Entre a desvalorização do Kwanza, a subida maluca dos preços dos produtos da cesta básica e o orçamento aprovado por unanimidade daqueles que devem ter mais poeira no cérebro que massa cinzenta, iluminados, quiçá pelo brilho dos supercarros que virão embelezar as estradas de Angola e inflamar os egos de uns e de outros;

entre as abordagens de economistas, empresários, políticos, cada um a expressar a sua opinião sobre os assuntos que estão a levar ao rubro o país assim como as suas perspectivas, muitas delas assentes nos discursos bonitos apresentados pelo Presidente da República contrastando com o que mais foi dado como prioridade no bolo total da massa que SUPOSTAMENTE  deverá conduzir os destinos do país e ajudá-lo a tirar da penúria;

entre tudo o que foi acima citado e muita coisa que vem se falando com bastante pompa e circunstância, para o cidadão que tudo dá, por si e pelos seus, e muitas vezes faz das tripas o coração para dar o seu contributo pelo engrandecimento do país, pouco ou nada vai importar quando após tocar o sino, na primeira semana de aulas, verificar que o filho se encontra entre o MEIO MILHÃO de crianças que permanecerão do lado de fora das paredes do estabelecimento escolar.

“Não liga, isso é Angola!”, é uma expressão com que estávamos já acostumados a ouvir e a dizer para fazer parecer que muitas coisas descabidas por cá passavam por normal, isso, até percebermos que o normal não significa que apenas uns têm que fazer sacrifícios enquanto outros vivem as melhores vidas com tudo pago e abocanhando sozinhos, cada vez mais, aquilo que devia ser para muitos.

Agora todo mundo liga, todo mundo sofre, todo mundo reclama, até aqueles que sempre viveram a custa da sombra das árvores que largavam folhas de dinheiro. Agora todos fazem sacrifícios. Dizem! Era bom que isso fosse verdade. Todos sabemos que não é bem assim, nunca será assim. Os verdadeiros sacrifícios continuam a ser apenas de alguns, daqueles que sobrevivem dias e dias debaixo do sol e no final do mês, quando o pouco que resta para comer, ainda tem que dividir para pagar o que supostamente devem ao estado.

Estamos a ser convidados, em diversas campanhas geridas por diversos meios de comunicação e plataformas informativas, a contribuir para o Estado, pagando o que devemos pagar e fazendo crescer as receitas que não dependam do petróleo. Agora, todo mundo conhece a AGT e sabe o que são impostos, onde e como deve pagar. Todo mundo está a ser consciencializado a ser cidadão cumpridor das suas dívidas.

Com o supracitado, para quem cumpre ou vem aprendendo a cumprir as suas responsabilidades perante ao Estado, pouco importam os argumentos dos comentaristas que aparecem na televisão e parecem saber de tudo; pouco importa o político que levanta a mão no parlamento para no final do dia estendê-la ao volante de um carro que custaria o salário de sabe Deus quantos professores;

De que serve o discurso bonito, seja lá de quem for, quando a verdade, NUA e CRUA, está escrita no supracitado orçamento, no qual cerca de SESSENTA MILHÕES de Kwanzas estão distribuídos para actividades que, mais do que qualquer motivo, servem para enaltecer a dualidade que, desde há muito, vem espezinhando o povo a custa dos seus interesses e de seus camaradas: o partido no poder e seu patrono.

Cobra-se cada vez mais ao cidadão, para que seja cumpridor dos seus deveres e obrigações, e os indícios, as receitas, retratam que isso está sim a acontecer, com grandes ou pequenos sacrifícios, está mesmo a acontecer. No entanto, o que vemos, do outro lado dessa moeda, é a mesma ladainha de antes, a falta de patriotismo de quem se diz representante do povo, o egoísmo exacerbado e a ausência de seja qual for o mínimo de sacrifício.

O pai que deverá duplicar o seu sacrifício se quiser ver acontecer a formação do filho, colocando no ensino privado, destrambelhado, decerto verá, melhor que muitos, que, no final, o Estado  continua a não querer assumir as suas responsabilidades, pois não importa que argumentos venha a apresentar, não se justifica que numa época como agora, MEIO MILHÃO de crianças permaneçam fora da escola, quando um dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (o nº 4) diz:

“Assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos”.