— Meritíssimo juiz, o dinheiro, o dinheiro, falando a verdade, foi destinado às eleições. Para o partido ganhar o pleito eleitoral.

A sala ficou sossegada como se alguém mostrasse a nudez. Alguns congeminavam ideias de revolta. O juiz levantou o sobrolho, encarou-o, como se dissesse: “Então porque te julgam os teus!?” Naquele instante, divaguei. Fui longe com o pensamento. Já não via no tribunal. Estava em Roma. Numas vestes castigadas pelo pega-dali-pega-daqui da multidão, estava Jesus Cristo, diante de Pôncio Pilatos. Cristo era conhecido por só querer «justiça entre os homens», neste mundo lascado pelo hedonismo; mundo de almas infiéis, onde o egoísmo, fonte de todas as misérias, faz o homem fechar-se em si, e onde o amor apodrece dando lugar a piores males como injustiças, invejas, ódio.

O mal progride com jactância de mãos com o homem enquanto o bem esmorecendo vai só. Detive-me a pensar na absurda escolha: “Cristo ou Barrabás?” Escolhas são difíceis, pensei. Mas talvez esteja enganado. Pois, para o Senhor, atrás de mim, não é bem assim. Ouvi-o murmurar: “Deixem o réu ir em liberdade!” Soou-me ordem e impaciência. Era como se de outro modo tivesse dito: “Parem com esse carnaval que os foliões têm mais que fazer”. Escolheu-se Barrabás no lugar de Cristo. Barrabás iria para casa. Cristo para o suplício. Pensei nos contornos daquela decisão. Meus olhos eclipsaram de um sentimento de nostalgia. Em meio a pergunta de Pilatos “que hei-de fazer, então, de Jesus chamado Cristo?”, pensei em todos os injustiçados. Ao primeiro murmúrio, juntou-se outros. Eram sonhores da elite enfeitados com seus fatos finos e cheirosos. Deu para reconhecer suas faces. Eram todos servidores públicos que vieram prestar solidariedade ao comparsa. Neles, reconheci a multidão eufórica: “Crucifica-o, crucifica-o, crucifica-o!” As vozes se agudizavam na sala que o juiz teve de bater o martelo. A fome, a estiagem, a malária e outros males eram silenciadas na hora do julgamento. Ninguém mais se lembra de quantos percorrem kilometros até à escola. Ninguém se lembra daqueles que nada têm porquê tudo lhes foi negado. Ninguém mais se lembra da viúva que dá até o último centavo para obter algum benefício. Porque sacrificam os pobres?, questionei-me. E não obtive qualquer resposta. Talvez porque não há, além do egoísmo sem pudor.

Como Pilatos, o meretíssimo juiz temia pelo poder. As benesses falavam alto. Por isso, o Juiz, meio comprometido, interrogava o réu com algum receio de retaliação.

— Diz-nos, como conseguiu estas riquezas?

—Honestamente, com sacrifício! Antes mesmo de qualquer função no estado!  Tenho sido bom cidadão que tem a pátria como inspiração. Pago meus impostos ainda que discorde de alguns metódos de cobrança. Aliás quem ama o país não pode importar-se com isso; tenho minhas quotas em dia, no partido; como um humilde cristão, pago meus dízimos, emolumetos, ofertórios especiais e outras contribuições para se erguer o templo do Senhor; tenho sido um verdadeiro defensor das mais elementares virtudes humanas; aos meus estudantes ensino o amor à pátria e a saber interpretar as manobras do imperialismo; ensino-os que connosco a reacção não passará. Nisso é bom frisar que, também, sou um venerável pai de família e fiel esposo. A família é Deus que dá. Não concordo que os homens devam ter relações extra-conjugais. Não sou infiel a minhas escolhas. Digníssimo Juiz, não sou como certos lideres, sobretudo da oposição, que não trabalham e exigem que o estado lhes pague tudo. Eu aprendi a trabalhar desde muito cedo com meu falecido pai.  Não sou vespa ou marimbondo, mas formiga. Sei trabalhar e não canto como as cigarras o fazem. Tudo que tenho foi conquistado com abnegação, suor, lágrimas e sacrifício. Meu pai ensinou-me a ser transparente. E sou de facto. Por isso, venerado Juiz, não roubei nada. Antes pelo contrário, o estado e o partido estão em dívida comigo. É tudo, obrigado! Que a justiça seja feita!

O juiz fez anotações, endereitou os óculos, espreitou no código penal, questionou os presentes:

— Que fez ele de mal?