Enquadramento histórico

Em 1482, os portugueses atracavam na foz do rio Zaire. Consequentemente, em 1484, os autóctones tornaram-se “inquilinos” na sua própria terra. Os “descobridores” partiram para “colonização das terras” (Medeiros 1976), levando cruz e espada. Exportados como “ marfim negro” (Cadornega 1680) para Índia e Brasil. Subjugados a preço de “fuba podre”.

A abolição do tráfico de escravos e da escravatura em nada valeu. Tão rapidamente passou-se a “formas mascaradas de servidão” (Ribeiro 1981). Neste período, implantou-se uma colonização baseada na “agricultura e no comércio” como nos diz Carlos Ervedosa, na sua obra Roteiro da Literatura Angolana (3ª ed. 1985); “ confisco de terras ([e de]) castigos corporais” (Ribeiro 1981) . Tudo se tornou difícil, ao ser instaurado o imposto de trabalho, em 1906, levando os camponeses a assalariar-se.

Implantou-se a República Portuguesa em 1910, derrubada pelo golpe fascista que deu lugar ao “estado novo”, em 1920.

O surgimento dos Musseques

O crescimento das cidades trouxe consigo a divisão de classes. Ou seja, causaram diversas perturbações que modificaram a fisionomia e o plano de relações entre os indivíduos. No dizer de Orlando Ribeiro, na obra A Colonização de Angola e o seu fracasso (1985), vieram “multiplicar os musseques”. Lembrar que a palavra “musseque”, do quimbundo, significa “terra vermelha”. Como nos diz Jomo Fortunato, para sermos mais precisos: “espaço de transição entre o universo rural e a cidade”. O musseque é entendido como espaços potenciais de criatividade e de desenvolvimento pessoal e comunitário.

Foi nestes bairros periféricos onde nasceram canções de protestos e outras manifestações artísticas, proferidas por quem sentia na pele o preço de viver numa sociedade esclavagista e segregária. É neste espaço que surge o novo movimento cultural angolano.

Os movimentos culturais e agremiações

Influenciados pelos movimentos vanguardistas da europa e pelos movimentos africanistas que provocaram profundas manifestações artísticas e políticas, surgiram um pouco por toda a parte, movimentos e agremiações culturais. É precisamente, neste momento, que a música angolana irrompe mudando o paradigma. Esse artigo abre uma discussão sobre os movimentos que surgiram na década de 1960.

O nosso objectivo não é, de nenhum modo, analisar a música angolana na sua praxe. Mas cingir-nos a analisar um período de efervescência cultural, anos 60. Queremos particularizar um momento que acreditamos ser de busca por identidade e retorno ao tradicionalismo. Queremos, de igual modo, enfatizar o contributo das agremiações, turmas ou conjuntos. Assim sendo, queremos destacar a relevância que teve/tem os Jovens do Prenda para música angolana.

A Música dos anos “rebeldes”

O ano de 1960 é, particularmente, conhecido como o ano “rebelde”. Foi neste período que ocorreram as mais profundas transformações sócio-politica- culturais, em todo mundo e, em Angola, em particular.

Por ser uma arte transmitida de forma oral, a música está sempre engajada nas mais diversas circunstâncias. Ela propõe valores. Mais do que lúdica, a música é símbolo de contestação.

Carlos Estermann distingue, na tradição oral, quatro géneros que desenvolvem a memória colectiva dos povos: são os contos, as canções, os provérbios e as advinhas. A música angolana é rica destes elementos.

Os primeiros “conjuntos” tinham como propósito a busca da identidade e reconhecimento. As canções retratavam o seu habitat (o musseque): a vida do autor, a realidade social, o ambiente, infidelidade, amor, etc. Estas canções eram acompanhadas por instrumentos de percussão, herdados de outros povos e adaptados aos ritmos tradicionais.

Nos anos 60, a música de protesto assumia-se como a mais elementar forma de transformação Político-social. Bandas como os Beatles (1962), os Hippies (196…) e outros, com seu ideal progressista, influenciaram, de certo modo, as revoluções sociais e culturais dessa época.

MBangula Katúmua, num artigo do Jornal Cultura (2015), diz-nos que “a angolanidade construiu-se na intercepção entre a política e a música, com particular destaque para influência de movimentos de intelectuais e de negritude em África, Américas e Caraíbas”. No nosso caso particular, impulsionados pelos movimentos “Mensagem” e “vamos descobrir Angola”.

Os Jovens do Prenda

Luanda já não era, nesta altura, apenas, “uma pequena urbe habitada, essencialmente, por comerciantes e funcionários” (Ervedosa 1985)”. Luanda era uma “cidade dinâmica” (Ribeiro 1981) onde uma classe média composta por brancos e negros era dominante. Onde as actividades culturais dominavam os “quintais”.

Tinham crescido vertiginosamente os bairros periféricos e o bairro Prenda é um desses. É exactamente onde surgem alguns conjuntos musicais, dentre eles: Os Dikanza do Prenda (ou, na tradução portuguesa, Jovens do Prenda).

Os Jovens do Prenda surgem em finais de 1968. Essa agremiação cultural passou por diversas transformações na sua onomástica: com a designação Jovens do Catambor (1965), Jovens da Maianga (1965), Os Sembas (1966), finalmente, em 1969, passam à designação actual. É um grupo que tem origem nas actividades carnavalescas que, apesar das rupturas, se mantém original. É aclamado na história da música popular angolana.

É um conjunto activo e dinamizador da cena musical do país. As suas memoráveis canções revelaram talentos como Kangongo (caixa), António do Fumo (Dikanza e voz), Zé Keno (guitarrista), Zé Gama (viola baixo), Gaby Monteiro, Baião (solo), Dom Caetano, entre outros valorosos que deram cor e vida à música popular angolana.

Sua crescente popularidade no programa semanal ao ar livre, denominado “Kutonoka” – do kimbundo –, que significa “entretenimento de rua”, colocou-os como os mais preferidos dos bairros informais da capital. Mas, mais do que entreter, suas canções e ritmos eram concebidos para fazer pensar.

Agrupamento em palco. Foto de Clemente dos Santos

É preciso se reter que, durante os anos 60, havia uma preocupação desses artistas em escrever canções com pendor político, conhecidas como “música de protesto”.

Os jovens do Prenda hasteiam a bandeira da africanidade, no seu ritmo peculiar, que lhes granjearam a estima e reconhecimento nacional e internacional. Esses vanguardistas não desviaram a sua temática nem mesmo quando as músicas e danças tradicionais modernizaram-se no contacto com a música ocidental.

Não podemos, desta forma, negar-lhes o título de embaixadores da música angolana. Pois, foi através destes que surgiu o primeiro Single de original com o título de “Brinca na areia”. Foi, sem dúvida, o primeiro disco gravado em Angola. O registo sonoro foi feito nos estúdios da Valentim de Carvalho em Luanda. E foi Artur Arriscado, um dos pilares da Rádio Nacional de Angola, quem o gravou.

Os Dikanzas do Prenda deram um histórico passo à frente no meio musical angolano. Como nos diz Chico Montenegro: “Ninguém queria ficar para trás”.

Num momento em que se fala em internacionalização da música angolana, caberá aos próprios angolanos eleger os elementos genuinamente característicos, pertencentes à sua genética cultural. É preciso voltar e buscar os costumes que constituem espelhos, reflexos da cultura que a inspira.

Bibliografia

Cadornega, António de Oliveira. História Geral das Guerras Angolanas. 1972. 3 vols. Lisboa, 1680.
Ervedosa, Carlos. Roteiro da Literatura Angolana. UEA, 1985.
Medeiros, Carlos Alberto. “A Colonização das Terras Altas da Huila (Angola).” Lisboa, 1976.
Ribeiro, Orlando. A Colonização de Angola e o seu fracasso. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1981.