«Errar é humano, continuar no erro é diabólico».

                                                                              Santo Agostinho

A obra literária «Escritos de Quarentena» é uma colectânea lançada em plataforma digital, no dia 23 de Abril de 2020, pelas Edições Handyman, editora angolana que se dedica na publicação de livros digitais. A obra divide-se em três distintas secções: a primeira, a de poesia, comporta 20 poemas; a segunda, a de crónicas, comporta 12 textos; e a terceira, a de contos, comporta 7 textos. A colectânea reúne um leque de agricultores de palavras, uns já veteranos, outros ainda novíssimos, e um bom bocado com alguma estrada literária feita, o que nos permite falar de uma salutar coabitação entre diferentes gerações de escritores angolanos. «Escritos de Quarentena» é, pois, o resultado de uma forte união entre diferentes poetas, cronistas, contistas e dramaturgos face à luta contra o então principal inimigo do mundo chamado COVID-19/coronavírus, denotando, assim, um profundo comprometimento com a causa social, num espírito de solidariedade para com Angola e para com o mundo inteiro.

Esta colectânea surge diante de uma realidade sociopolítica conturbada e, por isso, contribui de forma positiva para o aliviamento da pesada e controvérsia ideia de «ficar em casa» em confinamento ou mesmo em quarentena, proporcionando, gratuitamente, aos leitores, uma variedade de textos para serem descortinados durante um Estado de Emergência que Angola nunca experimentara; por isso, «Escritos de Quarentena» já é uma marca indelével na história da Literatura Angolana. É uma colectânea de forte impacto social, pela sua unidade temática, e bastante equilibrada no âmbito artístico-literário, na medida em que afigura textos arrepiantes, pela sua dimensão técnico-poética, e uns tantos textos langorosos, dignos de certa maturidade literária, honestamente falando.             

Cada texto literário apresenta uma configuração própria, uma estrutura e um conteúdo que o distingue de outras modalidades textuais. Por isso, para pertencerem ao mesmo género ou subgénero, os textos literários precisam de ter características comuns ou semelhantes, de acordo com a sua forma e seu conteúdo. Taxar ou enquadrar os textos literários no devido género tem sido uma grande pedra nos sapatos das editoras e até mesmo dos próprios escritores. Não é sempre um trabalho fácil, mas nunca se pode furtar dele sob pena de incorrer a erros crassos de classificação, como o que acreditamos ter ocorrido aqui, em «Escritos de Quarentena». No entanto, cada texto literário, por mais híbrido ou vanguardista que seja, pode e deve ser enquadrado em um dos três macro-géneros literários (poético, narrativo e dramático) e, se necessário, em seus respectivos subgéneros. A isto chamamos de taxonomia literária. Entretanto, verifiquei, desde logo, na colectânea «Escritos de Quarentena», dois textos que terão sido mal taxados. Trata-se do texto «DIÁLOGO 6º» da autoria de Kalunga, pseudónimo de João Fernando André, escritor, ensaísta e crítico literário, autor da obra poética «Evangelho Bantu»; e do texto «SUPER-HOMEM NUMA MISSÃO IMPOSSÍVEL» da autoria de Tony Frampenio, actor, encenador e dramaturgo, director do grupo ENIGMA-TEATRO. Os textos ora mencionados fazem parte da secção de contos da colectânea «Escritos de Quarentena», porém, parecem não encerrar as mesmas características dos demais textos classificados como contos, o que nos obrigará a colocá-los no seu devido lugar.

O texto «DIÁLOGO 6º» relata as primeiras reacções, seguidas de controvérsias, face às informações sobre a Covid-19 e as medidas de prevenção desta doença, passadas pelo soba de uma comunidade rural. Confira-se:      

NGANA KAZ

(Senhor de 49 anos. Pastor de cabritos, galinhas e porcos)

— Com a permissão, ngana soba! Mas que ndoeça é essa que vai matar todos os angolanos?

SOBA KUGIZA

— É uma ndoeça perigosa. Ixi foi feita pelos mindele. Ndoeça ya China, Ngana Kaz. Por isso, vocês não podem se tocar. Não podem cumprimentar a mulher. Não podem ir na lavra. Devem lavar sempre a mão.

NGAXI

(Senhora camponesa, de 45 anos de idade, esposa do Ngana Kaz)

— Mas essa doença pensa que nós somos porco ou o quê? Quem disse que agora somos obrigados a lavar a mão sempre? Se ser assim, eu prefiro o SIDA.

As personagens Ngana Kaz e sua esposa, Ngaxi, assumindo o protagonismo da trama, elevam-nos a uma dimensão lúdica e satírica diante da novidade e da pouca informação sobre a virológica doença chamada Covid-19. Confira-se:

NGAXI

(Com raiva)

— Mas Kaz, você ’tás a bater memo bem? Queres acabar todà carne já já!! Não ’tás a ouvir a doença que ’tá vir de Luanda? Os teus filhos vão comer o quê quando os militares virem com arma para não sairmos de casa?

[…]

NGAXI

(Esperançosa)

— Não. Ninguém vai morrer. A doença só vai mesmo ficar em Luanda onde tem bué de pessoa, bué de prédio. Aqui somos poucos. Nem temos prédio, nem recebemos estrangeiros! Quem vai trazer a doença aqui se nem o nosso soba conhece Luanda? É melhor esquecer esse pensamento negativo e se prepara que hoje tens que me tocar!

NGANA KAZ

(Tentando escapar)

— Nada de se tocar. Não ouviste as palavras do soba?

NGAXI

(Com a libido a ferver no seu interior)

— Nada disso. Hoje eu quero. Quero fazer o meu caçule! Vou fazer um bom jantar para teres ngunzu!

O texto «SUPER-HOMEM NUMA MISSÃO IMPOSSÍVEL» retrata os imbróglios da vida de Zé Carioca, um homem polígamo ou mulherengo, se quisermos, que se vê aflito ou até mesmo incapaz de gerir suas obrigações familiares em plena quarentena ou Estado de Emergência. Confira-se:

(“ZÉ CARIOCA” É IMOBILIZADO PELOS COLARINHOS PELA MULHER E OS QUATRO FILHOS SE DISTRIBUEM NOS MEMBROS INFERIORES E SUPERIORES – O INDIVÍDUO TRAVA COM A PARTE INTERNA DAS DUAS PERNAS UMA MALA PEQUENA, ENTRE OS FILHOS, O CASSULE DE 6 ANOS, AGARRADO AOS PÉS DO PAI, CHORA BABA E RANHO)

— Papá…

— Calma, filho, o papá vai voltar!

— Por que é que não diz a verdade prós teus filhos que a “missão” que vais cumprir é na casa da tua segunda mulher!? O vosso pai quer passar a “segunda temporada da quarentena” na casa de outra mulher.

— Não fala à toa, Florinda! — a tentar se livrar do cafrique.      

As personagens de maior relevância desta trama, Zé Carioca, suas esposas, Florinda e Anabela, e os agentes da polícia apresentam-se como verdadeiros reveladores de realidades operatoriamente observáveis na sociedade angolana, como as dos conflitos familiares diante das vicissitudes da enigmática Covid-19 e a forma imprudente, às vezes, da acção dos agentes da polícia. Confira-se:

 (ZÉ CARIOCA, POR SI MESMO, JÁ ESTAVA SENTADO DENTRO DA CARRINHA DA POLÍCIA)

— Este senhor agora é polícia?

— Anabela, a polícia veio me resgatar e eu já ia para a casa.

— Como assim resgate?! E o senhor vai para qual casa, se a sua casa é esta, e lá dentro está a sua família!?

— Senhor polícia — ANABELA é bem mais desbocada do que a Florinda. 

— É assim, este senhor tem duas mulheres. Há quinze dias que não passa lá em casa, alegando que estava numa “missão” da COVID-19. Depois de algumas investidas, descobri que o “cabrão” anda na casa da segunda.

— Segunda é a senhora — Florinda grita pelas grades do portão — os filhos a puxam pra dentro.

— Continua, minha senhora.

— Como vêem, o Zé Carioca é um impostor. — aproxima-se à janela da carrinha —  escuta aqui, meu cão, esquece que tens uma família. A partir de hoje, para mim e os nossos filhos, tu és um “CORONAVÍRUS” e deves te manter distante de nós. Adeus!

(OS DEZ POLÍCIAS AÍ PRESENTES VIRAM-SE PARA O ZÉ CARIOCA, CADA UM VAI PUXANDO O SEU PORRETE DA CINTURA – O QUE ACONTECEU NAQUELE CENÁRIO SÓ DEUS SABE. ATÉ OS CÃES QUE LATIAM DURANTE A CONFUSÃO, PARARAM DE LADRAR POR CAUSA DO BERRO DO ZÉ CARIOCA. UMA VIZINHA JÁ DE IDADE AVANÇADA ATÉ LAMENTOU O SUCEDIDO E PERGUNTOU SE A FORMA DE TRATAR A COVID-19 ERA MESMO ASSIM COM SURRA)

— Calma, minha senhora, este Super-Homem vai passar a “segunda temporada da quarentena” na cela.

Os textos sobre os quais acabámos de nos referir, do ponto de vista da taxonomia literária, se configuram como «patinhos feios», não por serem feios como tal, medíocres ou mal conseguidos, mas, sim, por serem diferentes ou estranhos no seio de outros textos, ou seja, por não encerrarem características formais e materiais dos demais textos classificados como contos. Talvez seja por isso que Mabanza Kambaca, no posfácio, ao se debruçar sobre a última secção de «Escritos de Quarentena», terá tentado amenizar o peso de um erro de classificação ao afirmar o seguinte: «Serve-se do conto conjugado com o drama para fundar um novo humanismo que busca indagar sobre as causas últimas da vida». Ora, ao olharmos para a estrutura e natureza dos já referidos textos, percebe-se que foram concebidos para serem representados, ou seja, são textos que se destinam à encenação teatral. Trata-se, portanto, de textos teatrais, pertencentes ao género dramático, pese embora haja um certo hibridismo em «SUPER-HOMEM NUMA MISSÃO IMPOSSÍVEL».

O texto do dramaturgo Kalunga, se assim o podemos chamar, é indubitavelmente um texto teatral, pois apresenta dois elementos imprescindíveis ao género dramático. Referimo-nos às didascálias ou indicações cénicas e às falas das personagens. As didascálias, em «DIÁLOGO 6º», comprovam-se por meio do cenário criado, compreendendo casas de adobe, algumas crianças, mulheres, homens, galinhas, cabritos e porcos, da indicação do espaço (Malanje, Kwanza Norte ou Kwanza Sul) e das características físicas, sociais e comportamentais das personagens da trama. As falas das personagens comprovam-se por meio do diálogo estabelecido entre o soba Kugiza e a comunidade, e entre Ngana Kaz e sua esposa Ngaxi.

O texto do também dramaturgo Tony Frampenio apresenta uma estrutura confusa e, portanto, híbrida, pois congrega em si características do género narrativo e do dramático. Por exemplo, os discursos que se afiguram entre parêntesis e em letras maiúsculas, pela sua estrutura, que é característica do género dramático, parece se tratar de didascálias, porém, seu pano de fundo remete-nos à narração; narração essa cujo tempo gramatical oscila entre o presente e o passado, o que não é muito comum, denotando, deste modo, falta de uniformidade. Um outro aspecto que nos pode remeter ao género narrativo são os discursos que se afiguram após os discursos personáticos, separados por travessão, denunciando, assim, que se trata de discursos narrativos, o que dificulta ainda mais a sua classificação, pois os textos pertencentes ao género dramático não possuem narrador. Com isso, aumenta-se-nos o grau de dificuldade em taxar este texto no seu devido género. Entretanto, parece-nos ter havido uma adaptação forçada de um texto teatral para conto. Desconhecendo as verdadeiras razões desta adaptação, infere-se que Tony Frampenio terá formatado seu texto para que o mesmo se enquadrasse numa colectânea que aparentemente não abriu espaço para albergar textos dramáticos ou teatrais. Chamam-lhe apenas colectânea de poemas, crónicas e contos. Porquê, se há aí também textos pertencentes ao género dramático? Diante de tudo isto, apesar de o texto «SUPER-HOMEM NUMA MISSÃO IMPOSSÍVEL» possuir marcas do género narrativo, seu verdadeiro lugar é no género dramático, pois terá sido concebido, originalmente, para ser representado. Por essa razão, e olhando até para o corpus biográfico do seu autor, não sobram dúvidas que se trata, de facto, de um texto dramático ou teatral, porém, com elevadas lacunas do ponto de vista da composição técnica, aparentemente provocadas por uma adaptação forçada.

Tal como não se pode misturar raposas e galinhas numa mesma capoeira e os considerar a todos como galinhas, assim também, no universo literário, não se pode misturar textos narrativos e textos dramáticos ou teatrais e chamá-los a todos de contos. Isso demonstra, sem sombra de dúvidas, uma elevada incompetência por parte de quem os terá organizado. O que terá conduzido a este erro que consideramos ser de palmatória? Terá sido falta de atenção, de domínio na matéria ou preguiça de criar uma outra secção com apenas dois textos dramáticos ou teatrais? As Edições Handyman e seus colaboradores saberão melhor responder. Ainda assim, ficará sempre uma má impressão sempre que se olhar para os «dois patinhos feios num lago de contos». Entretanto, acreditando numa possível reedição ou publicação em formato físico da colectânea «Escritos de Quarentena», esperamos ver os textos «DIÁLOGO 6º» e «SUPER-HOMEM NUMA MISSÃO IMPOSSÍVEL» isolados dos demais, para poderem exibir seus verdadeiros encantos e exigir o mesmo respeito que se tem pelos textos pertencentes a outros géneros literários.