Permitam-nos começar esta abordagem desfazendo alguns equívocos conceptuais que nos parecem já enraizados na literatura angolana.

O primeiro tem que ver com a noção que temos de geração. Sobre este conceito, diga-se que, em Angola, em termos teórico-literários, só tivemos uma única geração literária que terá coincidido com o Período no qual se insere – trata-se da geração de 50, que partilhava das mesmas inquietações filosófico-existências e estética. Uma geração formada por nomes que marcaram a nossa história literária e política, dentre os quais destacam-se Agostinho Neto, Viriato da Cruz, António Jacinto, Mário Pinto de Andrade. O conceito de Geração literária, segundo o professor Carlos Reis, refere-se a uma colectividade relativamente selecta de escritores e intelectuais que comungam de preocupações sociais convergentes de anseios históricos e de orientação estético-literárias também semelhantes. Muito mais do que a idade dos integrantes, «visto que a não contemporaneidade dos contemporâneos constitui um fenómeno normal e inevitável em qualquer sociedade» (Silva, 1983), o principal factor é ideo-estético. Desvanecida esta teia de ambiguidade, diga-se que o Lev’Arte, o Berço Literário, a ALCA bem como a maior parte das outras associações cívico-literárias constituiriam uma geração. O Litteragris, o Movimento Cultural do Cunene e algumas personagens que não se inserem nesses grupos (Lucas Vicente, Gineraldo, Zola, Mário Henriques, dentre outros), pela proximidade ideoestética, formariam outra geração.

O segundo tem que ver com o preconceito em torno dos críticos. Claramente era bom que estes viessem directamente dos cursos de Línguas e Literaturas. Mas o tecido da vida é feito de oportunidades e nem todos têm a prerrogativa de cursar letras. Aqueles que se dedicam neste exercício vital e existencial para a própria sobrevivência do principal facto literário, no caso a obra literária, não podem ser impedidos por um grupo que cobardemente se fecha na academia com vista a elitização de uma realidade que sempre escapa dos enredos que os políticos arquitectam. Se, na sua condição de filólogos literários, não saem dos seus postos de trabalhos e limitam-se a estudar um conjunto de obras já mapeadas, não podem proibir, de maneira nenhuma, que outros estudiosos, provindos de outros círculos, o façam. Pois que a Literatura não é uma realidade sincrónica. Ela é dinâmica e outros factos literários acontecem diariamente.

Podem até ser menos culto e com menos relevância socio-histórica, mas devem-se constituir como objectos de estudo. Ser linguista ou ser crítico literário é uma actividade associada à prática, ao exercício, e não uma mera atribuição acadêmica. O conhecimento literário reside nos livros afectos à literatura, na interdisciplinaridade das ciências, no diálogo com os artistas e na vida. É um conhecimento que não se restringe à Faculdade de Letras ou ao ISCED. As Universidades são importantes, mas equivocam-se aqueles que acreditam que sejam os únicos espaços possíveis para o saber científico. O crítico precisa é de saber ler e mover-se dentro de uma escola de interpretação. A Literatura é tão complexa que é imperioso ter-se cuidado com as abordagens. Uma universidade ou um professor pode adoptar, por exemplo, uma corrente como que uma franquia, investir nela e incutir a ideia de que seja essa, efectivamente, a melhor abordagem para compreender o fenómeno literário. A Universidade é crucial para a base do investigador, porém, o que determina a sua competência é o modo como lê, como interpreta as teorias e como as aplica nas obras.

Por outro lado, o conceito de Literatura não pode ser determinado por ideologias ou por abordagens doxográficas e moralistas feitas por indivíduos que não passaram pela academia e sob um viés pessoal, associado à qualidade da leitura que fizeram, predispõem-se ao julgamento dos factos literários praticando o que se pode designar «terrorismo psicanalítico-literário». Uma crítica baseada única e exclusivamente no faro da experiência e sem fundamento metodológico é nula. Nós, enquanto estudiosos, acreditamos que a filosofia analítica é a melhor abordagem para a interpretação do fenómeno literário. Na arte, a Filosofia analítica, tem como finalidade «explorar os conceitos que tornam possível criar arte e pensar sobre ela» (Carroll, 1999, p.18). Funciona como uma forma de investigação que visa, na verdade, a clarificação das concepções teóricas dentro dum determinado domínio. Podemos, portanto, referir-nos aqui a um materialismo filosófico, como método de interpretação do fenómeno literário e teremos como objecto de análise o triângulo autor, obra e leitor. O materialismo filosófico será aqui entendido como método de interpretação de natureza racionalista, científica, crítica e dialética, cujo fim é a interpretação das ideias objectivadas, formalmente nas obras literárias.

Vamos admitir o uso do termo «nova geração» para se referir, de um modo geral, aos poetas desse período da nossa historiografia literária, na medida em que não reformulamos o tema que nos foi proposto pela organização. No entanto, reforçamos, ainda assim, a ideia de que não constituímos uma geração literária pelos motivos acima expostos. Assim sendo, diga-se que fazemos parte duma Era de coexistências ideológicas e estéticas. Ademais, os poetas de 80 ainda se constituem como uma realidade estética presente e algo hegemónica, na medida em que, quanto a nós, parece-nos que ainda são os detentores do campus literários, ocupando as principais instituições literárias.

Há, por outro lado, a poesia-dita que, influenciada pelo Spoken Word, é escrita com vista a ser declamada. Portanto, são poemas quilométricos que podem ser observados na coletânea de textos poéticos do Lev’Arte, «Palavra» e no livro «Poemas de Berço e Outros Versos» da associação cívico-literária Berço Literário. Estes cultores, na sua maioria, produzem uma poesia de matriz oral, que procura causar um efeito empático ao público, ora através de crítica social e, muitas vezes, num erotismo questionável. Trata-se duma poesia que, quando publicada em livro, na sua maioria, é de pobre concretização estética, porque os signos orais na escrita dificilmente funcionam. No entanto, é com bons olhos que se podem observar jovens com o talento de um Fernando Carlos, com o seu prosopoema, que é sublime no acto da performance e encerra alguma beleza textual mesmo quando apresentado em formato grafemático. Podemos citar também aqui o Bona Ska que, quanto a nós, está entre os mais esclarecidos. Há, por outro lado, uma geração que herda as poéticas da geração de 80 e que procura, a todo o custo, subvertê-la por via de rasgos estilísticos hodiernos, em suas torres de marfim. Tais rasgos, por vezes, consubstanciam-se ora num amalgamento de palavras ora em partição de palavras que parecem encerrar duas, três palavras. Poucos são os que conseguem ser felizes, do nosso ponto de vista. São poetas experimentalistas que bebem da poesia Universal. As duas propostas: a poesia-dita e a experimentalista estão em fase de amadurecimento e, tarde ou cedo, darão alguns nomes que se integrarão no corpus da literatura angolana.

Vamos finalizar a nossa comunicação, dedicando um parágrafo a cada livro que mapeamos ou elegemos para este dia.

«Os segredos da semente e a pintura do olhar»: livro de Manuel Tungavo, prémio António Jacinto 2016. Título longo para uma obra poética, mas vamos respeitar as preferências. É um livro que reúne um conjunto de poesias que se inserem na estética simbolista, envolvendo, frequentemente, espaços que nos remetem culturalmente às vivências angolanas. Uma obra algo telúrica que se insere numa tradição poética que mescla Maimona e Ruy Duarte. O trabalho oficinal não pode ser questionado, mas, apesar das imagens, é para nós uma obra pouco transcendental.

 

«Lamúrias do meu íntimo»: da autoria de Mãe dos Setinhos, pseudónimo de Catarina Fortunato. É um livro de lamentos em que a poetisa interpõe, frequentemente, recurso à rima, o que torna enfadonha a leitura, dada a dimensão prosaica que os textos encerram. Um livro que, eventualmente, poderia ter sido melhor, se a escritora tivesse melhores conselheiros. Há alguns detalhes bons, e dois, três poemas com alguma qualidade.

 

«Viagens à Liberatura (Poética da geração ensonada para o alvorecer)»: uma coletânea de poesia escrita por Igor de Jesus, Shafu Duchaque e Nazário Muhongo. Os autores parecem mover-se dentro duma mesma mentalidade ideo-estética que nos remetem a versos discursivos e impregnados de poetas da geração Mensagem desde a estrutura externa ao conteúdo que se só se distingue daquela pela geografia do contexto. Há outros detalhes que os distinguem como a componente proverbial que alguns textos encerram e a intertextualidade provocadas por outras leituras. A obra traz várias mensagens doutros e de nossos tempos. É interessante lê-la, mas, em termos de estilo, poderia ter sido melhor. A mensagem semântica sobrepõe-se à mensagem estética.

«Minhas outras vidas»: de Kardo Bestilo. Uma obra que, não sendo póstuma ou eventualmente reunião da obra-prima do autor, é composta por quase duas centenas de poemas do mesmo autor e uma dezena de seus coevos. O título serviria melhor numa prosa, fundamentalmente num ensaio autobiográfico de pendor filosófico. Uma poesia de introspeção, que nos parece ter vestígios de «Renúncia impossível», em alguns poemas, muito voltada ao sujeito, revelando, em alguns casos, um exacerbado egocentrismo, como se pode verificar nos versos (eu busco o melhor em ti/ eu vejo em ti virtudes/ debaixo dessa lama preta/ eu consigo lapidar/ um lindo diamante). Parece-me ser um escritor que lê! Mas lê mais para-literatura do que literatura estética e isto reflecte-se nos textos demasiados denotativos. Uma obra frágil, quanto ao estilo, mas com temas interessantes.

«Raízes Cantam»: de Job Sipitali, membro da ALCA-Benguela que, em termos ideoestético, nos parece ser um cowboy solitário, na medida em que a sua obra revela desígnios estilísticos muito diferentes daquilo que a ALCA apregoa. «Raízes Cantam» é, indubitavelmente, das melhores propostas poéticas que lemos, publicadas por um angolano abaixo dos 40 anos de idade, no decénio 2008 / 2018. Trata-se duma obra que encerra uma forte dimensão filosófica e proverbial, que evidencia uma apurada disciplina estética por parte do seu cultor. Parece-nos ser alguém que sabe o faz quer do ponto de vista formal quer a nível do conteúdo estético que quer passar. Como em todos os poetas que por aqui (na humanidade literária) passaram, obviamente, há sempre um ou outro texto em que o «Sipi» não foi o «Tali».

«Um dia depois de amanhã»: de Ângelo Reis. Título de filme ou ensaio filosófico? Título de uma obra poética. Traz um prefácio de um grande poeta brasileiro de nome Alufa-Licutã em quem terá faltado, eventualmente, alguma honestidade. Treze páginas de prefácio para um livro com menos de cinquenta poemas será um ensaio de nome prefácio? Conseguimos compreendê-lo. Geralmente, a afro-solidariedade do «olhar estrangeiro» implicado pela trama da história, quando se volta para às Áfricas dos nossos dias, tende a apresentar declarações apaixonadas. Diz o prefaciador que Ângelo Reis não aceita o lugar-comum e as coisas fácies. Quem escreve «Angola minha anfitriã, Angola minha mãe, tu que me viste nascer sobre as quedas de Calandula» insere-se no mesmo espaço estilístico dos falares correntes. Ademais, em termos de linguagens, a poesia de Reis está impregnada de lugares-comuns. Portanto, deve ter falado de um livro que não seja este que ora apresentamos. O livro não é mau. Há lá alguns detalhes positivos, mas é frágil, de estilo simples. Quanto ao conteúdo, o poeta, alienado, serve-se duma utopia para enxergar o futuro, mas também critica o presente e manifesta desejos como o de ver os filhos a correrem pelo Huambo. Reis é um Netiano declarado e sente-se a presença do Maioral na sua produção. Mas a que se deve essa paixão?!