Não é todos os dias que um artista da música, decide fazer a apresentação do seu álbum, CD, antes do mesmo ser disponibilizado ao público. Algo inédito de acontecer, aqui nas terras de Ngola, particularmente no Rap. E essa foi a promessa do  Show VALORES, de MC K, como apresentação ao álbum com o mesmo nome.

Cerca de um par de dias antes, depois de algum reboliço, se o Show haveria de acontecer ou não,  eis que vimos as redes sociais implodirem com a certeza de que o MCK VALORES veria, afinal, o ar da sua graça no palco do Cine Tivoli. O artista do “Sei lá Quê Uaué” levaria, uma vez mais, os seus fãs, adeptos, amigos e companheiros, ao rubro.

Conforme constavam nos diversos anúncios e cartazes espalhados pelas vias, becos e ruas, assim como pelo mundo virtual, o Show estava marcado para as 18h00, entretanto, teve o seu começo, precisamente, uma hora depois, as 19h00. E isso fez surgir a conversa da maior e mais célebre das incoerências nos eventos realizados pelo país adentro: a PONTUALIDADE.

Nalguns eventos, o cartaz, ou anúncio, vai acompanhado, por exemplo, da descrição: “Início do Show às 19h00 e abertura dos portões às 18h00”. Se assim fosse feito, no MCK VALORES, isso mostraria, de certo modo, algum valor, por parte da organização, e o devido respeito para quem viajou quilómetros, desembocando do seu bolso alguns valores, para um momento de descontracção, ou de euforia, para sorrir e não chorar em compensação as malambas da vida.

Sempre que se toca na conversa sobre a “Hora real do início do Show”, muitos organizadores seguram-se na desculpa de que a maioria das pessoas tende a chegar tarde, cerca de uma hora depois da hora marcada para início do Show, e não dá muito jeito começar com cadeiras vazias. Uma sugestão, para tal, seria colarem no cartaz: “Encerramento das Portas as 19h30, como reforço da descrição acima, referente ao começo do evento. Aí veriam se as cadeiras lotariam, ou não, à horas.

O D.J. do evento, Pelé, foi em várias ocasiões o homem do Show, do começo ao fim, com selecções, misturas e ‘scratchs’, que, certamente, levantaram os ânimos dos presentes e, também, dos transeuntes. Porém, favoreceu algumas incoerências ao evento, uma em particular, bem no começo do Show, garantiu-lhe apupos e reclamações, por abandonar a mesa de som e ter deixado um excerto publicitário, em modo de repetição, quando já havia sido chamado o artista que abriria o evento, que acabou vivendo um certo embaraço com a situação.

António Paciência, o único representante do Spoken Word no evento, foi o primeiro artista em palco. E como se estivesse num palco de completos estranhos de si e da arte que representa, apresentou-se e questionou, logo de seguida, ao público se sabe o que é “Spoken Word”, para que, mais do que definir, haveria de mostrar. E fê-lo da forma que bem conhece.

Vale lembrar, que, o MCK VALORES, era um evento de Rap e o Spoken Word, na sua essência, tem proveniências do Hip-Hop e, como tal, sempre andou, de algum modo, de mãos dadas com o Rap, isso desde os primórdios do seu nascimento. Portanto, sugerir que o público, em geral, era desconhecedor do assunto, soou como estar num Show de Kuduro, em pleno 2018, e achar que o público nunca ouviu falar de Afro-House.

Ao artista do Spoken Word, seguiu-se a primeira interpretação de Rap, Kevin Kuller, a primeira voz feminina do evento, com uma performance apreciável, mas que não será lembrada como tal, devido ao traje com que se apresentou, que, impreterivelmente, revolveu toneladas das testosteronas presentes, mas, porque contrastava com o cartaz do evento, VALORES, viu-se vaiada, pelo facto de ter as nádegas à mostra.

Todas as performances que se seguiram, apesar dos “apagões” dos microfones, elevaram o Show a apoteose de um momento no qual o Rap Consciente foi digno de ovação, com as mensagens contra as incoerências sociais, políticas e culturais a soltarem a voz e a chegarem aos quatro cantos da sala e, quiçá, do cérebro. Dr. Romeu, Mona Dya Kidi e o enigmático poeta, Phay Grande, fizeram da noite um espectáculo com vários clímax atingidos.

Entretanto, o momento mais singelo, e o maior em termos de carga emocional, pertenceu, certamente, indubitavelmente e de forma claramente convincente, à Khris MC, que com sample da música “Choros de Oliveira”, trouxe uma música que representa as várias dores que se agregam ao coração. Uma belíssima música, sobre momentos da vida que causam marcas irrepressíveis.

A ausência de Kid MC, por motivos de saúde, foi justificada pelo anfitrião do evento, Kool Klever, que ao longo das suas aparições, sublinhou, repetidas vezes, a base do evento, inédita para Angola no quesito Rap: apresentação, em primeira mão, das músicas do Álbum VALORES. E foi quem chamou ao palco, aquele que era então a cabeça do cartaz do evento.

MC K, mais que esperado, tomou o palco introduzido pelo Hino Nacional, sublinhando no final a revolução que diz o Hino e, logo, retomando aos tempos de ensino primário, relembrou o que era ensinado e, inclusive, vinha estampado na contracapa dos livros: ESTUDAR É UM DEVER REVOLUCIONÁRIO. Tudo isso como uma retórica para reafirmar que o próprio sistema que ensinou a revolução, agora a teme.

Vários números foram apresentados. MC K fez um roteiro pelos seus álbuns, com as músicas mais difundidas e, uma vez mais, esqueceu-se nalguns momentos da letras das músicas tendo sido salvo pelo seu suporte vocal, onde se encontrava, também, o D.J. Pelé. A noite não terminou sem referências ao Sherokee e ao Rufino, duas vítimas do sistema que, dentre outras, turbinam a inspiração do artista.

A maior e mais inaceitável incoerência no Show foi, contra todas as previsões, o incumprimento do prometido: Apresentação Oficial do Álbum, dos temas, das músicas, que, como dito pelo anfitrião da noite, Kool Klever, serviriam como uma espécie de barómetro para a compra, ou não, do CD.

Em toda a performance do MC K, não se ouviu mais que duas músicas, se tanto, completamente inéditas, caso que, para muitos presentes, fez ao artista e à ideia inicial do evento perder muito dos prometidos VALORES, que haviam sido propagados, bem como fez adiar a expectativa do que trará o referido álbum.