Dois mil e dezasseis configurou-se também, a par de outras artes, com múltiplas propostas em torno do nosso mercado, partindo de apresentações individuais de artistas estreantes a artistas regressados em público, de nomes já estabelecidos.

A começar, Januário Jano fragmentou-se numa versão 1.0, com 30 obras inéditas, na expressão “kwicks pop”, na galeria do Banco Económico, espaço que, embora ainda tímido em regularizar actividades, assumiu presença no cenário da arte contemporânea. Situado na rua do 1º Congresso do MPLA, é uma intenção do deste “renovado” banco em dedicar-se à cultura e à promoção da arte. Daniela Ribeiro lá esteve em trabalhos com diferentes dimensões, predominantemente, tecnológica; Nelo Teixeira, com restauração urbana, curada pela Sónia Ribeiro. Pela mesma curadora, houve ainda conexões femininas entre Ana Maria Silva, Rita GT e Lola keyezua, com pintura, instalação, fotografia e vídeo.

Olongombe (manada de gado em Umbundu) foi, talvez, dos mais representativos eventos no campo das artes plásticas, não descurando todos os outros que o incansável Centro Cultural Português – Camões nos possibilitou apreciar. Homenageando o poeta e antropólogo Ruy Duarte de Carvalho, estiveram, entre os “gados” consagrados, António Ole, António Gonga, Mário Tendinha, Paulo Amaral e Paulo Kussy, eles que também levaram a exposição para o sul (Namibe, Huila, Benguela). Esta agenda cheia do Camões chamou de volta Francisco Van-Dúnem (Van), 40 anos depois, em “Ícones e Paisagens da Minha Terra”, onde “fez aproximações com outras linguagem construtivas e interpretativas” nas noventas obras inéditas. Outro regressado foi Jorge Gumbe, onze anos depois, revisitando temas recorrentes ligados às tradições e à cultura angolana.

Linu Damião, em homenagem ao grande Viteix; Wilson de Oliveria e Fernando Lucano, em estreia, deram “o ponto de partida”; Erika Jâmece, Grácia Ferreira, Imani da Silva, Leda Baltazar e Patrícia Cardoso reencontraram-se em alusão ao Março Mulher; assim como Álvaro Macieira, Guilherme Mampuya foram nomes que lá cruzaram suas obras.

Desafiador e de estrutura agradável, o Espaço Luanda Arte – ELA, com intuito de democratizar a arte, abriu-se com “Bué Prá Frente” da quinta edição da “Vidrul Fotografia”. JAANGO – ainda ouviremos e leremos mais vezes esse nome na nossa praça artística – é um movimento que engloba vários artistas multidisciplinares, teve passagem por lá. Tivemos um “pop-up” (algo que se abre por pouco tempo) com Kapela Paulo e Binelde hyrcan em “Velhas Histórias, Novos Papeis”. Grácia Ferreira foi com a nguimbi dela e Guizef levou a gente dele neste bebé adulto, Espaço Luanda Arte. Esta galeria, que é antes uma residência artística, ambiciona também colaboração intercontinental entre artistas, tendo participado já na Feira de Arte 1:54 e em outra, em Joanesburgo.

A galeria Tamar Golan tem notável entrega à arte contemporânea nacional, fazendo esse percurso já há 12 anos. Com novas instalações inauguradas no ano passado e com uma das agendas mais preenchidas, inaugurou-se com “Tamar Golan”, exposição com 15 instalações e 27 telas de artistas renomados e que já lá passaram. Expôs em estreia Alekssandre Fortunato (segundo balanço foi a que mais atraiu apreciadores), acolheu o designer, pintor e fotógrafo Thós Simões. Teve ainda de passagem por lá o nome de Niandu Kapela em “Eis o Artista”, Hamilton Francisco Babu com “Frágil”, Cândido Pascola com “Dentes de Leite”, “Um pouco disto… e daquilo” de Ângelo de Carvalho”, Tons e Reflexões” de Patrício Mawete – este transpôs o ano até Janeiro de 2017.

Resenha: Questões críticas da arte contemporânea angolana, em 2016.

A medida que se vai celebrando a pluralidade de propostas e tendências artísticas, técnicas e de expressão, fez-se e continua, mais do que nunca, ser necessário recair em profunda reflexão da situação do nosso mercado de arte.

Sistema de arte – onde anda o Estado?

Reflexão que, por ora, esteja associada a uma resistência por uma intervenção acentuada do Estado, no campo da criação de políticas em que, mesmo não sendo apenas o Estado, estejam envolvidos todos os actores com medidas formalizadas – Intervenção no sistema de ensino e criação.

Na edição passada do TEDxLuanda, o pesquisador Patrício Batsikama, em sua palestra, faz menção do tão sonhado Museu de Arte Moderna, promessa que já faz dez anos desde o discurso do Presidente da República no Terceiro Simpósio da Cultura. A reforçar, esteve António Tomás (Etona), secretário-geral da União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP), em entrevista ao Jornal Cultura, apresentando que, apesar dos esforços prioritários, este Museu é um irmão das dificuldades.

Os números do mercado de arte nacional

Num dossier levado a cabo pela revista Economia&Mercado (nº145), afirmou-se urgente o registo estatístico sobre o mercado de arte nacional. Este registo teria sua efectividade com a intervenção de galerias, associações, instituições tutelares, coleccionadores, artistas e curadores independentes e, senão mesmo, com instituições financeiras ligadas às indústrias culturais ou não.

Ainda neste dossier, segundo Fernando Alvim, com base num circuito de galerias e coleccionadores, o mercado de arte angolano rondava, em 2010, em acerca de 2,5 milhões de dólares, considerando cinquenta artistas com quem tinham contacto e na possibilidade destes venderem obras a preços médios em 3.000 e 5.000 dólares. Porém, citado Nuno Pimentel em entrevista ao Rede Angola, «no pior das hipóteses, o mercado de arte nacional ronda actualmente em 1,5 milhões de dólares».