— O senhor está aqui por justiça, entendo-o. Entre e termine com o meu pesadelo — disse-me o homem, muito assustado. Tinha uma magreza que formava cavidades excêntricas no rosto e no pescoço. A minha presença no vão da sua porta deixou-lhe com certo desconforto, entrando numa sucessão de gestos de mãos e olhares que, por fim, terminou em me convidar a entrar. Tão logo entrei, apressou-se em se ajustar num passo quase corcunda de tão dobradas que eram as suas costas. Tinha apenas um avental a cruzar-lhe o peito e calças largas de um tecido leve, colorido e quase transparente. Fiquei abandonado na sala de estar. O sítio por onde entrou era uma divisão que tinha a parede espessa, sugerindo ser uma estrutura removível, capaz de estar com facilidade em qualquer posição no comprimento do apartamento. O espaço exterior e interior era desprovido de qualquer ornamento, e a iluminação, rosada, era suficientemente forte e transponível ao peso da cortina que o cobria. A evidência de ser seu quarto estava nos objectos: uma cabeceira e uma pequena estante de diversas coisas próximas a uma cama estreita ao meio de todos eles. Vi o homem sentar-se nela. Inicialmente ajoelhou-se no leito da cama e levantou as mãos palmadas até ao peito. A seguir, sustendo o peso do corpo entre as mãos agarradas ao ferro, içou-se, pôs imediatamente as nádegas no colchão e manteve os pés cruzados um acima do outro. Fez-se demorar por alguns instantes naquela posição.

No cenário da sala, eu estava rodeado por uma dispersão sombria de discos e duas únicas peças de mobiliário: o sofá e um candeeiro de metal que reservava ainda um ar polido dentro do ambiente desgastado do apartamento. Essa precariedade do cenário agonizou-me o pensamento: o meu casamento e a minha mulher chegaram a um estado ignóbil.

Depois de uma viagem juntos, após um longo período de actividades matrimoniais rotineiras, ficou claro em ambos a fadiga de manter o casamento. Apartado de qualquer júbilo sugerido pelos princípios cristãos, eu e a minha mulher nos parecemos estranhos. A sua estranheza tinha, porém, um elemento exterior. Há coisa de meses que a via extasiada depois da minha tardia hora do trabalho ou quando aos fins-de-semana decidíamos estar em casa de familiares. O progresso da sua felicidade espontânea, não gerada por mim, conduziu suspeitas às suas acções.

Foi precisamente deste ponto que notei um lugar extra dos seus sítios habituais. O prédio estava perto da administração da Maianga e tinha um aspecto delicado, o que justificava a quantidade reduzida de moradores. Variando os dias, punha-me a vigiá-la quando lá estava e o tempo que fazia, assim como o legítimo companheiro, este homem, que, naquele momento, me parecia uma figura oriental desguarnecida até de sua fé.

O homem saiu do quarto e, desta vez, olhou-me sem a perturbação com que me tinha recebido. A sua tranquilidade não tinha deixado de ser pálida. Instalou-se no chão, indicando-me com o olhar a disposição do seu sofá. Com o propósito de explicar as intermitências da memória, o homem declarou:

— Este deve ser meu último déjà-vu, porque sei que o senhor está aqui para me matar — percebi que a arma estava inutilmente à mostra, afastei-a de vista.

— Estou aqui para ter explicações — disse-lhe. O homem encheu-se de uma expressão de remorso e imediatamente começou a contar-me algum tipo de trauma que o leva a agir segundo o que lhe sugerem os sonhos e visões. São interferências de acontecimentos, avisou-me.

Muito confusamente, o homem contou que vivia numa espiral de sonhos reiterados dos quais não se via livre até que os fizesse cumprir na realidade. Apreciava-o silenciado enquanto continuava a explicação, adicionando que, quando não se tratasse de sonhos, vivia constantes déjà-vus de onde, além de ver as cenas como experiências vividas, tinha a capacidade de prever os eventos seguintes. Sem nunca errar. Quanto à minha mulher, como chegou a si, pergunto com certa curiosidade.

— Sinto-me um homem infeliz por tê-lo feito um infeliz — diz ele antes de qualquer resposta. — Os sonhos e as visões são traiçoeiros — acrescentou ainda, e depois, com alguma dúvida a sobrar nos factos, esclareceu que nunca antes lhe tinha aparecido uma mulher comprometida nos sonhos. A imagem dela surgira sem precedentes e estava a ocupar-lhe os sonhos por semanas. Quando, numa tarde, pôs-se a caminhar pela calçada, perto da noite, tivera a revelação esclarecida: a minha era a mulher pelo qual os seus sonhos terminariam. Mas lamentou-se que tenha sido com ela que, em consequência, perdera a capacidade de interromper os eventos voluntariamente. Para justificar-se, o homem levantou para buscar os registos sonoros onde mantinha a narração dos sonhos depois de acordar deles.

Veio do seu quarto com seis discos que, contou-me, não estavam naquela colecção espalhada pela sala por serem nutridos de mais detalhes sobre os seus actos e falas. Pôs a reproduzir o primeiro disco num aparelho de som que já não se via naquela altura. A narração começava por apresentar a referência dos sonhos. O homem atribuiu as referências a partir de nomes de deuses hindus. O sonho com a minha mulher era Deusa Māyā, correspondente à deusa hindu dos sonhos e ilusões, aquela responsável pela criação do universo e a personificação eterna de outras deusas, Shakti e Shiva.

Seguia-se na narração as datas em que o homem sonhava. Pela observação que fiz, todas elas estavam relacionadas a períodos em que tínhamos ainda um lar aparentemente sólido. Sem vestígios, até onde podia perceber. O homem narrava os detalhes todos impostos pelos sonhos, a descrição da minha mulher, os seus gestos comuns de andamento e, numa descrição habitual às das narrações desportivas, a sucessão de acontecimentos que o homem precisaria reproduzir na realidade. O filme não era vacilante como o sonho comum, estava sólido.

Passadas duas horas de sofrida audição, apesar de certa angústia circunstancial e com os factos bem encadeados, a consciência não me ajudava a encontrar um único culpado. O homem era como um excremento de qualquer lógica, eu era um desajustado para o matrimónio e a minha mulher a vítima central dos desgostos que guardou por anos.

Ao terminar as reproduções, o homem sorriu como quem se vê aliviado.

— Agora que tem as explicações, cumpra o que lhe trouxe por cá. Pode matar-me — disse ele.

— O senhor precisa é de ser tratado e não morto. Vive perturbado.

— A única cura que tenho é a morte. Acredite, senhor.

— Não a terá pelas minhas mãos.

— Mas eu vi-o nos sonhos.

— O que o senhor viu não me diz respeito. Arrependo-me de ter vindo cá.

— Eu senti o peito a queimar pela bala que tem consigo. Maya[1] não se engana.

— A sua deusa deve ser como todos os outros deuses. Comete erros.

O homem sentiu-se ofendido. Levantou do chão imediatamente e, no mesmo instante, projectou-se até onde eu tinha a arma prendida. Os seus olhos vivificavam um branco feroz enquanto lutava para me roubar o objecto. A luta que lhe dava não requeria imenso esforço, o homem continua frágil apesar da adrenalina que ganhara.

Na sequência, deitou um gesto bruto com as mãos sobre o meu pénis, retirando-me a força necessária para lhe conter. Quando, por fim, conseguiu puxar a arma de mim, ajoelhei-me em posição de rendição. O homem tinha o poder nas mãos. Estava agitado e desesperado. Recuou alguns passos. Peço desculpas por aparecer em sua casa. Não dá importância. Segue-se as desculpas pela ofensa à sua deusa. Ficou ainda mais fustigado. Teve a arma apontada na minha direcção. Disparou uma primeira vez acertando o sofá. O meu grito assustou-o. Involuntariamente, fez um segundo disparo. Contra si mesmo.


[1] Grafia propositada. No hinduísmo, enquanto Māyā refere-se a esta deusa, a grafia Maya refere-se a um demónio.