Quando a literatura começou, não sei se alguém sabe, mas, também, que importa? Seremos nós mais felizes quando conhecemos a nossa origem? Não sei, talvez. Pois não me proponho indagar da genesis das coisas a que chamamos Cultura, Literatura, Letras, bem longe disso. Prefiro, pelo menos, para já, questionar o corpo comunicativo da Cultura, da Literatura, enfim, das Letras. Porque um povo é fruto da árvore enraizada em determinada cultura da terra. Há uma genealogia patrimonial que ali se forma, e compete aos Homens compreendê-la. Mas a que Homens? A todos, respondo! E explico. Se entendermos a fonte como nascente, origem, como causa ou princípio – a fonte como a nascente das primeiras águas – de um objecto concreto, compreenderemos que essa causa e esse objecto jamais se podem confundir após a origem, como uma criança se torna ela mesma logo que separada do cordão umbilical da mãe – mãe e filho que antes eram um só, um dentro do outro, um sentindo o mesmo que o outro – para imediatamente ganhar personalidade jurídica (eis um cidadão que nasce!), uma voz própria (ainda que na forma do choro), e, anos volvidos, adquirir um caráter próprio e, décadas depois, a independência, e, ainda, um rumo que só a si dirá respeito.

Mas – e por que não perguntar – será a ruptura identitária um modo de abandono dos pais? Ora, não propriamente. Quero dizer, isso irá depender da vontade individual de cada um, ou da força positiva da formação dos pais sobre o indivíduo dependente. Entre pais e filhos, os laços, ainda que rompidos, ficam para sempre, seja porque se ama ou porque se odeia: a memória da proveniência fica. E não é em vão que penso em proveniência, em vez de progenitores. Pois, que agora cumpre falar das Letras. E as Letras não têm pais, elas têm proveniência.

Qual é, então, a proveniência da literatura angolana? Será ela preponderante na formação do escritor contemporâneo? Numa pátria tão nova, ainda, como é a nossa Angola, que grau de independência intelectual deve o jovem escritor conquistar? Como deve escrever? Inspirado em quê ou em quem? Escrever, afinal, para quem?

A FONTE

A literatura angolana tem a sua fonte na memória (coletiva), lá longe, distante das vistas e compreensões do Homem novo angolano, que, enfim, ainda hoje, se reconhece naquele saber, muito por força da tradição oral, mas também e, direi, sobretudo do seu rebuscamento pela classe política, no período imediato após à independência, em 1975, para servir a consecução do ideal de identidade nacional assente em princípios rácicos e independentistas, como o da africanidade. A fonte da literatura angolana é a voz e a presença do conjunto das gerações nativas (direi mesmo, naturalmente – e por direito – angolanas). De onde viemos parece ser ainda a grande preocupação do escritor nacional, e, quando não encontra ou não há a resposta, então, inventa ou reescreve uma possível história, ao que entramos na esfera da conhecida estória. Um país em formação precisa de um veículo cultural para a manutenção da coesão e da identidade comunitária. No caso angolano, adotou-se o mecanismo da memorização e rememorização. E assim o emocional impôs-se ao intelectual: quem melhor sente os problemas da nação eleva-se ao que pensa os problemas da nação. Resultado próprio, parece-me, da conjuntura político-social que motivou a aspiração do homem africano moderno a edificar nações coesas e identificadas com valores tradicionanis, valendo-se da literatura.

De 1975 para diante, as literaturas africanas de expressão portuguesa tomam o seu próprio rumo, e a nossa não foi indiferente a essa necessidade de mudança. A literatura angolana inaugura o seu 6.º período literário, o da Independência, no qual se assiste a uma tentativa de acerto com as grandes literaturas mundiais, e, pouco tempo depois, “a uma exaltação patriótica e natural apologia política do novo.” Porém, só em 1981, temos uma Renovação (7.º período), num movimento literário iniciado com a Brigada Jovem de Literatura, de apoio estatal, cujo objetivo é formar jovens escritores (Laranjeira, 1995, pp. 33-43)

FORMAÇÃO

É de longe sabido que um bom escritor é necessariamente um bom leitor. E um bom leitor deve, desde cedo, iniciar-se na grande literatura mundial. Porque um livro, no seu contexto, é apenas um manual de reconhecimento. Já um livro fora do seu contexto, se sobreviver, é porque faz a descrição de um universo interessante e útil ao Homem. No tempo de descobrir a literatura, há que ler com critério e orientação, libertar-se da pressão das raízes que prendem o Homem a uma só terra, a uma só cultura, e partir em busca do conhecimento intelectual, universal. Porque vivemos hoje num mundo totalmente diferente daquele que testemunhamos a pouco mais de uma década. Agora, quem escreve em Angola deve fazê-lo para ser lido em qualquer outro país: eis o expoente máximo da partilha. Quero com isto dizer que urge o tempo de condicionarmos a escrita bairrista, popular e de contexto estritamente nacional. É difícil, mas possível. O lugar de onde certa história procede é importante, contudo, não mais do que aquele para onde irá – a formação do leitor.

Na literatura, pode ser interessante sabermos de onde vimos. Mas, para o leitor, é determinante perceber para onde o levamos. Por isso, o escritor deve ser intelectualmente independente, desenvolver o seu próprio estilo, a sua linguagem, a coisa que há dentro de si, e não a tradição que é a voz de um outro tempo. Em suma, a inspiração do escritor não tem que ser mais a origem, mas, antes, o seu próprio sonho, a visão singular e intuitiva do Homem, com muito conhecimento do Homem. Conhecendo o Homem, primeiro, depois será fácil determinar o Angolano. E, ainda assim, não vamos escrever para o angolano. Vamos escrever o angolano, para que o mundo nos reconheça como somos e perceba de onde vimos.

O CAMINHO

Na história dos movimentos literários, é constante a tentativa de se instaurar uma renovação, que nem sempre se concretizou em inovação. De quantos recuos é feita a Literatura? Entre avanços e recuos, uma coisa é certa: todos queremos melhorar a imagem das Letras que nos caracteriza como indivíduos. Sempre quer-se melhorar, excitar o novo, enfim, como na vida, rejuvenescer. Eis então o meu ponto de vista: não precisamos recomeçar a literatura angolana – até porque não tem como; impossível rasurar tão bons contributos que nos chegam do passado, e muitos perserveram com qualidade no presente –, não!, o caminho está em adquirirmos talento suficiente para dar o aspecto de novo a fórmulas do passado. Para tal, há que ler, ler muito e descobrir as múltiplas linguagens que a literatura mundial foi já capaz de produzir, para delas encontrarmos a nossa – aquela com a qual nos identificamos –, e, nessa linguagem, reproduzirmos a imaginação, o facto, o verdadeiro Homem angolano, e a sua cultura intelectual.

Laranjeira, Pires. (1995). Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa.  Lisboa: Caminho.