Com a publicação do poemário «Angola me diz ainda», em Novembro de 2017, começava em Luanda um dos projectos literários mais ambiciosos dos últimos anos: «Troncos da Literatura Angolana». Trata-se duma iniciativa conjunta entre a Editora Acácia e o Lev’Arte com o apoio do Camões – Centro Cultural Português, que até então vem contemplando escritores angolanos que surgiram nos anos 80 do século passado. Segundo Kiocamba Kassua, um dos mentores do projecto, em entrevista ao jornal «O País», «o critério para a escolha destas obras baseou-se na sua qualidade intelectual e estética», facto que averiguaremos ao longo da nossa abordagem.

Honras devem ser dadas a todos os escritores que prosseguem publicando desde que Angola alcançou a independência até aos nossos dias. Contudo, torna-se importante reconhecer que a longevidade ou carreira literária pressupõe acertos e desacertos. Outrossim, as obras dos escritores tidos como clássicos resumem-se em um, dois, três livros de grande relevância histórico-literária. De forma geral, o escritor de carreira é aquele que pouco se equivoca em termos de publicação, apesar de hoje ter-se escritores, que conservam um certo nome e que, articulados a uma bela máquina da propaganda (editoras e outras forças sociais afins), conseguem seguir em frente com obras que sobrevivem à custa desse nome. Para estes, tal só acontece porque os transductores literários, por razão de vária ordem (falta de bolsas para investigação, improdutividade financeira da crítica, etc.) não se têm mostrado disponíveis para o exercício ao qual estão predestinados (orientar leituras), e a crítica literária, uma instituição cada vez mais reduzida ao academicismo, tornou-se interesseira. Escrever sobre Pepetela, Manuel Rui, Boaventura Cardoso e Agualusa dá mais visibilidade aos críticos e quando estes se propõem a tal exercício envergam sempre para uma crítica protectora teoreticista ou conceptualista que visa exclusivamente pregar os valores positivos das obras, relegando a dimensão estética para um plano desconhecido. Esta mesma crítica, a teoreticista, é a que os apresentadores de obras se socorrem para tentar orientar «leituras» no momento. Ouvindo-os, tem-se sempre a impressão de que estamos a comprar o melhor livro do mundo.

Este artigo foi motivado por vários diálogos que mantivemos com vários leitores coevos da literatura angolana que, reconhecendo em nós algum mérito como transductor literário, se dirigiram até nós a fim de saberem qual seria a nossa opinião relactivamente a algumas das obras inseridas nessa colecção. Motivado por aqueles, partimos para um inquérito, e o resultado foi surpreendente: os livros publicados, quase na sua generalidade, apesar da grande valia dos autores, não satisfizeram os anseios da grande maioria dos leitores. Surpreendeu-nos o resultado pelo facto de reconhecermos valor literário acrescido nos cinco escritores envolvidos no projecto até agora. Com efeito, o que nos predispusemos a fazer, ao produzirmos este artigo, é confrontar dialeticamente, sem ser tendencioso, a posição do leitor coevo com as ideias que foram objectivadas formalmente nesses materiais literários. Para tal, elegemos quatro do quinteto constituído pelos livros «Angola, me diz ainda» de José Luís Mendonça; «Acasos e melodramas urbanos» assinado por Luís Kandjimbu; «Os livros dos ancestrais» de António Gonçalves; «Doutrinárias lâminas doutrinárias» de J.A.S Lopito Feijóo K.; e por fim, «Invari âncias (no lugar do crepúsculo)» de Cristóvão Neto com principal objecto de estudo.

«Angola, me diz ainda» é um poemário no qual se observa uma radical mudança de paradigma por parte do poeta José Luís Mendonça, um poeta que, ao longo dos últimos anos, habituou os seus leitores com temáticas ligadas ao amor, ao erotismo e ao quotidiano social menos contundente. Nessa obra, o poeta opta por um discurso crítico de contornos histórico-políticos que leva o leitor a revisitar factos antigos, partindo do colonialismo, passando pela guerra civil, alcança o mundo contemporâneo e questiona o social-político, com particular realce a Angola – na sua relação com Portugal. Trata-se de um poemário que surge na linha ideológica do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola e de um projecto do autor que visa a resgatar o pensamento daquele Movimento Literário que, no declinar da década de 40 e princípio de 50 do século passado, forçado por um contexto adverso, lançava o grito «Vamos descobrir Angola». «Angola, me diz ainda» é um livro que impactou estrondosamente grande parte dos leitores coevos pela mudança radical de estilo e pelas opções temáticas. Aplaude-se fundamentalmente os temas pela forma aberta como foram abordados, mas apupa-se a poética que, segundo grande parte dos leitores, foi pouco convincente comparativamente à sublimidade que se pode constatar em outros poemários do poeta nos quais esse discurso crítico, emergindo de alguma timidez, não se alheia da realidade estética com que José Luís Mendonça canta a lírica de amor. A verdade é que, Em «Angola, me diz ainda», superabundam textos quilométricos, nos quais as anáforas, as repetições, os paralelismos não dissuadem o discurso marcadamente prosaico em muitos poemas, com períodos complexos em que se pode enxergar o entrelaçamento de duas ou mais orações por coordenação e subordinação em alguns textos, que mesmo interpondo recurso ao anacoluto, continua a fazer lembrar o discurso macedeano do «mais e menos poético», do «mais e menos prosa».

Estabelecendo uma relação dialógica entre o título e os textos descritos em «Os livros dos ancestrais» de António Gonçalves, obtém-se um tremendo paradoxo, pois, em tal poemário, não se verifica uma relação de macrotextualidade entre o título e muitos poemas ali apresentados, resultando numa sequência incoerente de um conjunto de textos cuja pretensão, apesar da divisão em cadernos, visava a formação de um corpus compacto que partiria do título «Os livros dos ancestrais». «Sequele», uma centralidade recentemente surgida na história da arquitetura nacional, é o espaço de eleição num livro que se propunha a cantar o passado longínquo no qual o contemporâneo angolano é duma visibilidade capaz de ofuscar o passado. Não se pode falar em retrocesso na poética de António Gonçalves, pois exibe-se ao mesmo nível a que nos acostumou. Está dentro da sua linhagem em que a oscilação entre o mais e o menos poético é comum. Tal oscilação verifica-se fundamentalmente nos acertos e desacertos em termos de definição duma sintaxe lírica rigorosa, o que por vezes, dá variadíssimos espaços à evasão lírica. A.G. sempre foi assim: entre o MNIA e o simbolismo moderado. Em termos conteudísticos, nesse livro, é visível a utopia presente, fundamentalmente, nos textos onde questiona o colonialismo e a pressa com que terá montado o seu livro.

Em «Doutrinárias lâminas doutrinárias», J.A.S Lopito Feijóo K apresenta uma poesia que, apesar de se revestir da linguagem axiomática dos provérbios, não propõe dizeres poéticos tão diferentes daqueles a que o poeta andarilho acostumou os seus leitores nos últimos anos. Trata-se duma poética de continuidade que se torna monótona por abordar principalmente temáticas que se vão perpetuando na nossa sociedade: imoralidade na gestão da coisa pública e na política social. O referido poemário insere-se numa trilogia que, segundo o autor, tende a ser mais picante a cada publicação. A mensagem impregnada nesses poemas é duma riqueza imensurável, mas a poesia que daí emana é de pouca transcendentalidade. Essa poesia de Lopito, enviesada pelo seu carácter algo hermético, leva o leitor a partir do mundo inteligível para o sensitivo. A qualidade, do nosso ponto de vista, está lá, só que numa dimensão não superior aos poemários mais recentes por si publicados. Dar-se desconto por estar inserido numa trilogia e ser o primeiro livro dessa tríade?!

«Invari âncias (no lugar do crepúsculo)» de Cristóvão Neto, dentre os poemários aqui referenciados, é, provavelmente, aquele que menos diz, em termos de diversidade semântica, mas parece ser aquele que mais transcende e mantém um certo fulgor em termos de estilo e intensidade lírica, embora se perceba uma certa evasão lírica em algumas estrofes e poemas. Cristóvão Neto tem a seu favor a poética de apelo e uma metafísica que, não poucas vezes, desemboca em surrealismos. Entretanto, a quilometragem de certos poemas, nos quais essa metafísica se desvanece, faz com que haja uma variação de 80 a 8 em «Invari âncias (no lugar do crepúsculo), sobrepondo-se o mais em relação ao menos. Por vezes, a solução não é colocar muitos textos…

Em suma, é isto: o projecto é de todo positivo, mas fica visível que a editora em questão padece de falta de uma mesa de leitura mais rigorosa, porquanto «Os troncos da literatura angolana» equivaleria a um quase clássicos da literatura angolana, e os autores envolvidos não deram o que podem dar ainda. Abrir aqui um parenteses para alertar que quando nos referimos a «clássicos» não queremos fazer lembrar aquela colecção do GRECIMA em que só um terço das obras mereceria essa catalogação. Os leitores coevos são quase, na sua generalidade, potenciais poetas, amantes da poesia simbolista e surrealista: facto que faz com que as obras citadas, particularmente «Angola, me diz ainda» de José Luís Mendonça e «Os livros dos ancestrais» de António Gonçalves, com veios ideológicos neorrealista não encontrem a melhor resposta por parte desses leitores. Grande parte da poesia de Lopito Feijóo, de um tempo a esta parte, com excepção da sua poesia erótica, passou a ser muito mecanizada, configurando-se como um produto mais para estudiosos do que para leitores comum. Cristóvão Neto, pelas raras aparições, é vítima de um contexto que privilegia nomes, sendo apenas conhecido por uma pequena franja de leitores. Igualmente, sentimos que os autores envolvidos entraram no projecto com um pé atrás, aproveitando-se da conjuntura para fazerem experiências, tais como mudanças radicais de poéticas e publicação póstuma de um livro escrito por alguém que, em vida, não se conseguiu consagrar como escritor, num projeto que, à partida, era para escritores tidos como consagrados. A autoria do livro passa a ser do seu amigo Luís Kandjimbu que o poderia muito bem ter publicado num outro projecto. Culpas claras que devem ser atribuídas à editora por não conjugar os critérios por si estabelecidos a uma mesa de leitura mais rigorosa. Em vista desse cenário, diga-se que os próximos livros dos autores cujos poemários confrontámos dir-nos-ão se estarão já na recta final da construção das suas obras com quase quatro décadas de duração ou se, eventualmente, não terão dado o melhor de si como referimos. Por fim, vamos convidar, em jeito de advertência, todos leitores coevos a nunca colocarem em questão o vasto legado literário dos escritores surgidos no cenário literário angolano nos anos 80 do século passado e anteriores, principalmente esses que decidiram prestigiar um projecto juvenil de valor inestimável.