O OPELAO ONCÓCUA é um certame de carácter académico que visa levar algum conhecimento diferenciado e de qualidade aos munícipes do Curoca, na província do Cunene. Pela distância a que se encontra dos centros urbanos, os alunos das escolas do segundo ciclo, professores e quadros da administração local acabam por estar privados de discutir os assuntos que marcam tópico pelo país afora e pelo mundo. Eis o principal fundamento do OPELAO, um evento feito na base de valores democráticos, o que o diferencia, se tivermos em conta a conjuntura político-social, aparentemente, marcada por excessiva censura das discussões, essencialmente, no interior.

Eduardo Rocha Bié, membro fundador e da organização do evento OPELAO ONCÓCUA, cedeu alguns instantes do seu tempo à Palavra&Arte para dar mais detalhes sobre as ideias do evento e a produção por detrás do mesmo.

O que nos pode dizer sobre O OPELAO ONCÓCUA, sua essência e objectivos?

OPELAO significa, nas línguas locais mais representativas do município, que acabam sendo todas inteligíveis por serem bantas, um fórum ou espaço onde as pessoas se reúnem para tratar assuntos de interesse comum, visando buscar soluções para as questões levantadas ou partilhar conhecimentos que geram desenvolvimento. ONCÓCUA é o topónimo da vila que acolhe o certame, a sede do município do Curoca. No entanto, podia ser Otyoto Lubango, caso os munícipes do Lubango pensassem em tal coisa ou o já existente Ondjango Feminista, das bravas guerreiras pelos direitos femininos e equilíbrio do género. 

O que motivou a iniciativa para um certame com estas características?

O OPELAO ONCÓCUA, já caminha para a sua terceira edição, esta que será realizada nos dias 1 e 2 de Setembro deste ano. A ideia surgiu de um levantamento que eu, na altura Coordenador-Geral do Núcleo da Escola de Formação de Professores, no Curoca, e os meus colaboradores fizemos ao deficit de um espaço que discutisse assuntos multidisciplinares a nível do município, mais ou menos à similitude do que ocorre nas Mediatecas das cidades capitais e/ou Casas da Juventude, para permitir que os nossos alunos crescessem de forma holística, não se circunscrevendo apenas aos conteúdos programáticos. Na altura tinha a designação de ONCÓCUA CONFERENCE. Por ter sido bem acolhido pelos munícipes, na generalidade, reajustamos a designação para OPELAO, a fim de incorporar mais identidade cultural (linguística) ao evento, passamo-lo a tutela do Conselho Municipal da Juventude do Curoca para permitir alargar o seu público alvo. Agora, sem desprimor a modéstia necessária, já o podemos considerar um certame de âmbito regional. 

Há alguma razão, em particular, para que o local do Certame seja em Oncócua e não noutro município do Cunene?


O OPELAO, pelos valores que persegue, entendo que seja um espaço ajustável em todos municípios do interior. Podia ser em Kaluquembe, Caconda, Cuvelai, Virei, enfim. Acho que é, de todo, necessário estender espaços iguais aos demais municípios deixados em segundo plano na abordagem dos assuntos académicos. A necessidade de reduzir as assimetrias regionais, se entendermos que se fará com quadros mais preparados, multidisciplinarment­e, exigi-o. Nós alimentamos a profunda crença de que partilhando conhecimento gera-se desenvolvimento. O OPELAO, como espaço académico não precisa ser ONCÓCUA apenas, que fosse, OPELAO VIREI, BELIZE, CHICOMBA, enfim, saem a ganhar os munícipes e o país, num segundo plano.

A iniciativa é de um pequeno grupo de pessoas. Que apoios, de pessoas ou entidades, têm recebido para garantir a ocorrência do evento?

A Administração Municipal do Curoca, na pessoa do seu Administrador Municipal, o Dr, Francisco Tomé Ngoloímwe, sempre esteve incondicionalmente ao nosso lado dando todo apoio necessário; a Comissão Municipal Eleitoral, na pessoa do seu Presidente João Miguel Mwelihakwa, dando-nos todo apoio material com cadeiras suficientes e meios tecnológicos, aliás, foi ele quem sugeriu o nome OPELAO quando não queríamos mais continuar com o estrangeirismo CONFERECE e, também, não queríamos ser replica do OTYOTO nem do ONDJANGO que já havia no Lubango e em Luanda, respectivamente. As Repartições da Educação e da Saúde também foram sempre muito abertas às nossas solicitações, a quem estendemos um agradecimento descomunal. O facto é que o OPELAO é festa do conhecimento da juventude, na medida em que busca ressarcir as necessidades (nacionais) de debater assuntos democraticamente. O envolvimento dos jovens do município para fazer a actividade factível é impressionante, deles e demais residentes. No entanto, a quem nunca teremos palavras para agradecer é aos oradores que atravessam todas agruras duma via não asfaltada e todos com visibilidade social e vão lá ter, imbuídos de sentimento patriótico de facto. Sem querer entrar em inconfidências, tenho mesmo que dizer, entre nós, organização, já andamos a reescrever o conceito de patriotas, olhando para o “sacrifício” a que se submetem esses heróis.

Por falar nos oradores, o que nos pode dizer sobre os critérios ou motivações para a escolha dos mesmo? Têm pautado pela diversidade geográfica ou há dificuldades em trazer pessoas de várias partes de Angola?

Sobre os oradores, traçamos um perfil e é nesta base que endereçamos os convites. Interessa-nos diversificar a geografia e a perspectiva de abordagem, de acordo com o tema central de cada edição. De acordo ao painel, no perfil que traçamos constam itens como: amar a academia, no sentido de buscar incansavelmente o conhecimento, saber fundamentá-lo e ter vontade de o partilhar (altruisticamente); patriotismo (de facto) contando que quem o seja palmilha Angola sem contar os ganhos, desde que tal odisseia contribua para afirmação do desenvolvimento de Angola. Numa perspectiva muito sintetizada, são esses os nossos alvos. Em geral, não falhamos, na ordem de 80 a 90%. O que nos custam? Nada! Os oradores acedem, gratuitamente, aos nossos convites. Para um ou outro caso, a atender a distância, nos predispusemos a custear os custos de passagem, mas, em geral, os próprios oradores declinam dos valores, depois de lá estarem. Somos uma organização juvenil e não temos tanto, fora de quem nos dá o humilde apoio com o alojamento, transporte e alimentação, de resto vem de nossos bolsos, enquanto parte da organização. Ainda bem que há pessoas que se compadecem com a causa: não haveria OPELAO se os oradores não fossem patriotas!

Desde a primeira edição até aqui como avalia o nível de participação das pessoas? Sente que o evento tem sido bem recebido?

O nível de participação é bom mas nos temos engajado a criar condições, partindo mesmo da divulgação, no sentido de o elevar a um nível excelente. Para os objectivos que percorremos, quanto mais pessoas participarem melhor, buscando esbater as muralhas que a falta de conhecimento implanta entre nós. Infelizmente, ainda não temos muito a cultura ou gosto por eventos de carácter académico, quer seja no Curoca, quer noutras partes do país. É muito comum ir-se a um evento deste género, no Lubango, por exemplo, que se diz “cidade do conhecimento” e darmos com uma sala meio vazia, o OPELAO ONCÓCUA tem tido outra sorte, neste capítulo, felizmente. É do nosso interesse que haja uma maior adesão por parte de pessoas que venham de fora do município. Infelizmente não temos condições de albergar a todos que queiram lá estar, com os nossos parcos recursos em transporte, alimentação e alojamento. Portanto, os interessados, de facto, devem abordar a sua participação numa perspectiva de excursão, com tenda, saco cama, fazendo sinergias para, em grupo de amigos mobilizar uma viatura, por exemplo e nós, enquanto organização, assistiremos com o que pudermos, é assim que se faz com outras actividades, como aquela que leva muita gente à Cabo Ledo, Baia dos Tigres. Paralelamente ao OPELAO, o Curoca também suscita muito interesse para quem se interesse pela cultura dos povos bantos. Além de que “uma viagem é sempre um doutoramento que se faz, mas sem diploma”, citando o Pe. Adriano Ukwatchali, um dos dignos oradores da edição passada. 

Como tem sido, em termos de gratificação, a jornada do OPELAO ONCÓCUA?

Tem sido gratificante. É gratificante podermos dar um pouco de nós visando dar alguma visibilidade a um município do qual não se fala, quando dele se fala, geralmente, é por razões menos boas: seca, fome e falta de serviços. O OPELAO permite que se conte uma outra história sobre o Curoca, diferente à habitual, o que permite alimentar a ideia de que podemos fazer as coisas acontecerem independente do espaço geográfico e das suas limitações. Numa análise mais acurada, com o melhoramento da imagem que se projecta do município através do OPELAO, pode-se concluir que isso também pode, positivamente, impactar na atracção de quadros de mais qualidade ao Curoca, uma necessidade premente para a prossecução dos desafios com que este espaço se bate.

Que resultados se espera alcançar com a 3ª edição do OPELAO?

O nosso maior desafio, nesta terceira edição, é institucionalizar o OPELAO como espaço de partilha de conhecimento que gera desenvolvimento, fazendo que a sua existência esteja dissociada a um ou dois nomes, de pessoas que estiveram na sua origem. Isso poderá permitir que ele se estenda e seja replicado em outras latitudes do país. É de todo necessário que os jovens discutam transversalmente os problemas do país e busquem soluções académicas para eles.

Este ano o OPELAO escolheu, como um dos temas, “A Qualidade do Ensino em Angola”. O que motivou essa escolha?

Apesar de ser organizado pelo Conselho Municipal da Juventude, o OPELAO não é exclusivo aos jovens, busca agregar todas forças activas da sociedade, combinando os louros da prudência que experiencia dotou aos mais adultos e a ousadia, inovação dos mais jovens. Todos contamos, no combate aos desafios que temos pelo caminho. Este ano elegemos «A Qualidade do Ensino em Angola» como tema central, a partir do qual os oradores convidados irão construir as suas comunicações, apresentando soluções. E «As Autarquias Locais» dando cumprimento a orientação do Conselho da República. Pretendemos promover uma discussão multidisciplinar destas duas questões, para tal convidamos oradores de varias áreas do saber, desde filósofos, juristas, técnicos bancários, servidores públicos, activistas sociais, feministas a docentes universitários, isto tudo no dia 1, para Qualidade do Ensino em Angola, e 2 de Setembro, para Autarquias Locais. Escolhemo-los por serem assuntos articulados. Se por um lado as Autarquias só cumprem os seus nobres objectivos com quadros locais de qualidade, um combate que se vence em salas de aulas, com ensino de mais qualidade, por outro lado, entendemos que as autarquias locais como modelo de governação que permite uma administração de proximidade e apresentação de soluções mais focadas aos problemas concretos das respectivas comunidade, podem contribuir na melhoria da qualidade de ensino, portanto, uma influencia a outra.

Quais são as principais dificuldades com que se deparado, desde a primeira edição até aqui, e que apelo deixa para a sociedade?

Desde a primeira edição as principais dificuldades que temos tido têm a ver com a escassez de recursos que permitam o transporte dos oradores e convidados e o seus alojamentos condignos, temos contado com apoio da Administração Municipal e seus afins e com a disponibilização de recursos pessoais do pessoal da organização, mas é sempre irrisório, sendo que o certame se torna mais exigente, no seu padrão de qualidade, a cada edição. Este ano, por exemplo, temos um número de oradores maior, em relação às anteriores edições. Fica, portanto, lançado o apelo às instituições e pessoas que se revêem na causa, que nos apoiem com o que puderem dar.