15 de Setembro de 2016, será lembrado como o dia em que mais um marco foi escrito no que se refere a literatura angolana. É o dia em que escritores, académicos, figuras de destaque social e cultural, estudantes de Letras, e de outras ciências, e públicos em geral testemunharam a proclamação da Academia Angolana De Letras (A. A. L.) no auditório do Memorial Dr. António Agostinho Neto, com os Membros da Assembleia Geral tomando posse na cerimónia.

Numa época em que muito tem-se discutido sobre a literatura angolana, bem como os desafios sociais e culturais, a preservação e expansão da identidade angolana em vários níveis, alguns dos mais célebres cultores das letras e investigadores sociais do país tomaram a peito a incumbência de fazer da Academia Angolana de Letras uma realidade, tal como em várias partes do mundo há vários séculos, cuja missão e vocação principal consiste na realização profícua de programas e acções de promoção, valorização e divulgação dos estudos sociais avançados sobre a criação oral, a criação literária, as línguas, as literaturas e as comunidades humanas.

 

O escritor e jornalista João Melo, membro da Comissão Instaladora, apresentou, no seu discurso, o decurso da formação da Academia até vir a ser publicado o seu Estatuto no Diário da República, no dia 28 de Março de 2016, seguindo-se as aprovações do Texto de Proclamação e Manifesto, no dia 23 de Junho 2016 em reunião alargada e, finalmente, elegendo, no dia 03 de Setembro, os membros dos órgãos sociais que viriam a tomar posse no dia da Proclamação.

A Academia Angolana de Letras viria a ser constituída por 42 cadeiras, inicialmente, porém, passou a 43, com a cadeira de António Agostinho Neto, que deverá permanecer sempre vaga. “[A distribuição das 42 cadeiras] deverá ser oportunamente analisada pelos órgãos competentes da Academia, estudando-se a possibilidade de atribuição de cadeiras a precursores da literatura angolana, bem como a outras figuras de gerações posteriores ou outros critérios a definir”. Afirmou João Melo.

No seu discurso, João Melo evidenciou que foram convidados, para fazerem parte da Academia Angolana de Letras, todos os membros fundadores da União dos Escritores Angolanos, assim como os autores angolanos estudados e premiados nas mais diferentes universidades, tendo alguns recusado por decisões meramente pessoais, as quais coube, simplesmente, a comissão instaladora respeitar.

O escritor e jornalista José Luís Mendonça fez a leitura da Proclamação da Academia, ressaltando logo no início que: “A tradição literária angolana nas suas manifestações diversas remota do século XIX e prossegue através das gerações subsequentes que emergem durante o século XX traduzindo a consagração da prática criativa e da investigação social sistemática nas suas dimensões normativas e analíticas, com expressão sublime fundada na obra de eminentes intelectuais e pensadores angolanos, dentre os quais António Agostinho Neto, o patrono da Academia Angolana de Letras.”

Personalidades ligadas à vários organismos, tiveram um momento para uma palavra de felicitação à recém-criada Academia.

António Quino, fez a leitura da mensagem da União dos Escritores Angolanos, no qual destacou o relevante histórico dos intelectuais que investiram nas letras desde o primeiro movimento literário criado em 1948, os Naturais da Terra, que viria a fundar o Jornal Mensagem com o intuito de marcar o início de uma nova cultura para Angola. Dentre os escritores dessa geração de cinquenta, destacam-se Agostinho Neto, Viriato da Cruz, António Jacinto e Mário Pinto de Andrade. “[É fundada a Academia Angolana de Letras] 60 Anos depois do encontro dos novos intelectuais e 41 anos desde a fundação da União dos Escritores Angolanos”. Sublinhou António Quino.

O Embaixador extraordinário e plenipotenciário da Itália em Angola, Cláudio Miscia remeteu, de forma sucinta, as felicitações e leu a mensagem do presidente da Accademia della Crusta, uma prestigiosa instituição linguística da Itália fundada em 1583, referindo que não haverá falta de oportunidade de intercâmbio e colaboração entre as duas academias.

Academia Cabo-verdiana de Letras, também remeteu as suas felicitações, lidas no evento pelo escritor e investigador Corsino Tolentino, que transmitiu aos académicos angolanos um abraço cabo-verdiano e as saudações de Vera Duarte, presidente da academia de letras do seu país.

O auge da cerimónia foi patenteado com o termo de posse conduzido por Victor Kajibanga, apresentando o quadro de direcção da recém-criada Academia Angolana de Letras, ficando assim designados:

Presidente da Mesa da Assembleia Geral – Artur Pestana “Pepetela”

Vice-Presidente da Mesa da Assembleia Geral – João Melo

Secretário da Mesa da Assembleia Geral – José Luís Mendonça

Presidente do Conselho de Administração – Boaventura Cardoso

Vice-Presidente do Conselho de Administração – Luís Kandjimbo

 Vogal do Conselho de Administração – Rosário Marcelino

 Presidente do Conselho Científico – Paulo de Carvalho

 Presidente do Conselho Fiscal – Henrique Guerra

 Secretário do Conselho Fiscal – Almerindo Jaka Jamba

 Relator do Conselho Fiscal – António Quino

Os membros do corpo directivo, ora empossados, assinaram o referido termo, bem como Victor Kajibanga, como Presidente da Comissão Eleitoral, sendo a única ausência, por razões não mencionadas, o Presidente da Assembleia Geral, Artur Pestana “Pepetela”.

Boaventura Cardoso, o PCA, ora empossado, da Academia Angolana de Letras ressaltou no seu discurso que a literatura angolana, 40 anos após a fundação da União dos Escritores Angolanos, como primeira associação cultural após a proclamação da independência, é uma referência incontornável do percurso glorioso da nação angolana. “Com as sua obras, os escritores concebem, reconfiguram e actualizam constantemente a ideia de pátria e nação”, disse e, pouco depois, sublinhou que ”a Literatura nem sempre se conforma com a vida, as vezes, ou se atrasa ou se avança em relação a realidade social, política e histórica em que estamos ancorados.”

Sobre os mais diversos intentos da Academia, Boaventura Cardoso, referiu que: “pretende ser reconhecida como uma autoridade em matéria de estudo e investigação da literatura angola, da língua portuguesa, das línguas nacionais e das disciplinas correlatas, seja como parceira do executivo ou de quaisquer instituições científicas, sempre que for chamada para emitir a sua opinião, ou por iniciativas próprias sobre matérias da sua competência.”

A ministra Carolina Cerqueira, entidade máxima da Cultura angolana, testemunhou a cerimónia e fez parte de momentos de certa relevância, como a atribuição das medalhas aos académicos e o discurso de encerramento, no qual realçou a importância da Academia no contexto social e cultural como representante condigno da intelectualidade.

A constituição da Academia ora criada, citando José Luís Mendonça, no acto da leitura da Proclamação, “vem imortalizar o magistério intelectual dos precursores e fundadores que na sua gloriosa acção lançaram as bases convencionais para designação da literatura angolana e dos estudos sociais angolanos englobando a produção literária oral e escrita, em línguas nacionais e em língua portuguesa.”

De acordo com o que se testemunhou, com a resenha histórica da sua criação, seus estatutos, manifesto, texto de proclamação e tomada de posse, bem como o seu logótipo, fica a evidência de que a Academia Angolana de Letras será uma nova bússola para as letras e identidade social e cultural de angola.