Ao atendermos os resultados das manifestações artísticas e socioculturais realizadas neste tempo e espaço comum, somos levados à análise histórica reveladora dos vários interesses a que está associada a cultura através das épocas. “O século XIX representa o momento de estruturação de um espaço social consagrado à cultura tal como o conhecemos hoje em dia” (Centeno, 2012, p. 116). No mundo todo, teatros, óperas, orquestras, museus e bibliotecas multiplicaram-se durante este período graças a um esforço assegurado pelos estados. No entanto, vários são os sentidos adicionados de forma progressiva ao conceito de cultura, mas é sobretudo no século XXI que a ideia de cultura vem conhecendo maiores transformações, reunindo a tudo novas e múltiplas preocupações de uma sociedade em mutação.

Se quisermos, podemos asserir, tal como muitos outros especialistas sociais, que o Maio de 1968 francês foi o marco das grandes revoluções mundiais, e que os espaços para as manifestações artísticas e socioculturais passaram a ser reinventados pelas dinâmicas inerentes a todos os contextos consequentes daquele. Mas não nos inocentamos aos gritos que emitiram, na altura, os muros de Paris: “Ce n’est q’un début” ou “Este é apenas o começo”. Aquele foi só o começo daquilo que, por exemplo, o sociólogo brasileiro Edgar Morin, chamou de “êxtase da História”. Pois, a propagação dos espaços, lugares e movimentos culturais é, também, o resultado daquele êxtase.

Dentre nós, as manifestações artísticas e socioculturais enquanto, também, produto das revoluções mundiais vêm sendo materializadas nas mais diversificadas plataformas, em lugares onde se revela a pluralidade de ideologias políticas, religiosas, laicas, culturais; lugares onde a criatividade se estabelece quer enquanto recurso simbólico da identidade local, quer como recurso livre de exteriorização individual e/ou colectiva. Neste caso, a cidade de Luanda e algumas outras poucas vão conhecendo novos espaços ou, até mesmo, espaços que se reinventam pelas dinâmicas ecoadas no sorriso dos novos tempos.

A arte no espaço público emerge com vigor. Dentre as inúmeras formas e os distintos contextos em que está presente, ela vem ocupando lugar significativo nos espaços urbanos da sociedade, criando convergências, potencializando contradições, integrando vazios urbanos, reivindicando também a harmonia ao desatacar as contrariedades específicas dos homens. Ela também revela cenários inventivos e, arriscamos mais, cenários inimagináveis à medida que concede a coexistência de todas as manifestações a si inerente a partir das negociações que se firmam entre o campo ampliado da arte e todos outros muitos campos da vida social.

Como lido algures, “a cultura constrói os códigos e as linguagens simbólicas em que radicam os sentimentos de pertença a um colectivo de base territorial.” É, no entanto, neste conceito a que nos enlaçamos para compreender como os novos espaços urbanos dão sustentabilidade à liberdade criativa para a construção de códigos e linguagens simbólicas enquanto “subterfúgio” dos sentimentos das gerações.

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Num programa específico, o governo angolano estabeleceu a construção, por todo o país, de espaços como Casas da Juventude, como lugar de encontro de culturas e de outas manifestações. Espaços que se diluíram nas políticas desprovidas de identidade que dialogassem com o local em que estão inseridos e, por isso, vão sendo continuados numa correcção convertida em mediatecas; estas vão alargando-se no tempo e sendo, por isso, espaços que propiciem algumas das manifestações artísticas e socioculturais. A abordagem tida na concepção destes projectos passa, muitas vezes, pela intervenção no espaço público circundante. Esta é uma forma de não só enriquecer aquele local com outros usos, mas também de estabelecer, através daquele espaço, uma ligação à cidade, fazendo com que ele se insira na rede de recursos que, em si, dialoguem com a própria identidade local.

A inserção na nossa sociedade de espaços como a Casa das Artes, o Centro Cultural do Rangel, as Mediatecas, a Casa Ubuntu, Clubes de Leitura, Centro Cultural Dr. Agostinho Neto, Livrus,Kassemba Terra Preta, Casa Rede, Centros Recreativos e Culturais e muitos outros que, pela sua natureza, se esquivam do tradicional, constitui os desejados avanços de uma sociedade carente de actividades discriminadas centradas na cultura.Neste ínterim, para descomprimirmos a ideia destes espaços/lugares, optamos, assim, as proposições apresentadas por Tuan (1983, p. 151) ao afirmar que “O espaço transforma-se em lugar à medida que adquire definição e significado e os define como centros aos quais atribuímos valor e onde são satisfeitas as necessidades biológicas”. Assim sendo, por tudo com que se estabelecem, estes lugares constituem novas possibilidades para a acção cultural. Através da concretização de novas práticas culturais e artísticas abertas a várias dimensões da vida e do quotidiano, são lugares que participam na reinvenção do lugar da cultura na cidade e na sociedade.

Segundo Gomes (2002, p.160), o espaço público, na sua definição fundamental,

pressupõe a interlocução entre actores sociais, que buscam manifestar as suas diferenças através de uma inter-relação subjetiva, ou seja, pela comunicação das consciências individuais, umas com as outras, realizada com base na reciprocidade. Entretanto, a relação de reciprocidade estabelecida pelo diálogo só será bem-sucedida na medida em que for permitido ao indivíduo manifestar sua razão, confrontá-la à opinião pública sem obstáculos ou sem subjugar a razão do outro, estabelecendo um debate numa linguagem que possa ser comungada pelos demais.

Deste modo, a concretização desses fins leva-nos a aderir a já supracitada frase de Tuan, com recurso a de Henry (2010, p. 5), pois, nesses espaços, “a cultura apresenta-se como objeto de preocupações estéticas, mas também, e sobretudo, como linguagem. A linguagem de uma crítica à sociedade e aos mundos instituídos da cultura e da arte”. Assim, tais espaços se definem e ganham significados na medida que se realizam, reinventando-se por meio das manifestações artísticas e socioculturais albergados por si, satisfazendo, assim, as mais diversas necessidades dos indivíduos.

Democracia cultural…?

Ao longo do século, o crescimento cultural das cidades é acompanhado por um processo de descentralização espacial, seja em relação à cultura, seja em relação ao lazer, bastando-nos, para isto, observar algumas galerias de arte, bares, bibliotecas, centros recreativos e afins instalados nas periferias; assim, o nascimento ou a reinvenção dos espaços urbanos e suburbanos que suportam as manifestações artísticas e socioculturais representam opções que criam roturas com o elitismo típico dos espaços e lugares dos costumes. Entretanto, devemos também aceitar o lazer, tal conceituou Gomes (2004, p. 124): “[…] uma dimensão da cultura constituída por meio da vivência lúdica de manifestações culturais em um tempo/espaço conquistado pelo sujeito ou grupo social, estabelecendo relações dialéticas com as necessidades, os deveres e as obrigações”. Afinal, aqui o lazer deve ser entendido como um campo específico de actividade em estreita relação com as demais áreas de actuação do homem.

Assim, a perspectiva de democratização cultural materializada por políticos e parceiros, baseada na configuração do fazer crer que ampliar o acesso aos bens culturais e serviços afins é estrita e principal função das políticas culturais, guiadas só por entidades do género, é deficitária, por tender a encarar a cultura e o povo como partes distintas e isoladas uma da outra, afastando-se da visão mais alargada, por desconsiderar que todo indivíduo é também produtor da cultura.

Cá, a democratização cultural ainda se esfarrapa em políticas desentendida, desenquadrada no tempo e estática, pois “não muda as formas de produção e consumo dos bens simbólicos.” Por isso, olhamos atentos aos dizeres críticos de Canclini (1987, p. 49): “a democratização, quando consiste em divulgar a cultura, implica na definição elitista do patrimônio simbólico, sua valorização unilateral pelo Estado e por sectores hegemônicos, e pela imposição paternalista ao resto da população.” Pois, esta propalada “democratização” anula-se pelas opções que se vão criando com o nascimento ou reinvenção dos espaços e lugares nas cidades e periferias. Espaços que se demovem por iniciativa da natureza própria dos tempos, da esfera política e seguem autónomas como fruto de uma sociedade com necessidades de se manifestar.

No entanto, o contexto social deve constituir o elemento fulcral na elaboração de políticas culturais, pois que os gostos, os hábitos quotidianos e a experiência cultural que é construída ao longo da vida e das relações de sociabilidade de cada ser humano vão influenciar o aproveitamento que cada pessoa terá no contacto com as expressões artísticas. Assim, como sujeitos e produtores da cultura, os indivíduos devem participar da elaboração das políticas de cultura para a sua comunidade. Neste sentido, o conceito de democracia cultural nos parece mais adequado para pensar a promoção do desenvolvimento sócio-cultural, passando pela gestão das acções culturais preocupada com a promoção da participação popular e a organização autogestiva das actividades culturais. “O objetivo é incentivar a criação, buscando o desenvolvimento plural das culturas de todos os grupos em relação com suas próprias necessidades.” (Faria, 2003, p. 38).

Portanto, a reinvenção dos espaços ou lugares de manifestações artísticas e socioculturais ― dentro das dinâmicas actuais ―, por tudo que lhes é inerente, constituem-se como lugares de (re)construção da autoestima mais do que individual, social; como lugares de modificação do “eu” social e de descoberta de universos; lugares de transmissão de valores e de construção de símbolos e códigos. Afinal, elas, as manifestações artísticas e socioculturais, podem e têm que dirigir o indivíduo para consciência, para emancipação individual e colectiva e para transformação social. Uma outra característica que define estes lugares é a interdisciplinaridade, a presença das diversas disciplinas artísticas, mas também a abertura para outros registros que não especificamente artísticos. Partindo desse pressuposto, todos os espaços supracitados e alguns outros poucos que vão surgindo formam palcos de transformações e interacções sócio-políticas, económicas e culturais e, tendo as artes como parte constitutiva e construtora, podendo ser um importante agente estimulador e fazedor das mudanças dentro de uma sociedade, afirmamos que tais lugares devem insistir-se na divulgação e promoção das artes, das manifestações em diferentes dimensões de sua expressão cultural, pois, se estes projetos se apresentam, em primeiro lugar, como artísticos e culturais, são igualmente sociais e urbanos.

BIBLIOGRAFIA

Canclini, N. G. (1987). Políticas Culturales in América Latina. México: Editora

Grijalbo.

Centeno, M. J. (2012). As organizações culturais e o espaço público: a experiência

da rede nacional de teatros e cineteatros.Cidade: Caminhos do conhecimento.

Faria, H. (2003). Políticas públicas de cultura e desenvolvimento humano nas cidades.

Gomes, P. C. C. (2002). Ensaios de geopolítica da cidade. Rio de Janeiro: Bertrand

Brasil.

Gomes, C. L. (2004). Dicionário crítico do lazer. Belo Horizonte: Autêntica Editora.

TUAN, Y. (1983). Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. Trad.: Lívia de Oliveira. São Paulo: Difel.