Felicitamos Ema Nzadi, pelo Prémio e pela concepção da sua obra de estreia, sem nos esquecermos de o agradecer pela consideração inclusive por nos ter escolhido para apresentação de Pintura dos Ecos.

Abrimos um parêntese, realçando o préstimo do Banco de Poupança e Crédito – BPC –, que, no âmbito da sua responsabilidade social, tem patrocinado o Prémio Literário António Jacinto. Entendemos que esta participação, através da subvenção, é também uma forma de incentivo à leitura e à escrita criativa.

Relativamente ao universo literário, a estranheza é um dos resultados que se espera da leitura de textos predominantemente estéticos, e surpreende-nos Emanuel Vieira Cambulo, de seu nome completo, por ser o laureado com o Prémio Literário António Jacinto 2019.

Um jovem poeta albergado nas entranhas do Movimento Litteragris do Zaire, com publicações esporádicas no facebook, os seus textos nunca despertaram tanto a nossa atenção ao ponto de pensarmos que arrebatariam um prémio de tamanho valor no âmbito das letras e das instituições de legitimação literárias, como o António Jacinto, daí termos feito recurso à dúvida, desenvolvendo curiosidade e atenção para leitura dos poemas com que Ema Nzadi é elevado à História, à Instituição Literatura Angolana e, quiçá, à Literatura Universal.

Um escritor nunca está isento dos momentos em que produz o seu trabalho, podendo ser influenciado pelo meio em que está inserido e, ainda que se expresse no singular, ele é capaz de representar a memória colectiva de uma sociedade, daí que Emanuel Cambulo, filho da província do Zaire, residente no Soyo, com alguns traços da agremiação artístico-literária em que está vinculado, Litteragris, apresenta-nos Pintura dos Ecos, um conjunto de trinta e um (31) poemas, dos quais notamos ruptura na escrita habitual dos títulos que, em vez da parte cimeira, vêm no final, estando ainda patente o desmembramento das palavras em alguns versos, sob forma de encavalgamento: “cá / rego / infinita mulher” (no texto Mukongo, p. 34) ou ainda em “In Digna Acção” (p. 26), originando ambiguidade nos versos, que se tornam uma riqueza morfossintáctica e semântica que, se bem explorada, se consegue perceber a nossa afirmação.

Discorrendo sobre os poemas, deparamo-nos com múltiplos recursos expressivos que incidem no nível fónico, com proeminência da assonância e a aliteração: “longe de mim não estás / seu céu sou / tu és (m)eu” (em Zaire, p. 23); no nível sintáctico, anáfora: “hoje sou luz / hoje só corpo Makinu” (no texto A Custo, p. 24), enfatizando-se o enfado do sujeito lírico, pelo sentido de actualidade para o qual o advérbio repetido nos remete; no nível semântico, imagem: “vozes deste chão” (Pinturas dos Ecos, p. 22), em que “vozes” ocorre como metonímia de pessoa: o autor emprega a parte no lugar do todo, pretendendo uma renovação da composição escrita.

Lendo Pintura dos Ecos, confrontamo-nos com termos em Kikongo, uma das línguas nacionais de Angola com uma dimensão transfronteiriça, também falada na província de que o autor é originário, Zaire, onde alguns morfemas encerram uma dimensão proverbial, a título de exemplo temos o texto “Kimbemba” (p. 38), que, na cultura local, é nome de um pássaro de mau agouro, por encarnar a morte, transportando a crença de que nem toda morte é simples acidente, ou seja, há mortes provocadas, sobretudo em casos que o corpo do defunto não aparece, acusando-se os espíritos como os principais responsáveis. Neste sentido, o desaparecimento físico de alguém pode ter uma explicação física (do ponto de vista patológico) e outra além da física, de acordo com as elucidações que nos foram dadas pelo próprio autor e pela Formosa Castelo, uma Senhora entendida em matérias sobre algumas culturas de Angola, numa conversa que mantivemos a respeito do pássaro “Kimbemba”.

Os Poemas de Pintura dos Ecos insinuam o regresso ao passado, especificamente às raízes culturais e tradicionais de Angola, o que se percebe pelos signos linguísticos do título: “Pintura”, que corresponde à representação de uma imagem numa tela, e “Ecos” que nos remete para o movimento de um som que se propaga no ar ou que retorna à sua fonte de produção.

Realçar que a pintura é uma das formas de expressão das artes plásticas em que a vida e o mundo são apresentados pela interposição das cores, revelando uma parte da cosmovisão do seu autor.

Como reforço do significado semântico veiculado pelo título Pintura dos Ecos, o escritor Ema Nzadi faz citação de algumas letras musicais do malogrado Teta Lando, numa epígrafe: “Nuni yenuni zivovakwandi / (…) / Ngyenda kuna yawutilwa / I’nvoveswanga”, da língua Kikongo, que, numa tradução literal, significa: “Os pássaros dizem-me que eu volte à terra onde nasci, dizem-me”.

No Medievalismo, torna-se recorrente o culto aos valores da antiguidade clássica, greco-romana, como forma de o artista se aproximar aos deuses, aos grandes, relembrando-nos as potencialidades da Grécia e também de Roma. Em Pintura dos Ecos, os sujeitos poéticos propõem o retorno aos tempos idos sob espécie de saudosismo, realçando um momento que contrasta com o presente.

Outrossim, o passado, embora revestido de dureza, constitui-se em manancial de prazer, fonte de vida e bonança, pelo recurso aos morfemas “ilhas” e “mar” presentes na imagem da primeira estrofe e da quarta, do poema que dá título à obra, donde se pode ler:

“vozes deste chão
banham na pele dos séculos
cheiros vestindo ventos

de volta trazem ilhas
ecos das durezas”

Pintura dos Ecos, uma obra de valor monumental, apresenta-nos não somente o imaginário do seu autor, mas também um punhado da visão da sociedade que, saindo de uma fase embrionária, progride para o momento actual, pairando no imo dos diferentes sujeitos poéticos a ideia de frieza que encarna as relações interpessoais entre os mais velhos e os mais novos, sendo sugerida reconciliação por meio do diálogo, que nos vem sob vozes:

“vozes deste chão
banham na pele dos séculos
cheiros vestindo ventos”

(…)

“nenhum tempo abraça comboio
locomovem com elos ecos”

No fragmento em alusão, a palavra comboio dá-nos a entender a velocidade com que correm os dias hodiernos, pelo que ninguém tem tempo para ninguém. Em contrapartida, a voz poética diz: “nenhum tempo abraça comboio”, todos se “locomovem com elos” e “ecos”.

Outros temas que atravessam sobre os poemas de Ema Nzadi são os diferentes tipos de amor com que se trajam os laços afectivos na actualidade, a saber: o amor por simpatia, ou melhor, aquele em que há partilha de afectos e um projecto futuro para os envolvidos, para se confirmar no texto “Homenagem ao nosso Amor” (p. 25); o amor platónico, em que o objecto do amor é inacessível, e o amante vive consumido pelas labaredas da paixão, exemplo no texto “Nestas Curvas Rio” (p. 28)ou em “Humi(l)dade nas Rochas” (p. 29).

Trespassam ainda sobre a obra algumas calamidades que enfermam a nossa sociedade, como a fome, citada em “Estigma” (p. 20); a guerra e a morte, em “Nvita” (p. 36), revelando-nos a função estética e utilitária da arte, usada como arma de combate, pelo que, o seu autor, não estando alheado às circunstâncias ao seu redor, intervém socialmente.

Lida e analisada Pintura dos Ecos, dissipamos as nossas dúvidas, percebendo que o Prémio lhe é merecido e recomendamos a sua leitura.