Nenhum povo é tão forte sem a cooperação com os outros. Inicialmente, Angola era formado por reinos, e esses mantinham alguma relação entre eles, embora cada reino usasse uma língua que lhe viria caracterizar.  Assim, de acordo com a Declaração Universal dos Direitos Linguísticos (1996), a situação de cada língua, tendo em conta as considerações prévias, é o resultado da confluência e da interacção de uma multiplicidade de factores: político-jurídicos; ideológicos e históricos; demográficos e territoriais; económicos e sociais; culturais; linguísticos e sociolinguísticos. Cada povo é detentor de uma língua que lhe serve de elemento de ligação entre todos os indivíduos da referida comunidade.

O percurso histórico da Língua Portuguesa em Angola inicia com a chegada dos portugueses em 1482 (finais do século XV). Em Angola, por causa da diversidade linguística, o processo da colonização trouxe um mal que veio para o bem: o Português deixou de ser língua estrangeira, língua dos colonizadores, sendo declarado oficial, isto é, a única língua utilizada pela população em todos os interesses da vida pública. Quivuna (2014, p.23) alerta que, “o enquadramento sociolinguístico do Português, na população angolana, acarreta, a partir da época colonial até ao momento actual do país, dificuldades de ordem oral”.

A expansão do português no solo angolano deve-se a três factores: (i) inserção da língua no sistema educacional, (ii) meio de evangelização e (iii) instrumento de comunicação da Administração pública.

Quanto à inserção do português no sistema educacional, Zau (2013) apresenta um inventário de datas que revelam os caminhos pelos quais o processo de inserção passou, tais como:

  • 1605 – criação da primeira escola de ler e escrever, em Luanda, uma das primeiras de toda a África negra.
  • 1845 – início do ensino oficial (decreto de 14 de Agosto). Surgimento de escolas de ler, escrever e contar em Luanda e Benguela.
  • 1921 – proibição do ensino de línguas africanas em escolas públicas e missões religiosas: decreto nº 77 do governador provincial de Angola, Norton de Matos.

A definição de uma política educacional para as colónias portuguesas, através da qual pudesse ser desencadeada a difusão sistemática do português, só ocorreu efectivamente em 1930, tendo sido adoptado o modelo assimilacionista francês, segundo o qual a língua colonial deveria ser a única língua de contacto no ensino e o instrumento que propicia a assimilação cultural.

O português foi imposto aos angolanos desde os primeiros contactos com o Reino do Congo até a sua retirada – 1482 a 1975. E “é interessante notar que, ao mesmo tempo em que os portugueses queriam forçar os angolanos a absorver a sua cultura, eles os reprimiam, não lhes permitindo um conhecimento profundo da cultura portuguesa” (Mingas, 2000, p.33).

“O contacto de dois povos de línguas e culturas diferentes cria condições para o aparecimento de interferências na comunicação, porquanto cada uma das línguas em causa apresenta características diferentes” (Chicuna, 2003).

Assim sendo, na visão de Sacanene (2016), a respeito dos tipos de transferências linguísticas, é preciso referir que existe transferência positiva e negativa. Fala-se de transferência positiva quando o indivíduo transfere da sua língua materna ou de outra língua elementos iguais ou suficientemente similares na língua que se quer. A ideia de transferência negativa, por sua vez, refere-se aos casos em que o transferido pelo indivíduo, de uma língua a outra, não coincide, ocasionando erros.

Ora, entende-se por interferência o desvio das normas próprias de uma língua em virtude de contactos com outra língua.

A interferência decorre do contacto de duas línguas e pode ocorrer a nível da fonética, da morfologia, da sintaxe, da semântica ou do léxico.

Os principais tipos de interferências são:

1. Interferência fonética – considera-se aqui quatro casos:

a) Intradiferenciação (ou desfonologização) – Ocorre quando uma  das duas línguas em contacto deixa de fazer sentir oposição fonológica de que se utilizava por influência da outra que desconhece tal oposição.

b) A supradiferenciação (ou fonologização) dá-se quando uma língua passa a fazer uma distinção fonémica, que não possuía, em virtude de contactos com outra língua, na qual tal diferenciação é pertinente.

c) A reinterpretação (ou transfonologização) ocorre quando o falante bilíngue reconhece no sistema fónico de uma língua B traços distintivos que nessa língua são redundantes, mas que na língua A são pertinentes.

d) A substituição fónica consiste em realizar um fonema – que, dentro do sistema, é o mesmo nas línguas A e B –, segundo as normas da outra língua (o fonema B segundo a norma de A ou vice-versa).

O estudo da Variante do Português de Angola não é assim tão recente. Para Costa (2013, p.9), “sem sombra de dúvida, o que se fala hoje em Angola é uma variante do Português Europeu, resultante do contacto da Língua Portuguesa com as Língua Nacionais maioritária”. Tal contacto dá a esta variante uma característica espe­­­­cial, com sotaque próprio, diferente do Português falado em Portugal e no Brasil, em que ocorrem expressões próprias das Línguas Nacionais.

A língua oficial de Angola é a Língua Portuguesa, meio pelo qual permite a comunicação dos angolanos de Cabinda ao Cunene. Desta feita, a norma que vigora em Angola é a europeia (Portugal) e os angolanos esforçam-se para a sua rigorosa aplicação. A grande parte dos angolanos não falam nem aplicam todas as regras da norma-padrão português devido ao contacto que o português tem/teve com as línguas angolanas de origem africana. Por outro lado, o espaço pode ser o elemento distintivo entre o Português Angolano (PA) e Português Europeu (PE).

“O contacto entre o Português e as Línguas Angolanas deu origem a outra forma de falar, o português em Angola. Assim, os falantes de uma língua são capazes de identificar, pela forma de falar de alguém, a região geográfica que representa” (Ntondo, 2015, p.20).

Daí que para Undolo (2016, p. 143), para qualquer falante, independentemente do seu estatuto social, do seu nível de escolaridade ou outros factores, as diferenças mais evidentes entre as variedades de uma língua são de ordem fonética”.

Referência bibliográfica

Chicuna, A. M. (2000), Interferência do Português na Antroponímia do Mayombe, TFCL – Universidade Agostinho Neto – ISCED, Luanda.

Costa, T. M. C. J. (2013), Os empréstimos das línguas Bantu no português falado em Angola: um estudo lexicológico da variante angolana, Luanda.

Declaração Universal dos Direitos Linguísticos, Barcelona, Junho de 1996.

Mingas, A. A. (2000), Interferência do kimbundu no português falado em Lwanda, Chá de Caxinde, Luanda.

Ntondo, Z. (2015), Fonologia e Morfologia do Oshikwanyama, editora Mayamba, Luanda.

Ponso, L. C.(s/d), O Português no Contexto Multilíngue de Angola, Universidade Federal Fluminense. Acesso aos 28 de Maio de 2017.

Quivuna, M. (2014), Lexicologia Aplicada ao Ensino do Léxico em Português Língua não Materna, Edições Colibri, Lisboa.

Sacanene, B. S.(2016), Angolanização do Português: Perspectivas para uma variedade Angolana, Dissertação de Mestrado apresentado à Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, Luanda.

Silva, J. F. & Sacanene, B. S. (2011), A bantufonia na variedade angolana do português. In: Simpósio Internacional sobre Língua Portuguesa.

Undolo, M. (2014), Caracterização do sistema vocálico do português culto falado em Angola. In: Revista de Filología Románica 2014, vol. 31, núm. 2, 181-187.