A máxima “o poder é do povo” sempre teve é sentido realístico fora da política. Linguística e socialmente falando, as coisas acontecem, morrendo, nascendo e/ou ressuscitando por decisão colectiva do povo, movida por várias necessidades inerentes à sobrevivência. E de necessidade de sobrevivência, o povo angolano está cheio. O povo então decidiu repensar o que é nigéria e o que não é. Lembram-se, pois? Os dos anos 80 para baixo entenderão. Mas deixa refrescar a memória dos mais lentos e enquadrar os mais novos.

O termo nigéria – vês que está grafado inicialmente com minúscula – não se refere ao país africano, e, sim, sociolinguisticamente falando, a um adjectivo pejorativo ou substantivo quando antecedido da preposição de (da nigéria) que, segundo a nossa memória mais recente, era (é) usada para nos referirmos a todo produto falso, mesmo com um selo de marca prestigiada. Apenas as pessoas pertencentes a um nível social baixo, com pouco poder de compra, é que se viam descriminadas, pois, mesmo que surgissem, imaginemos, vestidas em roupa de uma marca prestigiada e original, pelo seu nível social, só podia ser nigéria. E se esta roupa fosse produzida num país desconhecido em termos de consumo, ainda assim, para o povo seria nigéria. Foi produzido em Angola!? É nigeríssimo!

Mas a Nigéria tem tudo a ver com o nascimento deste neologismo, socialmente falando. No período em que vivíamos em guerra e alguns anos pós-guerra civil, pela sobrevivência, produtos vários tinha origem em vários países africanos, como Nigéria. Porém, sabemos que o nosso continente não é, ainda, potencialmente industrializado, daí a dúvida da qualidade de qualquer produto de origem africana, com raríssimas excepções, como a África do Sul. Mas isso também tem lá as suas razões históricas, ou seja a falta de fé em nós mesmos é uma das várias consequências do colonialismo a que o continente foi submetido durante séculos. Mas não falemos aqui de política. Continuando, da Nigéria vinha vários produtos de marcas prestigiadas, porém copiados, que, misturados com os produtos de origem americana, por exemplo, dificilmente se sabia o que era e o que não era da Nigéria e da nigéria. Nasce, a partir deste contexto histórico-social, o neologismo (palavra nova) “nigéria” (da nigéria), carregada de uma carga de sentimento discriminatório, mas que não feria (ou fere), porque o seu contexto de uso era (ou é) quase sempre o de descontracção entre pessoas com uma relação elevada de confiança ou, ao nos referirmos a um terceiro, far-se-ia entre cochichos.

Mas há anos que este neologismo deixou de ser novo. Estagnou no seu processo que a levaria da margem da língua para o vocabulário seleccionado de nome dicionário. Está entre esta e aquela, na linha divisória.

Mas há um ano e mais alguns mesitos, instalou-se uma febre, no país, de nome Naija, estilo(s) musical(is) só que de origem nigeriana. Ou por lá houve uma revolução industrial para crermos agora num produto do nosso querido irmão africano, ou “da nigéria” morreu mesmo antes de ganhar alforria.

Há 15 anos, mais ou menos, poucos, os fortes, viam-se a apreciar música africana, e esses, ainda assim, eram bem selectivos: Salif Keita, Youssou Ndour, Lokua Kanza, só para citar alguns monstros da música africana. Era visto como falta de gosto musical, falta do que fazer ou sei lá mais o quê, aquele que demonstrasse gostos musicais africanos principalmente fora daquele grupo. Mas fomos apanhados. Hoje, “da Nigéria” mexe as partes mais íntimas dos nossos sentimentos rítmicos, ganhando a atenção de muitos até de cantores que já se renderam ao Naija. Cabo Snoop cantou-o tal nigeriano com aquele inglês característico de África, com as vogais bem abertas, tal como deverão já estar, também, abertos os caminhos para o artista angolano no país mais populoso do continente africano. Outro que se deixou levar pelo estilo contagiante é Tchoboly. Este cantou no bom português angolano “Papel”, embora alguns “azarados” se tenham dado o trabalho em vão de classificar a música como Kizomba. Vê se pode!?

E para fechar com toda esta interessante reviravolta de interesse pelo que é nosso,  um dos cantores nigerianos mais bem-sucedido no estilo, poisou as plantas dos seus pés na capital, mostrando, no dia da dipanda, o que víamos e ouvíamos apenas pela TRACE TV. Só tenho as minhas dúvidas, se o que ele vestia não tinha como não ser da nigéria!