Sou impelido, muitas vezes, por uma força ingénua, a pensar que a resolução de todos os problemas que nos vêm acometendo a todos estão à mão. Pior é que, mesmo depois que me refaço, continuo a acreditar que as coisas podem mesmo ser simples. No alto da minha ingenuidade, que chega a roçar a petulância, julgo que as coisas são aparentemente difíceis, porque são na verdade fáceis. Nós é que não temos prática com situações fáceis.

A lógica reducionista resultante daquela força leva-me a mergulhar num dilema: ou sou um génio ou há falta de vontade de todos os outros. Os factos estão à vista. O meu argumento sustenta-se na existência de um fosso abismal entre o que é investido na Defesa e o que é investido na Educação, de uma forma geral, no mundo todo.

A pergunta ingénua é: “de quem é que todo mundo anda a tentar se proteger?” Mas se posso apontar soluções, porque acho que elas estão sempre a mão, porque não parar de divagar?

Estou convencido de que a solução passa por uma reunião breve entre representantes de todas as nações. O resultado seria surpreendente. Praticamente seria um encontro entre amigos, parentes, ex-colegas, colegas, parceiros, enfim, um encontro entre gente conhecida. No instante que ficasse claro que é de pessoas próximas que andamos todos a tentar nos proteger, derramaria uma vergonha colectiva, em forma de desencantamento, sobre todas as almas presentes. De regresso a casa, todos destruiriam suas armas, enfim, o mundo estaria todo ele desmilitarizado. Ninguém mais morreria de uma bala ou bombas: atómicas, nucleares ou biológicas. Simples demais…

Chegado nessa fase da narrativa, é legítimo que irrompa do mundo das ideias uma voz sábia a questionar: “que raios tem isso a ver com a crítica literária?”. O que posso, no momento, garantir é que não se trata de uma alusão análoga ao combate perpetrado por dinossauros da nossa selva literária. O resto é óbvio.

Com um mundo desmilitarizado, sobraria dinheiro. E não, não seria para dividir por todos. Seria para investir seriamente numa educação humanista. Aquela fundada no amor, não nessa vinculada, abusivamente, na competição absurda pela busca ao dinheiro.

O que é que isso tem ainda assim a ver com a crítica literária?

Como tudo, claro, é simples. A falta de educação abrangente e humanista cria a miséria, que Miller acreditava ser mais uma condição espiritual que material. Os miseráveis acreditando que a sua falta é meramente material desdobram-se de várias formas para continuarem vivos. É uma lógica absurda: “se não morres, tens de dar um jeito de continuar vivo.” Nisso, alguns matam para continuarem vivos. Os hérois de Hollywood matam centenas ou o quanto precisarem para salvarem a amada ou o cão, para restabelecerem a justiça ou continuarem vivos. Mas esse não é o caso.

O que acontece é que muitos miseráveis são “salvos” pela arte. A música é um exemplo fértil do que tento ilustrar. Muitos largam o mundo do crime, passam a ganhar a vida de forma honesta fazendo apologia ao crime e à devassidão nas suas músicas. O Rap e Kuduro, cá entre nós, são uma amostra representativa disso mesmo.

Se ainda assim não tiver sido taxativo, permitam-me dizer que, por culpa do investimento colossal na guerra, é normal que haja também críticos literários que o sejam apenas por conta da miséria. Aqueles que têm legitimidade, como todos os demais, de irem à busca de uma via para continuarem vivos. Ainda que isso custe aos autores e aos leitores.

Steiner costumava dizer que o crítico literário é como um carteiro/mensageiro. Os livros são as cartas que ele porta. Todavia, ele precisa ter cuidado ao remeter as cartas aos endereços certos. Há livros que salvam vidas. Não são todos, nem muitos. O crítico literário tem de ter ciência disso. Não precisa ser ele mais um instrumento de e ao trabalho do capitalismo voraz, tecendo elogios comerciais, enfiando goela abaixo dos leitores obras indigestas. Ou seja, procurando primariamente vender.

A cultura é um manifesto de desapego material e enriquecimento espiritual.