Há um tempo pra cá decidi perceber a relação que há entre o artista e o meio em que este está inserido e, por mera coincidência, uma amiga, C. Clemente, brindou-nos com um texto no qual retratava muito bem esta relação- avaliando a ligação entre os nossos músicos kuduristas e o meio social.

Sabe-se que a Arte nada mais é do que a expressão daquilo que se encontra enraizado no nosso subconsciente ou daquilo que se vive ou viveu, por esta razão notamos que os romances escritos nas eras em que se passava por um momento tenso, num determinado país, têm um pouco ou muito do “picante” da tal época, porque a arte é o artista e este é influenciado pelo meio. Por conta disso, penso que seja a hora apropriada para se pensar a nossa arte.

Dizia um certo filósofo: “conhece-se um governo pelo tipo de música que dá ao seu povo”. Tal filósofo foi feliz em sua afirmação e, para acrescentar em tal brilhante pensamento, eu diria: “conhece-se o governo, não só pelo que permite, mas também pelo que censura”. Qual tipo de arte um governo censura e porquê?

A arte, mormente a música, está a dirigir-se a um abismo do qual não se sabe como sairemos, mas de quem é a culpa, dos artistas ou do meio no qual estes estão inseridos?

O problema é um conjunto e, assim como o corpo muda sua aparência após ser lavado, a mudança do artista depende da mudança do meio e a arte o acompanha.

A música que nos são servidas pelas rádios e TV (obviamente que nem todas) mostram a arte sendo usada como um meio de angariação de valores que não se conseguiriam por outras vias; correm imediatismos nas veias que se espalham no verso de cada estrofe cantada, não propriamente um amor à Arte.

O porquê de certas músicas passarem pelos nossos olhos todos os dias, mesmo não carregando algum teor que nos faça repensar nossa vida e nos acrescente como pessoas, continua sendo uma incógnita para quem quer que continue sendo incógnita, mas voltando à frase do grande filósofo, teríamos a resposta em grande. Será que nos estão a tentar fechar os olhos para o caos que nos cerca ou a vontade de nos manter entretidos é tanta, que se faz isso por amor a nós, o povo?

Por intermédio daquilo que cantamos ou escrevemos, consegue-se notar do que estamos a precisar: precisa-se de educação; de saúde; de Comida no prato, precisa-se que paremos de nos rastejar e suplicar por um carteira ou um pedaço de pão. E, se quisermos ter certeza disso, basta um ouvido nas músicas do nosso mano Rei Loy, que se auto-intitula “Pai do lamento”, mas quem criou o “Pai do lamento”? A vivência do artista!

Precisamos repensar a Arte e, muito antes de nos vestirmos de ternos e sapatos, a fim de irmos falar sobre o estado podre dela, dever-se-ia pensar sobre o estado podre do Estado, pois, se muda o artista quando se muda o local em que está inserido.