O génio festivo e inventivo faz parte da idiossincrasia do povo angolano. Esta característica é bem mais visível diante das agruras da vida. Para contrapor o sofrimento, o povo angolano forja sempre um novo mito. Um mito capaz de reunir, integrar e solidificar os laços. Capaz de tirar da opacidade à transparência: a luz. Estamos convictos de que o estilo Kuduro tem vindo a ser esse mito capaz de unificar todas as franjas da sociedade. Como diz Marcos Napolitano “a música tem sido (…) a tradutora dos nossos dilemas nacionais e veículo de nossas utopias sociais” (Napolitano, 2002).

A inexistência de trabalhos, o crescente número de desempre­gados, a globalização assimétrica e económica, o êxodo rural, as desigualdades sociais, tudo isso permitiu o surgimento do estilo Kuduro. O Kuduro é hoje aclamado como um estilo revitalizador.

ANOS 90: NASCIMENTO DO KUDURO

Existem duas versões, que divergem, quanto ao surgimento do Kuduro: por um lado, temos a versão de Tony Amado, por outra, a de Sebem. O primeiro afirma ter “cria­do” o estilo baseando-se no filme de Jean-Claude Van Damme, Kickboxer. Já o Sebem reivindica o facto de ele ser o “expoente máximo” na divulgação do referido estilo, logo assume-se também como criador.

O kuduro não surgiu como a teoria do Bing-Bang, não foi através de uma explosão, ela tem uma história, como qualquer outro género musical.

O estilo kuduro, como dissemos, emergiu de uma atmosfera de crise. Na década de 90, sucederam, em Angola, alterações político-sociais significativas. O conflito armado trouxe para Luanda inúmeras famílias que esperançavam encontrar paz.

O êxodo rural, neste caso, acentuou os musseques que cresceram de forma vertiginosa. É nestes bairros periurba­nos onde, por causa da vida sedentária e dura, algumas pessoas encontraram motivos ou escapatórias de sobrevivên­cia. Para enfrentar a penúria há quem tenha trocado o lar pela janela aberta; Há, também, quem “se tenha entregado às religiões”; como houve quem se tenha entregado ao crime e outras malfeito­rias; famílias arranjaram pequenos negó­cios. Enfim, todos procurando alternati­vas para opor-se aos embaraços da vida. Estas e outras necessidades desenvolve­ram, no angolano, a índole inventiva.

Consequentemente, nasceram alguns negócios como é o caso dos vídeos clu­bes, onde não havia restrições de idade nem de género cinematográfico. Via-se de tudo desde o drama à pornografia. É exactamente num destes filmes onde surge a inspiração da criação da dança kuduro, segundo os seus criadores. Desde esta época, o Kuduro vem galvani­zando e criando espaços de confluências entre os mais variados sectores da nos­sa sociedade. Neste quesito, o Ku-duro, como dissemos, criou uma espécie de unidade nacional na diversidade.

Embora consensual que o Kuduro seja estilo nacional, há ainda a problemática da sua criação. Existem duas versões, que divergem, quanto ao surgimento do Kuduro: por um lado, temos a versão de Tony Amado, por outra, a de Sebem. O primeiro afirma ter “criado” o estilo baseando-se no filme de Jean-Claude Van Damme, Kickboxer. Já o Sebem reivindica o facto de ele ser o “expoente máximo” na divulgação do referido estilo, logo assume-se também como criador. Não queremos fomentar qualquer discussão quanto ao surgimento do estilo, mas trazer uma proposta biográfica.

Este trabalho é um fragmento e pre­tende contribuir para elaboração da biografia da cantora de kuduro Anabela Etianeth Ferreira Bento, conhecida por Noite e Dia.

NOITE E DIA: DA OPACIDADE À TRANSPARÊNCIA

Noite e Dia
Noite e Dia

Anabela Etianeth Ferreira Bento ou, simples­mente, Noite e Dia, nasceu no dia 24 de Ou­tubro de 1984, no município do Cazenga, Rua azul da Precol. Anabela Etianeth distingue-se pela postura majestática e sensual. Nascida numa família humilde, iniciou sua vida profis­sional como bailarina do grupo de dança Fano Jackson, tendo captado a atenção de familia­res, amigos e simpatizantes do grupo. A du­ração do conjunto foi efémera. Para acalmar a predilecção pela dança, ingressou no Destino, um outro grupo de dança, preferencialmen­te, tradicional. A curiosidade despertou-a, em determinada altura, a largar voos para outros ares: a música. É-nos praticamente difícil ilus­trar outros contornos da carreira por inexis­tência de material. Em Angola, não é cultura elaborar fichas biográficas. Talvez por alguma inexperiência, já que escrever uma exige muito esforço do biógrafo.

Como nos diz Marcela Boni Evangelista, na resenha da obra de David Margolick, Stran­ge Fruit: Billie Holiday e a biografia de uma canção: “Escrever uma biografia é um desafio que envolve a entrega do biógrafo a um universo outro. (…) Escrever uma biografia é mergulhar em uma história de vida e, muitas vezes, considerar as muitas vidas que se enlaçam na trajectória do biografado.” (Evangelista, 2013).

Concordamos que escrever uma biografia é um trabalho árduo, pois ela requer pesquisas profundas, consulta e confronto de diver­sas fontes; desfazer-se de preconceitos, de estereótipos, crenças e experimentar um carácter de transubstanciação. Escrever uma biografia é vivenciar e compreender a vida do biografado.

Em relação à nossa Anabela Etianeth Fe­rreira Bento, Noite e Dia, de sublinhar que não queremos fazer uma biografia comple­ta por nos sentirmos circunscritos à visão.

É milenar a mania de mudar o nome próprio por alcunhas. É uma tendência de todas as faixas etárias, seja ela da meninice, juventude ou idade adulta. Os cognomes são dados mediante características físicas, profissão ou tipo de actividade, gostos, por analogia, por similitude, etc., e com Anabela não foi diferente. O pseudónimo “Noite e Dia” advém do gosto pelas roupas brancas e pre­tas. Neste caso, por analogia à noite e ao dia.

Quando descobriu a música, motivada por Fofandó, Puto Prata, mestre Yara, entre outros, que faziam sucesso, Anabela passou definitivamente a Noite e Dia.

Noite e Dia é o nome mais sonante quando se fala em vozes femininas do kuduro.

O HALL OF FAME E A PROIBIÇÃO DOS PAIS

Noite e Dia
Noite e Dia

Adolescência é o período de transição entre a infância e a idade adulta. É também a fase da descoberta não só do ponto de vista da fisionomia, mas, sobretudo, das aptidões. Em geral, os pais, apesar de não serem alheios aos problemas desta etapa da vida, embaraçam-se, não têm autoconfiança, não sabem como explicar e proíbem simplesmente. É necessária rebeldia para não deixar morrer o talento que fervilha em nós.

Se, no início da sua carreira, os pais de Anabela tivessem que carac­terizar a cantora, diriam apenas que é desobediente. A desobediência costuma ser confundida com rebeldia, por ambos conceitos apresen­tarem aspectos semelhantes.

A sua rebeldia em cantar um estilo “marginal”, fê-la sentir a dureza dos seus pais que a proibiam com uma certa violência. Para “supor­tar” a pressão dos pais, aliou-se aos irmãos Beny e Mina. Estes acon­selhavam a irmã, mais nova, a ser talentosa, a brilhar e não lhes fazer passar vexame.

O primeiro dueto de Noite e Dia foi com Puto Prata. Puto Prata era conhecido pelo lado criativo e pelas composições. Ele compôs uma canção para a estreante que a gravou sem qualidade.

O grande êxito de Noite e Dia, que a colocaria definitivamente no hall of fame, é a música Kibexa. Realista e nitidamente inspirada na expressão “persistência é o caminho do êxito” de Charles Chaplin, a artista irrompeu os paradigmas da sociedade e dos seus familiares.

Depois deste hit (N.T êxito ou acerto), provou-nos que o Kuduro não é um estilo marginal. O kuduro é o portento de salvação para muitos jovens, alienados ou não, que vivem à margem do politica­mente ou artisticamente correcto. Ele possibilita a integração destes ao convívio social. O kuduro é uma espécie de catarse individual ou colectiva. Através das letras podemos vislumbrar toda uma geração que sonha, que sobrevive aos dramas existenciais. É a partir desta visão que pensamos ser, o estilo kuduro, um antídoto à dor e ao des­espero. Um chamamento à resistência e à resiliência.

A TEMÁTICA E A PERFORMANCE

As letras da Noite e Dia revestem-se duma originalidade inconfundível, ou seja, meio “açucaradas” e “Instigantes” que despertam o corpo para a dança. Muitas vezes, estas letras criam uma música do tipo selfie. Música selfie é para mim uma espécie de auto-retrato. Neste sentido, o autor dá maior ênfase em si mes­mo, revelando um certo narcisismo. É uma característica bem visível nas letras das músi­cas de Noite e Dia.

Quanto à dança Kuduro, é muitas vezes teatralizada. Esse tipo de movimentações tem uma dimensão profícua, sendo que se tor­na uma espécie de veículo de comunicação, acabando, muitas vezes, por ter uma vertente curativa e interventiva.

Um verdadeiro exemplo é a música “Lhe avança”. Ainda que tal música nasça num con­texto imediatista do “selfie music”, onde o su­pérfluo tem peso de ouro, “Lhe Avança”, para mim, só pode significar a vontade dos homens que. Quando bem dirigidos, estes homens são capazes de trazer mudança social.

A forma majestática e excêntrica de como se apresenta, o talento e a rebeldia fizeram da Anabela Etianeth Ferreira Bento a luz que irra­dia entre os palcos; da opacidade e privações encontrou a transparência, a luz. A luz que carrega no palco, que imprime em cada hit. A luz que lhe tornou rainha.