“Ignorar a vida no momento certo exige uma sabedoria especial.”
(Bukowski)

Por andarmos amarrados a esta vida das letras, afirmamos aos leitores coetâneos, agarrando-nos nas cordas dos pensamentos de Jesus Cristo, que o problema não é aquilo que entra no indivíduo, mas sim aquilo que sai do mesmo. Um bom homem, que se considera racional, deve pensar em plantar uma árvore, escrever um livro e deixar um filho na terra. Afirmou, certa vez, Pablo Neruda, poeta que dispensa apresentações para qualquer bom leitor e/ou artista das letras:

«Sobre a terra, antes de tudo, existiu a poesia». A literatura tem o condão de mudar vidas, curar as áfricas que um indivíduo carrega no seu imo. Só no mundo das artes, em particular, da literatura, é que um humilde se torna conhecido universalmente. A literatura deve ser este espaço em que ricos e pobres, teístas e ateus se unem. Não fosse por este mundo, cremos, nunca muitos dos grandes homens que, hodiernamente, colocam os nossos pensamentos na corda bamba, nos levam ao deleite e espevitam a nossa imaginação, não seriam conhecidos. Fazer literatura é um acto de liberdade, de utopias, não deve ser um acto de se tornar endinheirado, famoso ou, sei lá, deus na sociedade.

Depois dos tempos dos trovadores, griots, da cultura frequente do bucolismo, cronicões, romantismos, realismos, simbolismo e outros “ismos” atinentes à literatura, enfim, das épocas das vozes que clamavam nos desertos, das mensagens e culturas, em Angola e no mundo, tem surgido uma tendência de escrever cada vez mais poesia, em forma de poema ou em prosa poética. Mormente, pela sua magia, a poesia toma dianteira na produção de micro e macro textos de um homem que se entende escritor. Na maioria das vezes, os escritores começam com a poesia, contudo, por causa das dificuldades que há em continuar a fazer poesia, “a escassez de musas”, acabam por deambular em outras bandas, em outros géneros literários: a crónica, o conto, a representação ou teatro e o romance.

Ela, a poesia, é fonte de mistérios gozozos, dolorosos e gloriosos. Pensamos ser a primeira forma de filosofia que o ser humano encontra no cosmo. Nem todo texto escrito em versos é poesia, ou seja, escrever em verso é quase actividade necessária para se compor poesia, porém não é actividade suficiente para se compor um texto que entendamos como poético.

Raramente, um escritor é bem-sucedido ao compor poesia. Para que um escritor chegue a ser quase bem-sucedido em poesia, achamos, é necessário que permita que as palavras que serão colocadas na folha de papel saiam do seu âmago, partam dum ocaso da sua imaginação para desaguarem no papel. Ínclitos, engana-se quem pensa que a poesia é a forma mais fácil de escrever um texto literário. Se um conto, uma crónica ou um romance podem ser a explicação ou desenvolvimento de uma poesia, uma poesia pode ser a sinopse de uma crónica, de um conto ou de um romance. A poesia, como dianteira da literatura, existe em muita ou pouca porção de toda a arte literária quando o texto nasce do imo do seu autor. Ela é sagrada e deve ser praticada em momentos próprios, quando há razão para tal intento: nos momentos em que se quer chorar, cantar, celebrar, se elevar ou maravilhar o cosmo e o microcosmo, portanto.