O chão estava coberto de pernas estendidas sobre panos também estendidos, africanos, de cores várias, vermelho, em particular, ou na mistura de várias nas quais o vermelho era predominante. Há dias que pernoitavam quão refugiados no quintal da dona Jacinta, esperando o inevitável (?) ou o desejável. Por que razão, não se sabe. Choros ainda estavam calados, mas panelas, estas, já estavam no jogo carnavalesco de pinturas a preto e a gritos fervorosos de fervura. Eram panelas enormes para alimentar barrigas fantasmas do outro lado da rua da existência.

Da rua, se ouvia o silêncio de lágrimas nos rostos secos de lisura da velhasqueira que se fez em massa. As pessoas passavam e logo entendiam a festa. Pelas bandas da Ilha que agora é mesmo de Luanda, festejava-se por vida e por morte. Chorava-se pela vida e pela morte. As lágrimas sempre escorriam o seu leito. Ora do rosto ora do coração, da alma. Também havia dança e pulos ao som da música ora do DJ ora da boca do grupo coral que nem sempre se solidarizava, ou da boca da vergonha que também se vestia de ovelha em terras de lobos, mas sem nunca sentir, até então, os dentes da alcateia.

No hospital, as máquinas do homem cientista não diagnosticavam a doença. Mas a velha tinha de tudo um pouco. Reumatismo que já se prolongava, chamando há tempos a tensão alta, que, não se sentido bem, só, alegrou-se com a chegada da diabete. Durou anos. Dez ou um pouco mais. Mas o que a levou ao hospital foi o famoso tio Palu, que se escondia não sei onde, até os médicos desistirem de procurá-lo com as máquinas. Pena da tia Jacinta, que se contorcia de dores, e que aumentaram assim que os seus ouvidos testemunhavam das línguas médicas que todas as análises foram negativas. A tensão disparou e atingiu um record. Pessoal!

– Mas estes médicos são de onde!? Como dão uma notícia dessas na doente!?

Reclamações ouviram-se de alguns familiares, dos muitos que acampavam em tendas sem tenda, ao relento, nos arredores do Hospital Maria Pia, à espera não sei de quê.

Não havia DJ nem grupo coral nenhum. Bocas fechadas. Nem hino nem choro se desalojavam daqueles túmulos de más intensões. Só mesmo serviam de alojamento para alimentar almas várias no somatório de um só um corpo, duma só boca, duma só língua. Todavia, os preparos estavam avançados, só continuava a não perceber o porquê, mas coisa boa, com certeza, não era.

A internação já durava duas semanas. Levada pelos filhos, tia Jacinta era uma senhora jovem, num corpo de idosa, inflamada por alguma coisa que não poderia ser boa. Talvez o copo!? Ouvia-se que gostava do seu copo, e, quando não podia escapar a vigia dos filhos, solidarizava-se com o sumo de limão, que, tempos depois, foi escorraçado também do seu cardápio, assim como também o feijão banhado em óleo de palma e tantas outras mordomias, luxos para jovens que ainda se envaidecem de saúde. O tempo lhe concedia uns 64 anos, mas parecia ter abusado tanto que lhe escapou a beleza e, com ela, foi o marido. Este parece que se tinha casado eternamente com a Jacinta de seus 24 anos, e ela não o cedia para ninguém. O tio Zeca foi e a deixou com uma casa com as condições mais básicas possíveis. E no pouco metro quadrado do seu quintal, auxiliada pela parte frontal da casa que roubava, sem permissão, uma parte da rua – bastante normal por aqui –, lá estava aquele grupo de pessoas a desejar, só pode, que a senhora batesse a cassuleta, as botas, que fosse desta para melhor ou para pior. Porque, para onde se vai depois do sopro nos abandonar, ninguém, realmente, sabe. E se, realmente, ela fora crente da religião do anjo mau, para melhor, dificilmente vá.

Dia seguinte, os choros que há dias se foram anunciando pelas leituras faciais começaram o seu trabalho de decoração espiritual. Os filhos estavam, então a cumprir aquilo que, na verdade, todo mundo espera que os seus filhos façam. E lágrimas formavam lagoas no interior das suas dúvidas emocionais que, naquele momento, só aumentara. Passaram quatro dias e, no quinto, a casa estava pronta para receber o que tanto preparavam. A vizinhança percebera o que achava que tinha percebido, mas que não era o que achava. Era um pré-óbito.

– Pensava que as ngapas não morrem…!

Conversas de óbitos espalhavam, por todos os cantos possíveis, que aquele óbito tinha ou conseguira, segundos os limites que, sem muito querer, os obitantes determinaram. Ou aquela gente era toda feiticeira ou as ngapas tinham aparências físicas padronizadas que a malograda, com o tempo, ganhara. Porque, para se conhecer uma feiticeira, só outro feiticeiro ou alguém com uma visão para fora deste mundo limitado ou, para todo mundo ver, tinha de ter um sinal na testa como marca identitária. Porém, não sei muito bem quais das situações se aproximava mais da verdade, mas a verdade mesmo é que as línguas deitavam veneno por tudo quanto é canto contra a senhora que, se pudesse estar presente, tiraria satisfações e pediria prova ou o pau com o qual se matou a cobra.