(Todos os kotas sibém) Ensinem-nos a caminhar, mas não nos ditem o caminho – o lugar onde chegar. O lugar impacta o ser quando se o descobre. O lugar do «ouvir-dizer» é uma construção imagética que pode impactar, mas – comparativamente ao lugar-descoberta – a diferença residirá indubitavelmente no grau de novidade deste. O lugar de um Movimento Literário ou de um escritor é, na verdade, indeterminado: um caminho desconhecido que pode esbarrar em alguma coisa ou dar em nada, podendo – quer aquele quer este – constituírem-se, no plano da historiografia literária, como mera consequência de políticas sociais mal concebidas ao longo de um determinado estágio e, com evoluir do sistema literário, serem afastados, de uma vez por todas, pela ausência de rigor, no âmbito do processo de seleção natural que é inevitável ou simplesmente figurar no espaço de periodização de uma literatura nacional como referência de um «período histórico». Portanto, deixem-nos sentir a sensação de vitória ou de derrota: aquela encher-nos-ia de orgulho; esta considerar-se-ia uma amarga vitória – nunca derrota –, pois ensinaria as futuras gerações a esquivar «as pedras que surgem ou são colocadas no meio do caminho».

(Para todos os kotas malaikes) Por alguma razão nascemos com dois pés e é tudo.

Cobarde da Silva

Tenho de assumir categoricamente que o presente artigo encerra uma dimensão doutrinária, pelo simples facto de ser escrito para uma «Maka» que antecede a apresentação da revista «Tunda Vala». Entretanto, torna-se importante dizer que o «materialismo filosófico» que proclamo como o método mais eficaz para a interpretação dos factos literários possibilitar-me-á apresentar uma abordagem que não extrapole a teoria da literatura.

«Rupturas e continuidades em Literatura» é um tema que nos obriga a confluir a teoria da literatura e a historiografia literária com vista a uma melhor compreensão e explicação dos fenómenos com enredamentos estéticos e socioculturais que se situam gnosiologicamente no capítulo da evolução literária.

A expressão «evolução literária» dá azo a sintagmas como «períodos literários» e «correntes literárias». Cada período literário apresenta a sociedade da época em que se insere, destacando uma visão colectiva e homogénea ou heterogénea dos fenómenos socias, políticos, culturais e conceitos literários.

A Literatura é uma das múltiplas instituições que compõem as sociedades e, portanto, a sua evolução está intimamente associada a diversos factores advindos dos vários segmentos sociais, dentre os quais, podemos destacar os seguintes: o contexto político, tendências literárias, a qualidade do ensino, a situação económica, o avanço das tecnologias, etc.. Como toda literatura, a instituição Literatura Angolana é dinâmica e, desde a sua génese, vem enfrentando vários conflitos dialéticos que naturalmente provocam constantes alterações no seu sistema semiótico. O nosso sistema literário compõe-se de 7 períodos (cf. Laranjeira, 1995) e já vai indubitavelmente no seu oitavo (período) o qual se pode designar por «pôs-4-de-Abril» em razão do alcance da paz que permitiu o surgimento massivo de novos factos culturais e, não menos importante, ainda que timidamente, a sedimentação do processo democrático que, cada vez mais, vai desembocando numa sociedade em que a grande desigualdade que ainda impera tenderá a diminuir.

«Rupturas» e «continuidades», em literatura», são lexemas chaves para se descortinar materialmente o processo de evolução e dinâmica literária de qualquer país. Ontologicamente, torna-se necessário afirmar que todo o processo de ruptura implica geralmente a continuidade de valores estéticos, morais, científicos e sociais apregoados num passado histórico recente ou longínquo, selecionados instintiva ou racionalmente pela geração ou gerações emergentes.

Gerações diferentes podem partilhar períodos, evitando o que se pode designar por «niilismo ou genocídio etário». Porém, devemos admitir que há quase sempre uma clara tendência de as gerações emergentes contestarem sempre os valores estéticos e culturais das gerações passadas ou das gerações que eventualmente detenham o monopólio literário mediante à gestão de instituições públicas que viabilizam a circulação e a publicação dos livros, tais como as editoras, gráficas, imprensa, etc. O que os «mais novos» geralmente fazem – movidos por um inevitável conflito dialético e existencial e por uma filosofia segundo a qual «o modernismo de uma época não tarda a ser considerado arcaísmo no começo das novas tendências» (Macedo, 1986), – é propor uma poética que provoque alterações no sistema semiótico literário e dentro da própria instituição literária, sugerindo outras leituras que podem culminar até mesmo com a reorganização do cânone. Essa prática nasce comummente de conjunturas socioculturais que trazem um novo olhar sobre os factos artístico-culturais pré-estabelecidos. Tal é o caso de Agostinho Neto, tido como o poeta-maior, que, pelo facto de, em muitos casos, não houver separação entre a figura do político e a do poeta e pelo distanciamento dos acontecimentos históricos com implicações políticas entre a anterior e a nova geração, não reúne consenso dentro da comunidade literária.

Os novos autores, afirma Aguiar e Silva (2008, p. 426), «necessitam de conquistar o seu espaço, em competição e confronto com os detentores do poder do campo literário» O conflito periodológico ou entre gerações é existencial; portanto, inevitável e vital para a evolução e dinamismo da própria instituição literária. Aludindo a metáfora do atletismo que é geralmente usada neste âmbito, diga-se não se tratar duma pista em que o mais velho chega e, quando lhe convier, entrega o bastão ao corredor mais novo. O campus literário é uma passarela de rupturas estéticas onde desfilam as épocas. Aqueles que souberem inovar, revolucionando a arte literária nas suas variadas dimensões, irrompem as barreiras temporais.

Ao longo da história universal, sabe-se que, apesar dos radicalismos – normais nesse espaço de construção do pensamento crítico –, tal conflito ocorre sempre por via de debates, manifestos radicais assinados em revistas, livros colectivos e jornais. Para uma melhor elucidação desse fenómeno, eis alguns excertos extraídos de alguns manifestos de diferentes períodos e espaços, nos quais os autores reivindicam, para si, o protagonismo e a autonomia do campus literário:

  • Dispensai os velhos que vos aconselham para o vosso bem e atirai-vos independentes prà sublime brutalidade da vida. Criai a vossa experiência e sereis os maiores (J. De Almeida-Negreiros, «Ultimatum futurista às gerações portuguesas do século XX, 1917»);
  • Porque nunca tivemos gramáticas, nem colecções de velhos vegetaes (…). Contra todos os importadores de consciência enlatada (in Manifesto Antropófago em Revista de Antropofagia);
  • Klaxon não é exclusivista. Apesar disso, jamais publicará inéditos maus e bons escritores já mortos. Klaxon não é futurista. Klaxon é klaxista (…). O Brasil é que deverá se esforçar por compreender Klaxon”. (in Editorial-manifesto 1922).
  • […] a atitude realista, inspirada no positivismo, de São Tomás a Anatole France, parece-me hostil a todo impulso de liberação intelectual e moral. Tenho-lhe horror, por ser feita de mediocridade, ódio e insípida presunção. (Breton, primeiro Manifesto do Surrealismo, op. cit. pg. 36)
  • O que me entedia na França é que todo mundo se parece com Voltaire (Baudelaire, Escritos íntimos, op. cit. pg. 535)

Umberto Eco, numa coletânea de ensaios a respeito da questão da cultura de massas na era tecnológica, abordados numa perspectiva estética, apresenta-nos o título «Apocalípticos e Integrados». O crítico italiano usa esse par explicitamente antagônico para aludir àqueles que lêem o passado por um viés literário, social ou histórico. «Apocalípticos» seriam os críticos que vislumbram o passado com um olhar saudosista, retendo dele a era dourada e perdida. Os «integrados» defendem a leitura moderna do passado, interessa-lhes o momento actual. O autor de «Obra Aberta», sabiamente, evita tomar partido de uma das partes e defende uma atitude intelectual moderada, que saiba fazer dialogar passado e presente. Porém, tal ponderação é uma atitude intelectual que deveria acompanhar acadêmicos e críticos literários, porque a literatura criativa, enquanto um espaço antropológico no qual ocorrem os choques de gerações, é um lugar de arrogância. Arrogância na sua dimensão mais profunda, capaz de ser identificada no mais calmo dos escritores.

Como se sabe, a literatura é um subsistema, um sistema modelizante secundário como diria Lotman (1973). No plano da criação literária, ninguém parte do «grau zero da escrita» (criar uma obra a partir do sistema primário desligada do passado), nada é totalmente novo em literatura.

O passado, ainda que deficiente, é indubitavelmente a base que sustenta o presente. O processo de alfabetização literária passa pelo domínio sistemático das técnicas do passado, logo o passado é tão-somente uma das ferramentas à disposição do presente. Além disso, já alertava Oliveira (1971) que não «há revoluções literárias que rompam cerce com o passado. Olhem para elas, procurem bem, e lá encontrarão certas fontes próximas ou até distantes.» Quem acredita estar a inovar sem ter referências, equivoca-se completamente.

BIBLIOGRAFIAS

Laranjeira, P. (1995). Literaturas Africanas de Expressão, Lisboa: Universidade Aberta
Lotman, I. (1973). La structure du texteartistique. Paris: Gallimard
Macedo, J. (1986). Poéticas na Literatura Angolana. Luanda: INALD
Oliveira, C. (1971). «Originalidade e intertextualidade» in O Aprendiz de Feiticeiro
Silva, V. M. A. (2010). Teoria da Literatura. (8ª ed.). Coimbra: Edições Almedina
Simbad, H. (2017). O Futuro da poesia angolana. in Palvra&arte.
Reis, C. (sd). Conhecimento da Literatura: Introdução Aos Estudos Literários (2ª ed.)