Em véspera da publicação da segunda edição da Antologia “Emergente – Novos Poetas Lusófonos”, a Palavra & Arte senta-se “Na palavra” com Kussu Kappo.
Entre portugueses, espanhóis e brasileiros, Kussu Kappo marca presença como o único angolano na primeira edição da antologia poética que dá voz e oportunidade de publicação a 12 novos poetas lusófonos. Com nove textos divulgados, esse poeta, causador de orgulho nacional, obtém proeminência nesta edição.

Palavra&Arte: Como um dos vencedores do concurso literário lusófono organizado pela editora portuguesa “Livros de Ontem”, fala-nos de como foi ser um dos selecionados para publicação na Antologia Emergente?

Kussu Kappo: Fomos mais de cem participantes oriundos dos diversos países da Lusofonia. Número correspondente ao de autores da primeira antologia “Emergentes”. O júri deve ter tido um trabalhão daqueles, tanto que o processo de recolha, análise e selecção dos textos levou, mais ou menos, 12 meses. Confesso ter ficado surpreso quando a Editora notificou-me, pois tinha passado um ano após o envio dos textos. Antes pensei que o projecto teria feito voo baixo e descartaram dele, mas não, finalmente estava a ser trabalhado com os cuidados que desconheço.

Embora tenha antes participado noutros projectos paralelos, revitalizou-me em continuar a escrever, o regozijo e orgulho de fazer parte deste projecto e sendo a primeira publicação, foram dois factos. Sei que está em curso o segundo projecto e sabendo que já passo da faixa etária e não poder voltar a participar aleija um pouquinho, mas, claro, reconforto-me tão rápido lembrando que já lá consto. É gratificante!

 Pois é! Não só fazes parte deste projecto promissor como fazes parte da sua primeira edição. Acrescento ainda que fazes parte dele como o único angolano selecionado. Será que isso tem algum significado especial para ti?

 Eu acho que tem uma responsabilidade mutável, ou seja, eu e como os outros novos autores angolanos devem sentir e saber que cada um de nós é um veículo que nos vai desmembrar para que as outras comunidades estejam dentro das flexões e valores culturais que nos comporta como angolanos. Em particular, esta e qualquer matéria relacionada a Angola é incomodativa no sentido correctivo.

 “Confesso ter ficado surpreso quando a Editora notificou-me”, disseste. Porquê dessa reação? Não esperavas ser selecionado? Como te convenceste a participar no concurso e qual foi a tua atitude inicial?

A minha admiração foi mais pela demora do processo. Quanto à probabilidade de ser ou não selecionado, me é transversal nestes concursos. Acredito sempre na capacidade de análise e selectividade do júri.

Se bem lembro, teria visto o anúncio no Facebook e fui logo confrontar o regulamento na página web oficial da Editora “Livros de Ontem” e vi que constituía os requisitos e de imediato candidatei-me no concurso.

Sem esquecer que a minha atitude neste e noutras antologias tem sempre o suporte da pretensão de partilhar o que escrevo e duma certa forma ir interagindo com outros escritores.

E por quanto demora a publicação do meu primeiro livro, as antologias serão sempre projectos a encarar com prontidão.

 Esta foi a sua primeira participação em antologia, ou já havias participado em outras? Se sim, poderias falar mais sobre elas?

 Na verdade, esta, para mim, é a mais recente antologia em que participei. O meu primeiro texto poético está publicado na V antologia de Poetas Lusófonos pela Folheto Edições & Design, em Leiria, creio eu, em 2013. Desde esta primeira aventura, voltei a concorrer para a VI antologia de Poetas Lusófonos, II antologia Palavras Sem Fronteiras, antologia Poética da ACLAV e antologia Vingança 2 (Conto), Publicações da Literarte no Brasil e por cá, em Portugal, tive ainda a oportunidade de participar na antologia Universal-Rio dos Bons Sinais em 2014 e 2015 pela CEMD (Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora).

Este é o meu gráfico de publicações colectivas e continuo atento para os próximos projectos que me parecerem ambiciosos.

Recordo ter escrito um poema sobre uma criança da Síria que não queria sair de casa sem a sua bicicleta, mesmo com roncos de toda artilharia.

 Não há sequer um trabalho do género angolano na sua lista. Isso porque não existem, não os encontras, são difíceis de participar, ou há outra razão para tal?

 Não as encontro.
O facto de estar fora de Angola me tem limitado estar à corrente do que é desenvolvido em termos de antologias literárias.
Há com certeza projectos do género em Angola, ainda que em proporções miúdas, mas as mesmas não são divulgadas como devia ser. Creio que haverá mais concorrentes angolanos, estejam eles em Angola ou não, e se os próximos projectos vierem a ser divulgados. Mas também admito a minha desatenção nalgum projecto colectivo que tenha havido em Angola.

 Como resultado desta “desatenção” que tu mesmo mencionas, é seguro dizer que não tens uma opinião formada sobre o estado actual da literatura angolana?

 Francamente não.

Mas é uma tarefa que reservo para um momento oportuno.

Considerando outras fontes de informação, quando comparado com angolanos em Angola, penso ser seguro afirmar que tens mais acesso ao que é publicado online. Caso concorde, qual a sua opinião sobre o acréscimo do número de jovens interessados na literatura apontado por muitos? Isso acompanhando suas publicações em blogues e noutros portais de informação online.

Penso que sim. É considerável o aumento da população angolana nos últimos anos e consequente surgimento de novos talentos para a literatura.

Conheço a partir de cá o Lev’ Arte que tem desenvolvido várias actividades de incentivo à leitura, e os elementos que o compõem são um exemplo para destes novos escritores angolanos. Quanto aos leitores, o número é ainda reduzido. Infelizmente, há motivos vistosos que desviam a probabilidade de mais leitura e isto é uma queda que se tem registado noutras sociedades também. Falo precisamente das redes sociais, mesmo com a digitalização dos livros em aplicações diversas a leitura continua lá nas últimas páginas de prioridades pessoais, mas há também quem tenha uma dinâmica inversa e que faz a diferença.

São tão palpáveis as consequências produtivas na nossa sociedade, por certos indivíduos estarem a ocupar funções em áreas onde não se especializaram. É verdade que isto se deve a razões ramificadas desde o oportunismo, imposições e laços, o famoso “olho grande”, até mesmo por estratégias políticas.

 Certamente, parece que estamos mais nos extremos, ou se lê bastante ou não se lê. Aproveitando agora fazer uma “Proposta Literária”, fala-nos um pouco sobre o teu poema selecionado para a antologia? Sobre o que é? O que lhe inspirou a escrever? Como e porque o escolheu?

Um dos pontos do regulamento da Antologia “Emergente” pedia que cada autor enviasse nove poemas, ou seja, no universo dos mais de 100 participantes, bastava que um poema dos nove estivesse além do critério do júri para que os outros oito ficassem sem efeito, pois a meta do projecto era publicar 12 autores com 108 poemas. Ou seja, são nove poemas de minha autoria.

A inspiração para compor os poemas em causa, normalmente, tem motivos, lugares até mesmo tempo.   Escrevo por tudo que me desperte, desde as diversas notícias que a imprensa me faz chegar, até mesmo uma conversa entre amigos. Recordo ter escrito um poema sobre uma criança da Síria que não queria sair de casa sem a sua bicicleta, mesmo com roncos de toda artilharia. Este é um exemplo de muitos assuntos que me fazem reflectir e despertar a caneta e o papel.

Todos os poemas que envio nas várias Antologias em que tenho participado são os que leio, leio outras vezes e as acho-os normais porque todos os outros que me parecerem excepcionais nunca os publico, reservo-os para futuras publicações pessoais, mas posso estar enganado. Já recebi elogios da parte de leitores que já tiveram contacto com textos meus e a magia poética é precisamente democrática, pois cada um pode ter uma interpretação que difere do pensamento do autor no momento de composição de um poema.

 

Maravilha! Não há dúvidas que sejas um escritor de cachimônia cheia. Esperamos ansiosos por outros trabalhos seus, principalmente os pessoais. Agrada-nos terminar em nota reflectiva. Há alguma coisa que queria deixar para os que por intermédio dessa entrevista te lêem, especialmente os que agora imergem no mundo literário?

Ainda tenho muito por aprender tanto que nem a metade da metade que escrevia o Heinz Konsalik por dia posso eu, embora não tenha a disponibilidade e outros suportes para que possa reunir todos os detalhes que me façam sentir cómodo neste universo da escrita e pesquisa. Para quem tiver o acesso a esta entrevista, deixo a minha energia de que nunca desistam daquilo que realmente gostam, pois é tão embaraçoso e mesmo doentio estar-se alojado naquilo que está no além do nosso prazer. São tão palpáveis as consequências produtivas na nossa sociedade, por certos indivíduos estarem a ocupar funções em áreas onde não se especializaram. É verdade que isto se deve a razões ramificadas desde o oportunismo, imposições e laços, o famoso “olho grande”, até mesmo por estratégias políticas. Angola precisa de acertos e novos projectos depois do que foi desmembrado durante a guerra, isto é, com formação e paixão devida para que cada um possa fazer como deve ser o seu trabalho. Ninguém faz bem o que mal percebe, antes só deteriora. Não peço que leiam números excessivos de páginas, mas, se o fazerem em dez minutos por dia, será o melhor começo, e quem lê com frequência que o faça mais e mais.