“O ofício literário é uma actividade inelutável e não devemos sacrificá-la em benefício de um simples «gracejo» e/ou pernicioso pensamento crítico”.

Escrever, diz-se que está em voga. Todos tornamo-nos escreventes e titulares do ofício. Literatura ou não, estamos engajados a talhar alguns fonemas, juntar sílabas para construção do edifício-frase, engendrando o texto. Literário ou científico, todo o texto deve ter alma e, além da marca do seu autor, um novo paradigma. O texto deve fazer-nos viajar para além da palavra escrita. Deve tocar-nos, invadir-nos no mais profundo, nos limítrofes do ser. Só assim, e graças à heterogénea presença de uma têmpera refinada, poderá se conhecer a cristalização do texto.

As novas correntes literárias carecem de uma redefinição e de novos critérios, para tal é preciso forjar uma disciplina que venha a estudar a jovem-geração de escreventes, que analisa os meandros da pré-criação literária, as complexidades do texto, o que de invariavelmente temos e que herdamos da literatura dos nossos antecessores, a intertextualização e, se não bastasse, a categorização dos artefactos textuais.

Não queiramos ser Pilatos e lavar as mãos. É preciso ser Sócrates, e parir ideias, criar espaços de diálogos, fileiras de aprendizagens, para não continuarmos a ver a “descristalização” da literatura, pois são muitos que escrevem sem o sentido histórico e sem muitos conhecimentos literários. Escrevem ignorando a própria realidade, fazendo uma literatura sem contexto e desconexa do espácio-temporal. Em alguns casos, não conseguimos identificá-los, pois praticam uma literatura indecifrável. Os seus detractores (as vedetas) apenas limitam-se a açoitá-los, negando-lhes a possibilidade de melhoria. Não apresentam escapatórias e/ou alternativas concretas, apenas destilam o fel, que nos fazem lembrar os versos do poema, de John Skelton: “meus versos são esfarrapados, rasgados e torturados…”. Não se cobra a ninguém o que não se ensinou. É importante não confundir o homem e o artista.

Não queremos dizer que devemos reinventar a literatura, mas, sim, queremos dotá-la de um novo sentido, em que desponta dos espaços de silêncio o “tema profundo”. É preciso desenhar novo itinerário pelo qual o candidato a todas as ciências, sobretudo à literatura, se descubra, se acha e reinventa. O ideal literário se descobre a partir da espontaneidade do espírito aberto, na silenciosa paciência da leitura, na infinita proximidade de tudo, mas é através da procura de si mesmo, da libertação do desconhecido e irrevelado, que ela passa à existência. É daí que percebemos que é preciso educar o candidato a escritor a experimentar tal sentimento. Não sejamos “serial killer”, assassinando escritores, em muitos casos, promissores, até.

A literatura é “sensação” e não queremos confundi-la com o sensacionalismo que certos nefelibatas nos têm tentado impregnar, dissimulado ao sabor do pão-nosso de cada dia. É preciso regimentar os critérios para o ensino do pensamento livre, que deve dar rédeas à criatividade. Essa liberdade de criação não pode limitar-se ao interesse transitório deve levar-nos a indissolúvel unidade com o infinito. Mas sabemos nós que tanto a disciplina quanto a liberdade só podem ser obtidas a partir da experiência do trabalho.

O ofício literário é uma actividade inelutável e não devemos sacrificá-la em benefício de um simples «gracejo» e/ou pernicioso pensamento crítico. O candidato a escritor deve libertar-se do conformismo e do censo-comum, deve ter convicção moral, aceitar opiniões contrárias, aceitar somente tudo aquilo que foi submetido à análise justa, sem a amálgama de calúnias e intimidações. É preciso praticar a erudição sem sofística prudência, sem cinismo, pois «nunca é tarde para se emendar».