O sono abandonou-me. Ao lado, a outra parte da minha carne dormia numa candura pueril. Levei o olhar à pequena tela do telemóvel, para me servir da sua função como relógio e fiquei admirado com o que vi: consumira apenas três das oito horas de sono que programara. Insatisfeito, uni as pálpebras para concluir o tempo. O sono, porém, não vinha.

De pálpebras unidas, a minha mente, em devaneios, levou-me à Rua de Nazaré. Era uma tarde de sol ameno. O dia era desconhecido. Mas parecia ser Domingo, porque não havia qualquer movimentação de transeuntes. A rua estava completamente deserta. De rompante, vi surgir uma cadela. Andava de forma apressada e tinha a cauda a balançar de um lado a outro, seguindo o ritmo dos seus pés. Chegou à ponta da rua e sentou-se sobre as pernas traseiras. Sossegada, o mover da cauda levou movimento à cabeça. Lançava o olhar para todas as direcções como se escabichasse algo em concreto. Logo, um cachorro preto saiu a correr algures do lado oposto. Tinha um rosto alegre. A cadela, vendo-o, rapidamente, levantou-se e pôs-se a correr na direcção contrária. O cachorro passou a acossá-la. A cadela, no entanto, era mais veloz. Às vezes, abrandava a marcha e, vendo que o perseguidor se aproximava, acelerava novamente. Depois de alcançarem o outro extremo da rua, a cadela decidiu regressar. O cachorro preto aumentou o rabear da cauda. A língua e os dentes já estavam à mostra.

A cadela fez simulação que ia para a esquerda, o cachorro caiu no ardil. Aquela avançou pela direita. O cachorro não se fez rogado. Depois de girar, como que fazendo recurso às últimas forças que conservava, passou a correr com mais força. Agarrou-a.

Os dois embrulharam-se numa queda. Ficaram a litigar no chão. Mordiam-se. Rebolavam. A cadela tentava levantar-se a todo o custo, mas o cachorro não a deixava. Prendia-a no chão. Um carro surgiu muito veloz, levando-os a separarem-se numa velocidade semelhante à da luz.

Os dois, cada um no seu lado, pregaram um agigantado espanto no rosto. A respiração tornara-se ofegante. Atiraram o assustado olhar na direcção em que seguira o carro. Trocaram olhares de estupefacção. A cadela foi ao encontro do cachorro e, sem demora, começaram a andar lentamente. Perderam toda a alegria.  

Ao andarem, cabisbaixos, reconheci-os. De brusco, o espanto-susto dos seus rostos viera colar-se no meu, em que as pálpebras se mantinham casadas como uma só carne: a cadela era a Laica, e o cachorrinho era o Lux. Os dois cães haviam falecidos há muito tempo. Para me deixar mais azabumbado, os dois viveram em épocas muito diferentes. Não se conheceram. A Laica, a cadela muito má do meu primo João, morreu nos anos oitenta, vítima da bala de um militar das FAPLA que tentara morder. O Lux, cão do Ducho, um rapaz da rua, teve uma morte mais estapafúrdia. Fora esmagado por um cilindro, no dealbar dos anos 2000, quando a administração comunal mandara terraplanar a Rua de Nazaré. Nesse dia, a vizinhança muito lamentou a sua morte e funestou a zona como se de um ser humano se tratasse.

Depois de vencer o susto, sempre com os olhos fechados, vi os cães a sentarem-se num passeio. Na acção seguida, deitaram-se de barriga para baixo. Seus rostos continuavam muito fechados.

A rua ganhou um passante. Era um homem latagão e tinha o rosto mascarado. Levava sacos nas duas mãos. Andava apressado e, qual suíno, tinha o rosto preso para baixo. Vendo a azáfama nos seus pés, a Laica falou ao Lux:

– Aquele motorista queria matar-nos de propósito. Como eles estão à rasca, queria acabar a sua raiva em nós. Estão com inveja de nós. Estão a desejar estar no nosso lugar…

– Mas que culpa temos nós? – O Lux indagou, numa voz fraquinha.

– Mas é preciso fazer alguma coisa, ó Lux?! Estes são maldosos desde há muito tempo. De tanta maldade, foram castigados. Estão a envenenar-se de boca à boca. Estão a vomitar o veneno que acumularam por muitos anos.

– Afinal é castigo que estão a pagar, né…? Mas é mesmo castigo. Tens razão. Eles gostam de dizer que são nossos melhores amigos, mas riem sempre que nos vêem em apresentação com outro semelhante nosso. Chamam-nos de porcos, porque nos beijamos no rabo.

– Eh! É o que eles dizem mesmo. Só que no nosso rabo nunca saiu veneno, como está a sair da boca deles. Se eles tirarem aquelas coisas que estão a usar na boca… azar! Vão cair todos envenenados tal como caem os mosquitos que eles andam a envenenar com os seus produtos químicos. 

– Então, temos de ficar muito atentos com estes envenenadores. Nada de se aproximar deles – disse o Lux, sempre fiel à sua voz tristonha.

– Fica à vontade, meu filhote. Este veneno só actua mesmo neles. O que estão a viver só está a confirmar o que o Livro do Pai já alertou: o que sai da boca deles é que mata e não o que entra.  

O Lux meneou a cabeça em concordância, sem perder o rosto de poucos amigos. Fechou os olhos e baixou a cabeça. A Laica fez o mesmo. Passado algum tempo, os dois encolheram o corpo. Deixaram-se estar numa sesta, transformando aquele passeio da Rua de Nazaré num espaço igual ao que me encontrava enquanto os via.

Nasceu, de repente, um ligeiro barulho que correu com a imagem dos dois cães da minha mente e forçou a separação das minhas pálpebras: estava só no leito. Dessa vez, a outra parte da minha carne abandonara a nossa união. No visor do telemóvel, tinham passado exactamente as cinco horas de que precisava para concluir o meu tempo de sono. Aquela cena da Laica e do Lux, dois cães que nem se conheceram, era coisa de sonho. E que sonho!