O presente estudo visa a explicitar como a poética do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola se impregnou em toda a produção poética de José Luís Mendonça. Para o efeito, a nossa abordagem deverá ser de enfrentamento filosófico e colocará diferentes campos categoriais em discussão: Historiografia da Literatura Angolana, para contextualização dos factos literários;  a Teoria da Literatura, pra fundamentação do fenómeno de intertextualidade como efectivação desse espectro a que nos referimos no título, assim como outros aspectos inerentes à Versificação; e a Filosofia Política, porque o homem é, em termos aristotélicos, um animal político, e a literatura é uma construção humana que resulta das relações entre os homens e com o meio envolvente. Ademais, o corpus do espectro de que falamos nasce da reivindicação política e cultural à margem do sistema colonial. Resumindo, diga-se que vamos convocar o poeta José Luís Mendonça para uma operação crítica de natureza dialéctica.

José Luís Mendonça nasceu em 1955, no Golungo Alto, e assume-se publicamente como membro efectivo do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, fundado em Luanda, em 1948, e cujo rico e inextinguível legado encontra hoje, na sua visão, na Angola independente, a oportunidade e o ambiente para o seu resgate pleno. Mendonça fez a sua aparição no mundo das Letras com Chuva Novembrina, obra à qual foi atribuída, em 1981, o Prémio Sagrada Esperança. Publicou várias obras de poesia e prosa, das quais as mais recentes são: O Reino das Casuarinas (romance, 2014), Angola, me Diz Ainda (poesia, 2018) e Se os Ministros Morassem no Musseque (romance, 2019). Em termos de premiação, José Luís Mendonça demarca-se da grande maioria por várias vezes ser galardoado. Em 2005, o ministério da Cultura atribuiu-lhe o Prémio «Angola Trinta Anos» à sua obra poética Um Voo de Borboleta no Mecanismo Inerte do Tempo, sendo que anos antes fora já contemplado com Grande Prémio SONANGOL de Literatura 1988  com  o livro «Respirar as Mãos na Pedra»; Prémio Sagrada Esperança 1996 com a obra «Quero Acordar a Alva»; Prémio dos Primeiros Jogos Florais do Caxinde 1997 com o livro Se a água falasse, uma odisseia que continua com a outorga do Prémio Nacional de Cultura e Artes na categoria de Literatura. Dirigiu e editou durante quase uma década o Jornal CULTURA, quinzenário angolano de Artes & Letras. Presentemente, tem vindo a desenvolver uma série de projectos relacionados com o fomento da leitura e da aprendizagem da língua veicular nas escolas e junto de organizações juvenis.

José Luís Mendoça, como ficou evidente, é proprietário duma vasta obra, cujo processo de construção se dá há quase quatro décadas. Trata-se duma obra que acompanhou os diferentes momentos da Angola independente e que por vezes se viu condicionada pela conjuntura sociopolítica, podendo-se-lhe vislumbrar ainda resquícios de um pós-anti-colonialismo resultante de factos vividos ou contados, quiçá mesmo de traumas próprios da pós-colonialidade. Uma obra, portanto, que pode ser inserida em dois espaços estéticos: eduardista e pós-eduardista.

O primeiro livro do autor foi publicado em 1981, dois anos depois da nomeação de José Eduardo dos Santos como presidente de Angola. Em termos de governação, José Eduardo dos Santos representa uma era de alguns acertos e graves equívocos que, de tão visíveis que são, não precisam ser esmiuçados aqui por imperativo de economia de escrita; em termos ideológicos, a miscigenação orgíaca de correntes, a conversão radical de um grupo político de centro-esquerda de matriz social-democrata para uma extrema-direita romantizada com um liberalismo que deu espaço para a sua divinização e edificou uma minoria milionária em depreciação de um povo.

É neste ambiente de constantes mutações que começou com uma guerra fratricida de motivações externas, passando pela conquista da paz militar em Abril de 2002, culminando com a delapidação do erário que atrasou o progresso do país e degradou a moral dos políticos de modo geral no qual a sua obra se desenvolve.

Durante a primeira fase da sua produção, período eduardista, Luís Mendonça, apesar das opções temáticas, privilegia a escrita barroca, a retórica requintada, construída com os elementos mais sublimes da natureza, entrelaçados num corpus poético-linguístico em que se vislumbra o esmero, o culto pela palavra. Esta fase perdura de 1981 com o livro «Chuva Novembrina» e prolonga-se até a publicação do livro «Não Saias sem mim à rua esta manhã» em 2011.

Os temas variam e gravitam entre Angola e África. Porém, como o principal espaço estético é o angolano, abriremos um parêntese para abordar temáticas relacionadas com África e sua relação com o resto do mundo, principalmente com o ocidente, através da poesia de José Luís Mendonça.

África é tratada como o continente berço. Entretanto, fruto do maior crime contra a humanidade, a escravatura, reergue-se agora como um todo face à conjuntura de organização territorial e administrativa moderna:

Dos ossos crispados África desponta/ teias de vento onde mães ainda/ da fonte para o sol arrastam/

Para Que A Raiz do Ngoma Na Pele Seja Deus,

In Respirar as mãos na Pedra

É nesse espaço estético e antropológico que o poeta reflecte e postula as suas inquietações.

Sobre o nocturno coração de África/ (Sub)verto minhas águas/

Sobre o Nocturno Coração de África,

In Quero Acordar a Alva

A subterceirização de África, uma temática triste que revela o grau de humanismo em que os povos vivem, encontra a sua fundamentação filosófico – política num poema simples, porém, dos mais belos do autor face à cadeia sonora criada pela aliteração do «s», cuja constante repetição pode implicar ainda o estado de agastamento em que se encontra o sujeito poético:

Subsarianos somos/ sujeitos subentendidos/ subespécies do submundo/ subalimentados somos/surtos de subepidemias/ sumariamente submortos/ do subdólar somos/ subdesenvolvidos assuntos/ de um sul subserviente.

O poema, na verdade, incide sobre a África negra, África a sul do Saara, logo, sobre o homem negro, como se verifica nos versos Subsarianos somos/ sujeitos subentendidos/, quer dizer, os indivíduos  dos sul do Saara cuja contribuição histórica se procurou eliminar por via dum saber acientífico de ramificações eurocêntrica. O poema reflecte o olhar do resto do mundo para com o continente berço, um espaço de experimentação de armas, de experiências epidemiológicas e de produtos subaproveitados (subalimentados somos/surtos de subepidemias/ sumariamente submortos). Tudo isto vinculado a uma ideologia capitalista que transforma tudo em produto mercantil, simbolizado metaforicamente pelo uso recorrente do dólar (do subdólar somos). Todavia, tudo isso acontece hoje porque, segundo o poeta, havia consentimento (de um sul subserviente). Entretanto, dever-se-lhe-ia questionar se, diante dos maiores conspiradores da história da humanidade, África teria chance.

José Luís Mendonça apresenta uma poesia de introspecção filosófica, cuja interpretação não precisa de um tratado de hermenêutica textual complexo:

O homem casa-se/em algo inútil/ despede-se longamente das marés/ com sua mão inversa para matar e para amar!

Pensamento, in Chuva Novembrina

Trata-se de uma obra poética ancorada essencialmente num telurismo intencional do qual emerge o espectro dos poetas do MNIA e, mais longinquamente, Cordeiro da Matta. Isto verifica-se no idiolecto que o poeta elege em quase toda a sua produção. Contudo, expõe-se uma poesia que, referindo-se ao período eduardista, apesar de veicular as mesmas intenções no temário geo-humano, tecnicamente se distancia da poesia da Mensagem e, no âmbito duma operação crítico-dialéctica, chegam-se as seguintes conclusões:

1- A estratégia poética de José Luís Mendonça é motivada por uma barreira psíquica – A chamada Geração do Silêncio foi obrigada a adoptar uma nova estratégia de enunciação poética consubstanciada numa hermenêutica de criação que tornava o texto impercetível à luz do Sistema Colonial após o aumento da repressão em 1961, período ao longo do qual ninguém escreveria um Monangaba abertamente. Por conseguinte, a independência de Angola desembocou numa guerra fratricida com danos irreparáveis, e as obras publicadas até então estavam muito vinculadas aos desígnios do poder: exaltação dos ganhos da independência e o triunfo do socialismo. A hegemonia política do MPLA tinha sido colocada em perigo com a chamada intentona de 27 de Maio de 1977. A reacção, como se sabe, foi catastrófica e o clima de medo instalou-se no seio de uma sociedade que já vivia o drama da guerra civil.Em virtude disso, ter-se-á José Luís Mendonça, que emerge num cenário de monopartidarismo em que o contraditório quase não se verificava, acanhado e, em vista disso, adoptado uma estratégia menos explícita que a dos poetas do MNIA que privilegiavam a estética neo-realista? Outrossim, sabe-se que o poeta frequentou ideologicamente o espaço do Kixímbula em que, através dos cadernos Archote, afecto a esse grupo que emergia à revelia do sistema vigente, deu a conhecer alguns dos seus rebentos. Doutro modo, podemos também comparar o activismo exercido pelos seus símiles (E. Bonavena, Domingos Nascimentos, etc.) que, com a transição para o multipartidarismo, se constituíram como oposição, integrando alguns partidos políticos.

Não se pode negar que se verifica na poesia de José Luís Mendonça, desde o princípio da sua produção, ainda que de forma quase tímida, resquícios dos ideais de luta propalados pelos poetas da Mensagem, como se pode verificar num texto escrito em 1979 com o título Lembrança do Planalto em que o sujeito poético indaga sobre a impossibilidade ou inoperância do desenvolvimento:

De que nos vale o rio/ intransponível? / e as corolas secas/ nos dedos do fim do mundo/ imenso de anteontens tão doces/

In Chuva Novembrina

Num poema dedicado ao poeta Aires de Almeida Santos, com o título O Pensador, o eu-lírico adverte ao destinatário que o sonho não se tinha concretizado e que, portanto, aquele país perspectivado e idealizado durante o processo de libertação nacional não existia ainda:

Um dia saberás por que país/ o novilho dos teus dentes clama ainda/ um sol novo para o lume das formigas/ e o cheiro do pão do tempo/

In Respirar as Mãos na Pedra

2- Estratégia poética de José Luís Mendonça foi imposta pelo seu tempo – Muitos artífices dos anos 80 do século passado têm propalado a ideia acientífica de que a grande ruptura no sistema semiótico-literário em Angola dá-se nesse período. Isto só caberia numa mente acrítica, forjada no ouvi dizer,que não fez uma leitura diacrónica da poesia angolana. Grande parte dos poetas dos anos 80 conviveram e aprenderam com escritores de gerações distintas: o que sobreviveu do MNIA, os da Guerrilha e os que, não integrando a guerrilha, foram contemporâneos destes, ou seja, poetas inseridos num curso de tempo que vai de 1948 a 1974. Destacam-se aqui figuras como António Jacinto, Jofre Rocha, Arlindo Barbeitos, David Mestre, Rui Duarte de Carvalho, Jorge Macedo e outros de grande pinta lírica.

Não se trata de rebaixar o mérito artístico dos poetas de 80, senão a reposição duma verdade que se tem difundido durante anos e cuja repetição, num país como nosso, pode se configurar como verdade. Esses poetas souberam dar continuidade a um processo de restruturação estilístico-literária cujo início se dá nos anos 60 por duas razões: estratégia de enunciação face ao novo contexto de repressão e manifestações das vanguardas literárias que se davam em todo o mundo, tal como Simbolismo, Surrealismo, Experimentalismo e etc., ou seja, há um motivo político e outro literário. José Luís Mendonça é um desses poetas e parece ser aquele que introduz essa geração, denominada por Luís Kandjimbu por Geração das Incertezas.

Antes de 2002, era difícil não pensar na guerra civil. E geralmente os poetas dão corpo aos eventos que presenceiam. Era difícil não tomar uma posição. Por isso, o poeta pede a reflexão de todos os seres pensantes:

Imagina que/não tens terra/não tens tarde/ não tens tropas

Trata-se duma reflexão que, naquela altura, era capaz de abranger todo uma camada pensante. No entanto, hoje, repõe apenas a aspectos relacionados com a soberania dos Estados e, portanto, uma reflexão de natureza política e não sociocultural como no passado. Advoga-se aqui que a guerra em Angola estava a transformar-se numa questão cultural. Ademais, toda a prática reiterada transforma-se em cultura.

Quatro anos de paz e já o poeta revelava uma poesia de impaciência ao ponto de construir um sujeito suicida que se quis lançar prédio abaixo por tudo que observa com desagrado:

Gostava de matirar dum prédio abaixo/ e plantar o meu desejo/ de morder o sol que se prolonga/ das gargantas do polo lá em baixo/

Durante a última década de governação do ex-presidente Eduardo dos Santos, Angola enfrentou uma das maiores crises desde a sua efectivação como estado Democrático de Direito. A governação baseava-se em nepotismo, crientilismo e compadrio cuja elite económica passou a ser constituída por altos-mandatários do sistema político e seus familiares, assim como alguns generais com ligações palacianas. Nesse período, o poeta publicou os seguintes poemários: Poesia Manuscrita pelo Hipocampos, Olfactos de Afecto, Africalema, Não Saias sem mim à Rua esta Manhã, Esse país chamado Corpo de mulheres.

A poesia de José Luís Mendonça, na última década de governação de José Eduardo dos Santos, observou um momento de retenção e voltou-se basicamente para a construção artesanal da mulher e o espelhamento de momentos de intimidades.

Mulher alta como o silêncio da plameira/ mulher negra como o círculo do fogo/

In Poesia Manuscrita pelo Hipocampos

fundo um país com fonemas imprevistos/ no roteiro do teu corpo de mulher.

In Esse país chamado Corpo de mulheres

Trata-se duma poesia de requinte, bela, marcada estilisticamente pela presença dos maiores poetas líricos (Neruda, Rei Salomão, etc.) mas meio que alheia a um dos mais graves contextos da história de Angola: um período de intensa pilhagem e empobrecimento do povo angolano. Pergunta-se: medo ou conivência?

Entretanto, logo após o longo fim do presidente José Eduardo dos Santos na direcção dos destinos de Angola, José Luís Mendonça publica o seu poemário mais explicito, a maior revelação desse espectro a que fazemos referência. Trata-se do livro Angola Me diz Ainda, um poemário no qual se observa uma radical mudança de paradigma por parte do poeta José Luís Mendonça, um poeta que, ao longo dos últimos anos, habituou os seus leitores com temáticas ligadas ao amor, ao erotismo e ao quotidiano social menos contundente. Nessa obra, o poeta opta por um discurso crítico de contornos histórico-políticos que leva o leitor a revisitar factos antigos, partindo do colonialismo, passando pela guerra civil, alcançando o mundo contemporâneo e questionando o social-político, com particular realce a Angola – na sua relação com Portugal. Trata-se de um poemário que surge na linha ideológica do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola e de um projecto do autor que visa a resgatar o pensamento daquele Movimento Literário que, no declinar da década de 40 e princípio de 50 do século passado, forçado por um contexto adverso, lançava o grito vamos descobrir Angola. Angola, me diz ainda é um livro que impactou estrondosamente grande parte dos leitores coevos pela mudança que se julga radical e de estilo e pelas opções temáticas.

A obra de José Luís Mendonça está indubitavelmente entre as mais importantes, pois reflecte os diferentes estados psicossociais pelos quais a sociedade angolana que transita da independência passou. Por fim, pergunta-se: se dos anos 80 a 2000 o discurso crítico-existencial esteve presente, o que terá acontecido com esse sentido  na última década de governação do presidente José Eduardo dos Santos?