Falar sobre o estado da educação no nosso contexto (angolano) é um assunto que levanta sempre muitas questões e trás inúmeros debates. E apesar das divergências, dos pontos a favor e dos pontos contra, concorda-se quase sempre neste ponto: a qualidade, tanto de muitos professores como de uma grande percentagem de alunos, deixa muito a desejar. E, como estudante de ciências da educação, tenho presenciado, há algum tempo e sempre com a maior atenção, esses debates.

Particularmente, preocupa-me o estado da educação no nosso país de uma forma geral, em todos os níveis. Estou consciente de que, enquanto pessoas, somos o resultado de um conjunto de conhecimentos que abrange várias áreas científicas. A nossa formação e construção da carreira profissional têm a participação em um pouco de tudo. E, nisto, a escola tem um papel fundamental, pois é nela onde temos o primeiro (de uma forma geral) o contacto com as diversas áreas do conhecimento e desse contacto, muitas vezes, descobrimos a nossa inclinação ou aptidão para seguir determinada carreira profissional.

Entretanto, o que me proponho abordar aqui e o que mais me preocupa não é o estado da nossa educação, genericamente – não que isso não seja importante, que não se entenda assim –, mas é o estado da nossa educação relativamente ao ensino da Literatura – Ensino da Literatura Angolana e da própria Literatura Universal.

Há uma tendência enorme e nada positiva, no nosso contexto educacional, de se atribuir funções a quem não está de todo ou não está de forma alguma apto a desempenhá-las. E este facto – de professores que lidam com áreas de conhecimento completamente diferente das suas – está à vista de todos nós, ou seja, temos professores formados em Física a lecionarem Química, professores formados em Geografia a lecionarem Educação Física e a terem de, forçosamente (ou não), adaptarem-se. Pergunto-me em que caminho estaremos nós com esses procedimentos? Que qualidade de ensino-aprendizagem teremos com essas “adaptações”? Que profissionais andámos a formar, fazendo tais adaptações e tomando tais procedimentos?

O ensino da Literatura tem sido alvo de “adaptações”, como as disciplinas que mencionei acima. Temos um grande número de professores não formados nesta área que leccionam esta disciplina. Destes, numa escala de 1 a 100%, 10% entendem Literatura. E estes fazem parte do conjunto de professores aos quais se atribuiu a responsabilidade de ensinar esta disciplina ou cadeira.

Creio que alguns dos graves problemas relativamente à falta de leitura, ao fraco conhecimento sobre a nossa cultura, a falta de conhecimento sobre os escritores e suas obras e a forma como estes marcaram nossa história enquanto nação são resultado da péssima formação e pouca informação que recebemos na escola sobre Literatura. Como ganhar gosto pela leitura com professores que não leram, sequer, um livro na vida? Como aprender sobre a importância da leitura e da Literatura tanto nacional como universal com professores que também não sabem sobre isso e, às vezes, nem se esforçam para passar aos alunos os conhecimentos adequados?

Existem aos montes professores de Literatura que não sabem como estudar uma obra literária com os alunos, que nunca estudaram alguma obra e que nem, sequer, dão importância a isso. Isso é grave!

O estudo da Literatura, além de todo o conhecimento cultural que nos proporciona, permite desenvolver nossa capacidade de raciocinar, de analisar e discutir ideias, livrando-nos de sermos pessoas passivas e que mal sabem defender um argumento ou estruturar um discurso em condições. A Literatura é uma forte fonte de desenvolvimento das nossas capacidades intelectuais e uma potencial forma de aperfeiçoarmos as nossas habilidades de comunicação tanto na escrita como na fala. E todo esse desenvolvimento das nossas capacidades intelectuais ajuda-nos a lidar com as diferentes situações da vida diária.

Com professores não formados e “adaptados”, que não sabem a importância dos livros, da leitura, da escrita e da Literatura de uma forma geral, como teremos alunos a ler? Como iremos superar as dificuldades que temos relativamente à leitura? É mais fácil ensinar o aluno a ler ou despertar o gosto pela leitura nele sendo o exemplo.

Creio que a cultura do livro deve ser construída em grande parte na escola, através dos professores e para isto estes precisam estar capacitados para tal. As políticas de educação direcionadas ao estudo da Literatura Angolana e Universal também contam para construção da cultura de leitura, bem como as políticas para a formação dos professores de Literatura. Também conta muito as políticas de estado para o acesso ao livro e nisto, infelizmente, ainda temos um longo caminho a percorrer, porque conseguir livros e a preços acessíveis não é das coisas mais fáceis no nosso país.

Portanto, por tudo isso, pelo tipo de cidadãos e profissionais que queremos, creio ser necessário que todos nós, desde as instituições que definem as grandes políticas de educação até às instituições que definem as pequenas, pensemos em que ponto estamos relativamente à educação tanto genericamente como em áreas específicas.