Todas as manhãs, o senhor notava o rapaz a olhar com atenção minuciosa para o caminhar das pessoas até estas perderem-se para dentro dos azuis-e-brancos que se abasteciam de passageiros naquela paragem.  Intrigava-o o rigor da observação do rapaz que parecia estar a fazer um estudo de campo para a execução de plano secreto. O senhor estava sempre apressado e por isso nunca teve disposição para arriscar perder o candongueiro – que era sempre motivo de grandes esforços naquelas horas – para dar mais tratamento a esta curiosidade.

Porém, naquele dia, o táxi para o seu destino não aparecia, mas desta vez o senhor não estava apressado. A paragem estava cheia. Foi, a navegar entre as pessoas no seu caminho, ao encontro da senhora que vendia banana assada e ginguba torrada. Baixou-se para escolher a banana do seu apetite e viu, mais a frente, o rapaz atendendo a um velho de idade ainda em atraso. Comia em pé o que acabara de comprar quando percebeu novamente o rapaz na sua atenta observação do andamento do velho com quem esteve minutos antes. O senhor olhava o olhar do rapaz, aproximando-se dele; curioso. O rapaz notou a presença, concentrou-lhe a atenção, virou-se. Não lhe pôs os olhos no rosto, repousou-os sobre os seus sapatos; mudo. O senhor deixou-se estar calado, esperando que o rapaz lhe dirigisse a fala ou os atentos olhos. Queria ser conquistado, mas o rapaz manteve-se dando mais importância aos sapatos do que ao dono.

O senhor desistiu, sorridente:

– Estão assim tão sujos, kandengue?

– Estão pesados – olhou para o senhor.

Os dois sorriram numa saudação carinhosa que lhes aqueceu os afectos, naquela manhã de frio. O senhor viu no rosto do rapaz uma adolescência já a fugir, quase a se evaporar, mas deixando a infância intacta. Pôs o pé direito sobre a estrutura de madeira entre as pernas do rapaz, que se sentava num banco de lata. O rapaz olhava-o com o rosto fechado, estudava o sapato que tinha diante de si e voltava a olhar para o senhor. Reparava cada canto do sapato com comprometimento cirúrgico, muito quieto, muito calado, pensativo. E o senhor entretido no que tomava como uma performance teatral do rapaz engraxador.

– Não vais dar um brilho? Quanto é?

 O rapaz não o respondeu, puxou do interior da caixa de madeira um pano tingido pelas cores do seu ofício. Passou-o cuidadosamente sobre o sapato castanho do senhor. Pegou na escova, na pomada, noutro pano e no que mais tinha que pegar. Continuava a examinar o sapato a cada operação que fazia. Abaixava a cabeça até bem junto do pé do senhor, para estudar cada sujidade de mais perto. Servia-se também de dois pedaços de espelho partido para a sua tarefa. Pegou numa régua e foi medindo não se sabe o quê no sapato. O senhor desatou a rir-se da cena. Estava a atrasar-se mais do que o comum e ouvira já, pelo menos, dois cobradores a chamarem para o seu destino. Aquela hora, dois táxis perdidos era muito atraso. Mas já estava conquistado pelo rapaz e pesava-lhe mandar o rapaz apressar-se.

– Assim, nunca mais terminas. Vou chegar tarde ao trabalho.

– Hoje vai chegar mais cedo do que nunca.

– Ai é?

O rapaz não lhe deu mais atenção e voltou-se para o seu ofício, com o mesmo perfeccionismo esotérico. Agora era a vez do pé esquerdo. O mesmo processo repetia-se de forma metódica, quase científica, se não houvesse também algo de místico, como uma entrega espiritual. Uns movimentos que só podiam ser dos instintos impensados que encontram a perfeição na fugacidade da intuição. O senhor deixava de achar graça no sentido cómico da palavra e passava a achar graça no seu sentido divino. Baralhado pela devoção do rapaz, tentava recorrentemente penetrar-lhe as intenções e motivações com várias perguntas jogadas ao alto, fingindo inocência. O rapaz não lhe dava respostas, como se percebesse o fingimento ou como se não lhe ouvisse de tão absorto que estava no seu trabalho. Convencido de que não conseguiria nada com dissimulações, o senhor, cada vez mais curioso, foi directo ao ponto sem mais despretensão e em tom desinibido.

– Olha, puto, eu te vejo todos os dias a olhar de forma estranha para as pessoas que passam por aqui. Isso chamou-me a atenção e foi por isso que vim aqui, e agora vejo também a forma como trabalhas. Porquê isso tudo?

– Faz parte da minha missão. Agora estou a executar. Quando o kota sair, tenho que reparar se a missão foi cumprida; para melhorar na próxima vez.

– É preciso tanto para engraxar sapatos? Não basta olhar quando terminas, para ver se estão limpos, tens mesmo que ficar a controlar o caminho das pessoas? Os outros engraxadores não fazem isso!

– Mas eu não sou um engraxador – não olhava para o senhor, mas este percebeu nele um sorriso miúdo.

– O que és então?

– Sou um polidor de passos – respondeu erguendo a cabeça lentamente como se lhe pesasse tirar os olhos do calçado que acabara de deixar a brilhar.

– E o que é isso? – O senhor aparentava um interesse genuíno.

– A minha missão é polir os passos das pessoas. Engraxar sapatos é só uma forma de fazer isso. Meu verdadeiro objectivo é fazer as pessoas andarem bem, porque passos sujos não levam a lugares limpos – parou para guardar os utensílios que tinha nas mãos dentro da caixa. Voltou-se para o senhor. – Por exemplo, os pisos do kota tinham bué de poeira aqui na parte de cima, por isso os passos estavam muito pesados. Assim como é que vai chegar cedo no salo e trabalhar bem, se, para dar um passo, tem que fazer muito esforço? Mas vai ver só, assim que sair daqui e começar a andar, vai sentir a diferença, o kota vai caminhar bem leve tipo que está a flutuar. O avô que atendi antes do kota tinha os calçados muito sujos no lado direito, o mais velho estava a andar torto. Mas depois d’eu lhe polir, vi bem, e por isso mesmo é que observo o andamento das pessoas, o velho já estava a andar direitinho. Há outros também que vêm com os calçados muito sujos na parte de trás e isso lhes faz andar só bem rápido, esses caem à toa – voltou a fazer uma pausa, mas muito breve. – Todas coisas, até mesmo o país, se fazem passo a passo, minha missão é ajudar as pessoas a darem cada passo da melhor forma.

 O senhor, enlevado pela fantasia do rapaz, teve certa comoção pelo jovem por ter uma imaginação tão fecunda, mas que tinha de estar aí a ganhar a vida engraxando sapatos. Pensava o senhor que aquele rapaz, pelo senso imaginativo e pela sensibilidade, tinha jeito para vir a ser escritor, mas precisava é ser engraxador, naquele momento.

– Aprendeste isso com quem?

– Com o meu falecido pai.

– Ele também era um polidor de passos?

– Não… ele era engraxador.

 O senhor lançou sobre o rapaz um singelo olhar de grande simpatia, tirou a carteira do bolso traseiro, puxou uma nota de quinhentos kwanzas entre as notas de menos valor. O rapaz advertiu-o que o serviço custava só cem kwanzas. Ele sorriu, sabia do preço e mesmo assim não estava enganado, fechou a nota no interior da palma da mão do rapaz. Olhou para o relógio e viu que tinha apenas quinze minutos para chegar ao trabalho, mas sabia que, com o engarrafamento, levaria, pelo menos, quarenta e cinco. Colocou o saco plástico com o que restava da banana e da ginguba no bolso e se apressou em direcção aos azuis-e-brancos. Notou que, pela força com que puxara o pé, este saiu do chão com quase violência. Marcou o segundo passo mais brando e sentiu-o leve como que levantado pelo vento. Virou-se para o rapaz e este tinha os olhos fixos nos pés do senhor estudando os seus passos com a rigorosidade já conhecida, sem lhe dar atenção ao rosto espantado. O senhor, aturdido, continuou a andar, nervoso, e sentiu-se devagar a perder o chão. Pairava já acima das cabeças das pessoas admiradas que filmavam com os celulares a ocorrência. Pôs-se a flutuandar com passos leves no ar, em direcção ao seu local de trabalho, vendo do alto o tradicional engarrafamento da cidade de Luanda. Com uma certeza sem explicação, porque, auto-convincente, identificou os dois táxis que perdera na paragem, ali, estagnados no lento trânsito abaixo de si. Nesse dia, o senhor chegou mais cedo ao trabalho.