local.

Antes de receber a resposta, o gigante de olhos vermelhos fez um gesto e os outros dois saíram. O gigante estava de costas voltadas para o rapaz. O raptor retirou o capuz que não permitia que o Kaculu visse o seu rosto. O rapaz viu que o gigante tinha muito cabelo – o cabelo era muito comprido. Ainda de costas, o raptor retirou o tecido ligado ao capuz e rugiu levemente. O rapaz ficou com medo. Kaculu não tinha olhos no rosto, mas via.

O gigante começou a virar-se lentamente. Kaculu viu… seios? Uma mulher? O Homem do Saco era uma mulher?

– És uma mulher? – perguntou ele ao beirar a rouquidão e a gaguez.

– Qual é o problema? – perguntou ela, enquanto os seus olhos vermelhos ganhavam a coloração dos olhos normais. A voz era suave, contudo séria e firme.

– Tu não és o Homem do Saco, és?

– Sou. Porque te surpreendes?

– Todo mundo na aldeia pensa que és um homem: o teu próprio nome diz isso: Homem do Saco. Homem…

– Este nome não se refere a mim, mas à humanidade… à humanidade no saco, à humanidade a apartada do que é bom, à humanidade que faz o que é errado, à humanidade que destrói os nossos campos, as árvores, polui os rios, à humanidade trancada que precisa de liberdade.

– Muito estranho esse teu nome.

– Na verdade, é mais que um nome, é um cargo, é a minha designação. O que me deram para fazer.

– Quem te deu?

– Alguém que veio antes de mim.

– Não percebi – disse o rapaz, levantando-se enquanto sentia que grande parte de seus ossos já estava preenchida por músculos.

– Houve muitos Homens do Saco antes de mim. Temos o período de dez anos para cuidar dessa tarefa. Depois temos de escolher alguém e passar-lhe os nossos poderes. Neste contexto, voltamos a ficar humanos e nos esquecemos de tudo o que fizemos antes.

– E o que faço aqui?

– Foste escolhido por mim… O ritual pelo qual passaste há pouco é princípio da transição dos meus poderes para ti.

– Como assim? Eu vou me tornar num gatuno de crianças?!

– Não ouviste bem o que disse – disse a enorme mulher ao colocar-lhe as mãos pesadas sobre o ombro. – Quantas crianças foram raptadas desde que nasceste?

– Nenhuma… mas…

– Quantos anos tens?

– Dez.

– Entendeste agora? Parece que não. Qual a última pessoa que foi raptada? O que te contaram os teus pais?

– Uma menina.

– Aqui estou eu, dez anos depois… Só são raptados os escolhidos. Nem sequer se chama rapto – disse, reparando que o rapaz olhava para as inúmeras penas finas que ela tinha no pulso. – É uma bênção proteger a natureza, o nosso país… Conheces coisas que mais ninguém conhece. Os animais te pertencem, te obedecem, as árvores, os rios, os mares… Tudo, tudo é teu e está ao teu serviço.

– E quem são aqueles dois?

– Um é o Jacaré Bangão, o outro é o Kazumbi.

– O que é que eles fazem?

– Também são uma ajuda. São os meus olhos nos sítios em que não estou. Quantas províncias temos?

– Dezoito…

– Somos três, cada um cuida da terceira parte desse número.

– Seis.

– Pensas rápido. Exactamente. Cada um cuida de seis províncias.

– Quais são as tuas?

– Bengo, Malanje, Zaire, Cabinda, Uíge e Kwanza-Sul – respondeu ela, contando nos dedos dele.

Kaculu viu que sua mão estava como a de humano novamente, mas que tinha penas finas como as dela.

– Elas serão agora o teu território.

– O que está a acontecer comigo, Homem do Saco? – perguntou o rapaz ao olhar para todo o seu corpo e sentir que sua visão se tornava avermelhada.

– Já te disse. Estás a ganhar novos poderes. Toma. Veste isso – disse ela, atirando-lhe uma pequena peça de roupa com o intuito de encaminhar o rapaz para a saída. – Tens muito que aprender. O teu treino começa a partir de agora.