A literatura entendida como específico  que se concretiza por via da linguagem verbal caracteriza-se como um subsistema em todos os sistemas linguísticos. Ela autonomiza-se por se distanciar significativamente dos sistemas primários, constituído pelo conjunto de línguas naturais consideradas vivas e, fruto das suas especificidades, no âmbito da prática de tradução, os textos decorrentes dessa actividade criadora apresentam-se como os mais complexos de serem traduzidos. Tal complexidade resulta, certamente, da sua própria natureza, na medida em que, como é sabido, não seja fácil delimitar o conteúdo específico do texto literário. Geralmente, para esse efeito, quando se pretende aludir a diferença entre o que é literário e o que não é literário, desde os primórdios às escolas contemporâneas, os teorizadores do fenómeno literário procuram fazê-lo, fundamentalmente, através da delimitação duma linguagem literária que se demarque da não literária.

A dificuldade de se demarcar a linguagem literária da não literária pode ser observada por via do trabalho de René Wellek (2003) com o título «A Natureza da Literatura», no qual afirma que «a literatura, ao contrário das outras artes, não possui um veículo exclusivo». Por ser um subsistema de um sistema, no caso o linguístico, torna-se um pouco confuso delimitar o texto literário, visto que os intervenientes de certas realidades socioculturais, às vezes, se servem de certos códigos linguísticos similares aos do sistema semiótico literário. Por isso mesmo, Wellek (2003) considera ser mais fácil distinguir a «linguagem da ciência» da «linguagem da literatura», deixando subentendida a dificuldade que há em distinguir a «linguagem quotidiana» da «linguagem literária».

Tal dificuldade deve-se, em primeira instância, ao facto de a língua ser o principal instrumento de manifestação cultural de qualquer povo, e a práxis literária revelar-se geralmente como um fenómeno estético-cultural. Os textos literários resultam de pensamentos, emoções ou sentimentos: processos psíquicos ou traços psicológicos presentes, não só na comunicação literária, mas também em diversas situações comunicativas extraliterárias. Sobre essa questão, diz o referido autor que «a linguagem emocional não está confinada exclusivamente à literatura». Assim, se nos ativermos à etimologia da palavra texto – do latim «textus» – significando, de acordo com o «Dicionário de Latim-Português / Português -Latim» da Porto Editora (2012, p. 506), «tecido, teia, textura e narração». Interessando-nos o lexema «narração», que nos remete ao oral ou ao escrito, podemos questionar-nos até que ponto um acto de conquista amorosa, o repúdio de alguém traído pelo(a) parceiro(a), o choro, ou o lamentar de uma mãe que perdeu o filho não constituirá um texto literário? Escritores como Luandino Vieira, Uanhenga Xitu e tantos outros incorporaram na sua prosa os falares do quotidiano angolano como um valor estético. Quanto ao primeiro, com este processo de angolanização do português, embora tenha negado por razões histórico-políticas, sabe-se que foi o vencedor oficial duma das edições do prémio Camões, e excertos da sua obra figuram como exemplos da Variante Angolana em certas gramáticas do português contemporâneo, em matéria de variação linguística. O erro parece-nos situar-se nessa vã tentativa de se compreender a natureza da literatura como algo imutável, circunscrito a uma determinada realidade espácio-temporal. É preciso compreender que

a unidade da obra não é um todo simétrico e fechado, mas sim uma integridade dinâmica, com um desenvolvimento próprio; entre seus elementos se coloca não o signo estático da adição e da igualdade, mas sempre o signo dinâmico da correlação e da integração. A forma de uma obra literária deve ser entendida como uma entidade dinâmica (Tinianov, 1924, p. 477).

No entanto, por abstracção e com vista a facilitar o estudo, pode-se dizer que a linguagem literária é

abundante em ambiguidades, como qualquer outra linguagem histórica; é cheia de homónimos, categorias arbitrárias ou irracionais; é permeada de acidentes históricos, lembranças e associações. Em uma palavra, ela é conotativa (Wellek, 2003, p.15).

A este argumento de Wellek (2003) acrescenta-se outras características como a plurissignificação, a subjectividade, entre outras, apresentadas, geralmente, por gramáticos. Entretanto, se analisarmos rigorosamente tais características, concluiremos que são aspectos imputados à poesia lírica, na medida em que existem prosas que são meramente denotativas. Afinal, qual é a natureza do texto literário? Concluir como Todorov (1970 como citado em Silva, 2010, p. 17) que, para além da linguagem, não há um denominador comum para todas as produções literárias? Para evitarmos qualquer ambiguidade, achamos conveniente ater-nos às categorias modais: dramático, narrativo e lírico. Pese embora não se configurem como categorias rígidas e normativas, e existirem um conjunto de textos que encerrem características dum ou doutro género, os designados textos híbridos. Todo e qualquer texto que se nos apresente como literário acaba sempre encerrando elementos de um dos modos aqui citados. Mesmo quando híbrido, há sempre uma categoria modal que se sobrepõe a outra. Logo, podemos dizer ser perfeitamente possível identificar um texto literário, apesar de reconhecermos a fragilidade da sua fronteira.

Bibliografia

• Porto Editora (2012). Dicionário de Latim-Português/ Português-Latim: Dicionários Académicos. Porto: autor.
• Tinianov, I. (1924). O ritmo como fator construtivo do verso. (L. Lobo, trad.). In L. C. Lima (2002) (Org.) Teoria da literatura em suas fontes (Vl.1, pp. 473-483). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
• Silva, V. M. A. (2010). Teoria da Literatura. (8ª ed.). Coimbra: Almedina.
• Wellek, R. & Warren, A. (2003). Teoria e metodologias dos estudos literários. (L. C. Borges, Trad.). São Paulo: Martins fonte.