O kuduro é um estilo que derrubou as barreias do preconceito e conseguiu chegar às nossas casas. Lembro-me, quando era criança, de ter sido castigado com vara por pronunciar o nome do músico “Queima Bilhas”. Na época, considerava-se o nome imoral demais para se pronunciar em público. Entretanto, hoje, quando “partimos cama” ou “fizemos amor”, não nos ocorrem as noções de moral ou de ética do antigamente.

O estilo kuduro nasceu no princípio da década de noventa, no meio suburbano, tendo como mentor o músico e bailarino Tony Amado, cuja inspiração para tal nascera de um movimento do actor belga Jean-Claude Van Damme, feito no filme intitulado “O Desafio do Dragão”, que veio a público em 1988, no qual o actor dança embriagado.

O neologismo kuduro pretendia designar “rabo duro”. Com o passar do tempo, foi ganhando outras conotações, passando a significar um género musical e estilo de dança.

O kuduro acolheu outros nomes que o desenvolveram, tais como: Rei Webba, Sebém, Queima Bilhas, Camilo Travasso, Bruno de Castro, Dj Znobia e, posteriormente, Dog Murras, Caló Pascoal, Os Radicais, Mestre Yara, Killamon, os Caixa Baixa, os Lambas, Bruno M e tantos outros…

O estilo musical kuduro assenta numa base de ritmos tradicionais, com raiz em estilos como Kabetula, Kazukuta do Sambizanga, o Cabecinha do Bengo e com grandes influências de certos estilos do Congo Democrático, nomeadamente o Sukuse e o Kwasa. Tem ainda influências do Tecno, do Pop e do Rap norte- americano.

Este último, acabou por trazer elementos como a rima e, até, a própria métrica levada por artistas vindo do Rap. Bruno M, Rei Panda, Nail e outros foram os responsáveis por esta “deambulação artística”, que serviu para enriquecer mais ainda o estilo musical Kuduro.

O estilo foi muito combatido pelos mais conservadores, devido a agressividade na dança, as suas fracas composições e o uso de calões e expressões populares dos musseques, que, por si só, reflectiam a pobreza existente neles, de onde a maioria dos artistas era originária.

As letras de kuduro caracterizam-se pela sua simplicidade, humor e, muitas vezes, até pelas ofensas explícitas; as letras são normalmente escritas em Língua Portuguesa, com recurso a uma ou outra palavra nas línguas nacionais ou, ainda, em inglês. Porém, é o calão, falado nos nossos musseques, que domina grande parte das letras de kuduro. Por sua vez, enquanto estilo de dança, o Kuduro vai beber de movimentos de danças africanas, tais como a Cabetula, a Cabecinha e o Kwasa associados ao Break-dance e ao Popping (americano). As performances são apresentadas individualmente e, outras vezes, em grupo, com muita teatralização e com recurso à expressão facial.

O kuduro, por um lado, tem sido um estilo emergente e com muita aceitação a nível internacional e, por outro lado, paradoxalmente, internamente, continua semanticamente a estar associado à ideia de confusão, desorganização e rejeição. Talvez seja movido pela ideia de combate ao produto de criação das novas gerações. É a luta geracional existente dentro de todas as manifestações artísticas feitas em Angola.

Apesar das críticas e definições menos boas, o estilo jamais poderá ser descartado da nossa vivência, é a maior bandeira cultural do nosso país e continuará a ser, pelo menos por mais alguns anos, tal como expressou o escritor José Eduardo Agualusa, num comentário sobre kuduro, “Talvez nunca antes em toda a história de Angola um outro fenómeno cultural tenha conseguido ganhar tanta expressão”.