Não são todos os dias que temos a oportunidade de conhecer pessoas mais velhas – e digo no sentido de serem pessoas idosas mesmo –, e mais do que conhecer, é poder falar com elas, trocar ideias e “beber” da experiência delas. Actualmente, isso é ainda mais difícil! Mas como a Literatura ainda é a Literatura, há sempre, dentro dela, oportunidades de revertermos situações como estas, e é assim que vos apresento o patriarca Bento Mayamona, um dos personagens centrais do livro “Silêncio na Aldeia” do escritor angolano Luís Fernando. E mais do que vo-lo apresentar, convido-vos, desde já, por meio da leitura do livro, a descobrirem como pode ser interessante aprender e ver o mundo pelos olhos de alguém que, talvez, tenha vivido eternidades.

O patriarca e as demais personagens que se cruzam com ele na aldeia em que acontecem grandes partes da história levam-nos a conhecer aspectos regionais e culturais interessantes de serem descobertos, sem se precisar sair do lugar em que estamos. E apesar de todo carácter regional com que nos deparamos por um lado, por outro, deparamo-nos com uma narrativa que nos apresenta riquezas colectivas. Tais riquezas apresentam-se-nos por meio dos produtos agrícolas da terra, dos modos de celebrar determinados eventos culturais, de todo o potencial natural que temos enquanto país e de tudo que irão descobrir quando forem ler o livro.

Página a página e pelas falas do nosso patriarca, poder-se-á conhecer um pouco de vários passados, um pouco do que nós, as novas gerações, não vivemos e não conhecemos. Numa narrativa em que até os nomes dos capítulos são portadores de segredos ligados ao que acontece na terra, revelar-se-ão ciclos naturais para quem se propor a embarcar na leitura.

Também quebram-se padrões em “Silêncio na Aldeia” e fazem-se roturas! Roturas no tempo, na vida, nas nossas sociedades e na forma como as construímos; roturas lentas que, às vezes, nos levam a caminhos como o da globalização e, consequentemente, ao silêncio de muita coisa à nossa volta. Encontrar-nos-emos ainda, a medida de cada página, a pensar em como os vários tecidos que compõem o nosso país se podem interligar, mesmo que seja só pelas lembranças que teremos de um funge à moda do norte ou do sul, quer estejamos num destes polos ou não, daquela banana ou mandioca ou batata cozida acompanhada de ingredientes diferentes em cada região do nosso país.

Por fim, Pensemos também, enquanto novas gerações, em algo que muitos de nós olha de forma pejorativa: ter nascido no campo não torna pessoa alguma menos pessoa que outra! Lembremo-nos dos nossos pais, tios e avós. Que, durante a leitura, vejamos esta questão com outros olhos, com os olhos das personagens, com os momentos da história e com as várias perspectivas que se nos vão apresentar. “Silêncio na Aldeia” é também o reflexo de como várias transformações vêm com o tempo, aos bocados, e como qualquer dia pode ser sempre o dia em que nós já não somos os mesmos ou as pessoas à nossa volta, ou os nossos modos de vida, e tudo pode ficar em silêncio!