Volvidas quase duas décadas depois do lançamento do primeiro álbum discográfico de Justino Handanga, lembramo-nos, com profunda saudade, da voz, da letra e do ritmo tocado um pouco por todo o país e na diáspora (especialmente nas comunidades angolanas). O álbum “Onjongele yatelisiwã” (alvo atingido), lançado em 2004, surge numa oportunidade única, fase em que os angolanos acabavam de sair duma guerra civil de quase três décadas. Ora, após os acordos de Paz, a 4 de Abril de 2002, antecedido pelo silenciar das armas dois meses antes, o povo encontrava-se traumatizado devido o conflito que não só destrui as melhores infraestruturas do país como também ceifou milhares de almas e deixou viúvas, órfãos e mutilados. Nesta fase, o povo estava desesperado, a paz ora anunciada parecia-lhe ainda uma quimera.

Apesar do transe, nascia, entre os angolanos, o sonho de reencontrar famílias, reconstruir lares e reedificar o que havia sido destruído pela guerra. Embora o conflito não tivesse assolado todas as províncias, as do sul, sudoeste, leste e principalmente as do planalto central (Huambo e Bié) estavam totalmente arrasadas. Foi nesse momento e circunstância que, entre a vastidão das belas vozes da música nacional, Justino Handanga surge com letras cujas mensagens atingiram a emoção dos angolanos, transmitindo alegria, amor, paz e esperança.

Handaga é um artista que soube ler o momento e interpretar os corações feridos dos angolanos para, então, anunciar as boas novas. E como as principais vítimas do conflito armado tinham sido as populações do centro e sul do país, o artista serve-se dos seus conhecimentos da cultura desse povo e, assim, canta a paz então alcançada e pedi aos seus irmãos para regressarem às suas terras a fim de reaver os seus bens, rever os seus parentes sobreviventes do conflito e contribuiu, sobretudo, para a união e reconciliação nacionais.

Pelo exposto, nota-se no trecho desta música: “Ndumbalundo uyakiwanelekulo/ Cilo wapwa ndityukila kimbo/ Amanjange ndacipopale/ Ohalielã ikapwawe/ Tukanda Kovambo etu akome/ Tukakala ciwa he…”. Como consta, o artista serve-se da língua umbundo (a segunda mais falada em Angola, depois do português) como instrumento de comunicação por excelência. Assim, numa tradução literal da estrofe anterior, temos a seguinte mensagem: “Sou do Bailundo, vim parar aqui por causa da guerra/ Mas agora terminou/ Voltarei para a minha terra// Oh, meu irmão/ eu bem dizia que um dia o sofrimento iria acabar/ Iremos às nossas terras/ E seremos felizes…”

A estrofe desta música convida os seus compatriotas que, por motivos do conflito armado, se encontravam longe das suas terras, dos seus kimbos (lares), motivando-os a regressarem à casa. Conforme podemos notar no refrão da mesma música: “Helãokwenda/ eheya/ Helãokwendaehe/ Tutyukilaeheya/ Tutyukilaehe/ Tuyukilakumãieheya/ Tutyukilaehe/ Helã okwenda avoyo eheya/ Helã okwenda ehe”. Tradução literal: amanhã, voltaremos/ Voltaremos/ Voltaremos para a mãe/Voltaremos/Amanhã voltaremos. Ora, o final desta música reveste-se duma linguagem conotativa penetrante que leva o ouvinte a viajar no tempo e no espaço, ao dizer: “Olumnda vyokimbo vyovyo vimolehã we ehe/ Lumbanganda omulehã akome/ Ocipalã lovaso/Ocipepi Lutimawe/ Ndilinga ndaty avoyo akome/ Okutate koko cavala” (refrão). Traduzindo: “Lá estão as montanhas da minha terra!/ O moro Lumbanganda também aparece/ É distante com os olhos/ Próximo com o coração/ Que faço então!/Lá está a terra do meu pai!”

A música anterior, quando fosse ouvida por alguém que a compreendesse, resultava numa verdadeira catarse, na medida em que permitia ao ouvinte esquecer-se dos problemas do passado, voltar-se para si e, reanimado, pensar mesmo em voltar para a terra, pois é lá onde cada um tem o que precisa para sobreviver e consegue encontrar os seus entes queridos, com os quais é possível ser feliz verdadeiramente.

Decerto, Handanga não se limite a estimular saudade e incentivar o regresso a terra. Sendo um artista conhecedor da realidade política do país e a situação deplorável por que passavam muitos angolanos, recorre à música e encontra nesta um meio fecundo para consciencializar e, ao mesmo tempo, denunciar a crise dos direitos humanos, visto que, após o término da guerra, o governo escusou-se de servir o povo, negando-lhe o necessário para viver e frustrando aqueles que se dedicaram à pátria.

Três das suas músicas corroboram com a ideia anterior, a saber: “Ndikalume” e “Vatekateka” e “Kolofeka”. A primeira, cantada num estilo mais relaxante, retrata a vida de um homem que, diante das vicissitudes da vida, se sente desprezado e humilhado por estar privados dos seus direitos fundamentais no seu próprio país para o qual contribui, por um lado; por outro lado, por estar abandonado pela sua família à qual amou e dedicou a vida toda. O personagem da música vive melancólico e, a lamentar, questiona a sua condição de homem (macho). Diz, portanto, ser homenzinho, insignificante que, de tanto pobre, a esposa divorciou-se dele, carregou os filhos e, por fim, acusou-o de feiticeiro. Assim, num estilo profundo, o artista pranteia: “Ndikalume we/ Ndikalume amãi we/ Ndikalume we ndacitwile vohali”. “Sou homenzinho (não sou macho) / Eu sou homenzinho, minha mãe/ Homenzinho sou por ter nascido no sofrimento”.

Outrossim, denuncia a injustiça social, cujo apanágio é exploração do homem pelo homem, em que o povo trabalha árduo e tanto se esforça para sobreviver, mas, mesmo assim, a riqueza concentra-se nas mãos da minoria, a que detém o poder político e económico, tendo todos os privilégios, enquanto a maioria (o povo) sofre vivendo de migalhas. Ainda diz que não teve o privilégio de estudar enquanto os seus contemporâneos se formaram tendo alcançado uma vida equilibrada. E, pelas suas competências, sem antropologia africana, conhecedor do folclore do povo umbundu, recorre aos provérbios para passar a mensagem. Assim cantou: “Tulosanji vyolomeke ño/ Tupayela ava valya/ Akulũ tupopisi ndoco tukalila mwele oco/”: “Somos meras galinhas cegas/ Escarafunchamos comida para os outros/ Mais velhos falem por nós/ Se continuaremos a sofrer”.

Já a música “Ndatekateka”, a semelhança da anterior, representa os gritos de angústia e desespero de um ex-militar que perdeu a mobilidade durante a guerra e, em consequência disso, passa a vida a mendigar para sobreviver, como quem nunca tivesse defendido o país. Enquanto os governantes ostentam luxo, conduzindo viaturas top-de-gama, tendo acesso a viagens de primeira classe, com direitos à alimentação saudável, saúde, casas luxuosas, aquele que um dia lutou e perdeu a vida em combate consola-se, portanto, em pirangar. Por tais impossibilidades, a vítima sentiu-se privada do direito de ser pai, na medida em que reconhece, diante de Deus e dos homens, não ser justo um sofredor gerar filho. Assim, verseja: “OKucita akome ndkusole/ Masi kacitava monda kusuku ekandu/ Ndaotala hale ohali/ Ukanene ukwene kilu lyeve/ ame ndikuka/Ciñokela okulila”. Traduzindo: “Eu também amo ser pai/ Contudo, não devo/ É pecado diante de Deus/ Porque se sofres, não deves trazer o outro a terra/ Portanto, isto dilacera-me, pois estou a envelhecer sem descendente.”

Por último, a música “Kolofeka” é uma reflexão antropológica e sociológica em que estabelece a diferença entre a realidade de Angola e a doutras nações. Ousado e inteligente, canta: “noutros países as crianças têm a honra de estar na escola a estudar, mas em “Angola do sofrimento” as crianças passam o dia na lixeira a recolher lixo, enquanto os pais colhem lenha e produzem carvão para vender (…)”. E termina dizendo que os mais velhos choram e até sentem saudade do regime colonial, porque o sofrimento é insuportável. Para não nos alongarmos no discurso, vejamos estes versos: “Kolofeka viamalë omalã vatito/ Vasaayala kolosikola mãie/ Etu voNgola yongongo amãi we/ Omalã keyala okunolã ovinende/ Papai Upange Okatyaña olõi/ Okyoka akala lokualandisa/ Akulũ valivela kaputo eh/ ekandu nye olohali valowa…”. Aqui subjaz a ideia segundo a qual no governo colonial os angolanos tinham uma vida melhor em relação ao momento imediato ao cessar do conflito. Tal pensamento, embora depreciativo, é justificável, porquanto é comum (e sabemos disso) vermos crianças expostas a garimparem, na lixeira, resto de comida, vestuários, brinquedos e outros objectos, que os seus pais não lhos podem comprar. Isso constitui um atentado à saúde das crianças e violação aos seus direitos.

Todavia, além da lamentação e do desabafo, também explora os versos de amor e entretenimento. Tal é o exemplo das músicas “Paulina”, “Okambela”, “Olonamba” só para citar algumas. Decerto, o músico, imbuído num espírito crítico, concebe uma música ecléctica, em que se cruzam vários ritmos e mensagens de diversas índoles.

Portanto, a música do artista que nos propusemos abordar é rica em diversos ângulos da arte e cultura. Ritmo próprio, voz única e letras de caris antropológico africano e, concomitantemente, de intervenção social muito forte. Analisadas sob o ponto de vista dos textos literários, as suas composições musicais cumprem com os pressupostos básicos da poesia: linguagem conotativa, expressividade, ritmo e melodia, o que o torna cantor-poeta. Handanga, mais do que músico e exímio intérprete, também foi (e ainda é) defensor dos direitos humanos.