Se há uma área em que o adágio popular “não há regra sem excepções” que quase atinge um estatuto de dogma, é nas artes. A regra das artes é a sua condição de contínuas excepções, ou seja, a arte é o espaço, em teoria, mais aberto para as inovações que surgem, principalmente de novas leituras sobre verdades estabelecidas. Por isso, é bastante difícil definir pontos universais que possam ser consenso para todos os artistas no que diz respeito ao mais importante a se ter em conta no labor de uma grande obra.

Porém, a par das “excepções às regras”, outro aspecto imprescindível e talvez complementar, é a regra de aceitar desafios. E é neste espírito que me atrevo a enunciar três pontos que julgo serem essenciais para se dar luz a uma obra de arte.

O primeiro ponto é a “inspiração”:

Muitas vezes amada, outras vezes odiada, a inspiração é o sopro do incognoscível que orienta o autor  ao tópico que merece a sua atenção.

Alguns autores proclamam-se independentes da inspiração, para que assim, possam ter sob rédea curta a sua dinâmica de produção artística. No entanto, algumas questões que têm respostas diversas, anunciam que esta postura não colecciona só vantagens. Pois, apesar de que artistas que assim procedem revelam-se mais disciplinados e produtivos, surge a questão: produzir só por produzir, vale a pena? Sendo a arte de natureza apragmática, se a resposta dessa pergunta for positiva, configura-se um paradoxo interessante. O artista se vê a fazer algo (sua arte), mas esse “algo” vem com o propósito de nada fazer. Pois a arte não vem para justificar nada, senão a própria criação. Assim, supõe-se que a inspiração seja o único motivo que justifique uma obra sem retirar a sua característica de apragmatismo.

A título de exemplo, imaginemos uma obra que seja carregada de teor político. Esta se distinguiria do activismo puro, porque se manifesta sempre como uma expressão particular do autor. Assim, mesmo que a obra tenha uma característica persuasiva, o objectivo final é sempre a auto-expressão.

O segundo ponto é o conteúdo.

Inspirada ou não, da arte se espera substância. Aquilo que justifica a necessidade da plateia contemplar a obra. Como disse Saramago: “Quando não ter já mais nada para dizer e continuar a escrever é um crime. Porque não têm o direito de continuar a escrever se não têm nada a dizer”, esse “algo a dizer” é a alma da inspiração, que deverá animar o terceiro ponto.

O terceiro ponto é a forma.

A forma é o corpo da arte. A técnica ou os recursos estilísticos que contribuem para que o conteúdo atinja o grau de subjectividade desejável, para que a comunicação possa englobar o mundo particular de quem aprecia, como o de quem o idealiza, neste caso, o autor.

Talvez seja muito difícil equilibrar esses três pontos ao longo de toda carreira do artista, mas esse equilíbrio parece-me ser a utopia que é perseguida por todos que se dedicam à arte. Consciente ou inconscientemente.