Os símbolos estão em tudo que é canto – dizia meu pai. Eles povoam os bairros, cidades, becos, casas e até os mais profundos pensamentos e palavras proferidas na escuridão. O seu uso, à medida, é um trabalho de artistas. Por isso, não é de admirar, nem já um pouquinho, os efeitos destes quando usados com todos os graus da sua adequação.

Hoje, há dois séculos – surgiu o simbolismo –, uma doutrina que segundo a qual a obra de arte vale, não enquanto expressão ou sinal fiel da realidade que lhe é exterior, mas por si mesma e na medida em que é sugestiva de sentimentos ou de pensamentos. Não se nega o seu valor a nível da literatura, política, markting e em muitas formas, também, de comunicação.

Assustador tem sido o trato que se tem dado a esta bela forma de fazer arte. Por exemplo, há por aí muitos indivíduos dotados de conhecimentos de culturas e realidades alheias, talvez, por causa dos anos instalados na europa ou nas américas, quiçá, no agora tão acarinhado planeta marte, que têm estado a pregoar, através dos símbolos e/ou do simbolismo, uma série de festas de apupos à nossa boa, porém, instável sociedade. Tem sido assim, em programas de TV e rádio, nos jornais, revistas e até nos discursos políticos com que nos enchem o balaio da paciência.

Os sinais e/ou alegorias nos discursos manipulam quase sempre a sua finalidade, sabe-se lá o porquê, mas como sabemos, aqui na sanzala ainda persiste o elevado número de pessoas incapazes de compreender até as entranhas, ou seja, nem todos estamos aptos para desnudar os símbolos nas falas de outrem. Às vezes, imprescindível se torna, recorrer ao nosso tão afamado recurso terra a terra, para que se chegue a um resultado homogéneo – fiel à intenção do discurso. Perguntem só à tia São de Cacuaco, que ficou sem fazer a prova de vida, pois entendeu que tinha que ficar em casa à espera dos brigadistas, porque segundo a cuja, assim ouvira na rádio. Perguntem também ao povo, se a ideia de que o oxigênio que respirámos seja um ganho da tão miúda paz que estamos cô ela, não é um abuso! Perguntem! Evidente se torna que para a nossa sanzala, às vezes, temos que esquecer o que somos para nos afogar, também, aos mesmos gritos que os candengues dos musseques; aos mesmos palavreados que as zungueiras e até aos mesmos mujimbos que as mocitas. A sanzala muito bem conhece os seus segredos, e é pelos nomes que chamámos os bois, e nunca se chama o Zé quando se quer o João a latir. Nunca. É assim que o simbolismo sem os seus devidos graus de pureza tem nos agredidos.

Agora então que está na moda publicitar as bandeiras e/ou as cores do coração, que haja mestria no tratamento dessas coisas, a angolanidade, para que não importe que símbolo seja, mas que expresse o respeito à sanzala que “todos” amámos. Portanto, esqueçamos por alguns instantes a europa e as américas dos nossos factos e verbos, e façamos o que o dever e as necessidades da sanzala obrigam, sem as bandeiras ou os símbolos que seguimos.