Em Dezembro, não há nada que mais nos agrade do que ouvir “já caiu”: o feiticeiro que nos amarrava durante os primeiros 11 meses do ano, portanto, caminho aberto para sairmos deste e entrarmos no ano que se quer novo; o dinheiro que o fulano nos devia há meses; o salário de Dezembro e o 13.º, que, há dois anos, foi sepultado em quatro cemitérios diferentes, de modo que seja surreal juntá-lo e tê-lo completo, embora morto. Mas, meus irmãos de eterna espera, nada disso se pode vislumbrar, nem pelo binóculo.

Se houver um culpado da tua desgraça, este, com certeza, não te vai largar logo em Dezembro. Mas só se houver, porque não há outro culpado da tua incompetência, seja ela qual for, senão mesmo tu. Mas se houver, este não é teu feiticeiro exclusivo, é nosso, partilhamos: o mesmo culpado dos atrasos de nove meses de salário dos trabalhadores da empresa de transporte SGO é o mesmo que assassinou o 13.º, cortejando em quatro partes, impossibilitando que lhe déssemos um funeral condigno: assassinos da nossa esperançosa felicidade, de bacalhau a peixe seco de carapau. Este é o nosso feiticeiro. Então, meu comiseriâneo, sintamo-nos compadres do mesmo funeral, cujo difundo se apagou na esquina da nossa sala, por falta de combustível que lhe permitisse acender e apagar, no jogo habitual de que a EDEL nos ensinou, por isso, morreu de desgosto.

Mesmo com o novo rei, o palácio do petróleo vive em crise dos derivados do produto que explora, agudizando as nossas crises, que nos farão encostar os nossos Starletes modernos: como carregar as panelas de piteu na casa da sogra sem pneus? Coitados daqueles cujas sogras estão noutra província, sem falar do apagão que se poderá fazer convidado exclusivo nas ceias das famílias angolanas cuja alternativa de fonte de energia eléctrica é o gerador.

Pior a tudo isso é que, no 22.º dia do mês do nascimento de um jesus, a três do natal, o 12.º não cai. Como esperar que um daqueles milagres que deixei lá em cima se realize? Não há como o fulano ou sicrano te pagar o kilápi, se ambos são amarrados pelo mesmo feiticeiro. Este mesmo ngapa deverá estar a provocar atrasos de salários de instituições privadas, como colégios, principalmente aqueles cujos gestores e proprietários são autênticos desumanos, herdeiros do feitiço do nosso feiticeiro-mor, porque dependem das propinas para pagar os salários dos seus funcionários: quantas famílias estão a depender destes salários para comerem em Dezembro? Já não digo para terem um natal condignamente, porque este, como vemos, foi novamente adiado por ordens superiores.