«Bola y lyela: y walanga kó
[Bacia e esperteza: nunca ficam cheias]»
(Provérbio Bakongu)

«Amor omnia vincit [O amor vence tudo]»
(Máxima latina)

«Depois de algum tempo,
Você aprenda que o tempo não
É algo que volta atrás.
Portanto, plante você mesmo o seu jardim,
Ao invés de esperar eternamente
Que alguém lhe traga flores.»
(Shakespeare)

 

Durante estes meus anos de aprendiz de contista, ensaísta e, na menor das vezes, cronista e poeta, tenho me deparado com, rebuscando a classificação do Kaz Mufuma, poetas, pu(e)tas e punhetas e aprendi que, por cá, nas terras dos tios Neto e Eduardo, enrolandome nas palavras do kota Tala, nunca a competência foi primordial; que o ordinário despacha a sua mercadoria verbal como se expelisse palavras que o afogam; que a esperteza, nesta vida, vale mais do que a idade e o corpo; que se vive uma vida em cada estação, apenas uma; que as coisas hoje mudaram e vivemos todos de urgências. Até mesmo os sonhos podem minar as nossas vidas, e muitas coisas não são o que parecem. Um ovo pode até ser uma bomba, e que eu também conheço águas que vêm de mim como o sangue que tenho nas veias.

No corrente mês, com júbilo, li o mestre Lopito Feijóo na jocosa revista Palavra&Arte. A tipologia do texto ainda é duvidosa por mim. Tentando acabar com o formigueiro que jazia no meu cerebelo, pronto, decidi mesmo tratar o seu texto por crónica (por cá, também, já não se faz um cronista como o saudoso camarada Ernesto Lara Filho, o homem das «Crónicas da Roda Gigante»). No seu texto, de entre alguns assuntos, Lopito aborda sobre a sua musa, a questão da insónia e dos frequentes cortes de energia que a famosa EDEL tem realizado (também se não realizasse os ditos cortes no fornecimento de energia eléctrica, a EDEL não seria filha da ENDE, que, demais, faz lembrar o «end» do inglês, que, traduzido para a língua de Camões, darmeia um significado de «fim»). Porém, deixando de lado a forma como o Andarilho andou no texto, mostrando pujança na arte de namorar palavras, chamoume atenção a conclusão da sua crónica sem e com assunto para jovens poetas (como ele mesmo disse, dentro do texto, que «ao arriscar a tocar nesse assunto [da Crónica sem assunto], corria o risco de ser considerado como tal, um circunstancial autor de texto sem assunto») e as citações que serviram de base para fortalecer a conclusão que teve: de que a melhor idade em que um jovem poeta deve publicar uma obra é, no mínimo, a dos 30 anos.

Começo por dizer que, por cá, muita boa gente dita intelectual, literata faz confusão entre a idade cronológica e a “idade literária” (se ainda não for utilizada, é expressão proposta por mim), aquela que começa desde que o pacato indivíduo dá por conta de que tenha vocação para escrever, ser poeta ou prosador. E reitero que a crónica, afirmava o mestre Manuel Rui, na sua «Crónica sobre a crónica», não é para tal de citações.

Ora, quando vamos citar alguns trechos ou textos para fortalecer a nossa opinião, como fez o Poeta doutrinário, Lopito, é bom que tenhamos em conta o contexto, como dizia Job Sipitli em “Raízes Cantam”: «os textos dominam consciências insulares nas palavras sem lares. Vive-se no contexto dos textos sem pretextos.» Enfim, ao se decidir citar algo, para boa comunicação, é necessário “viver o contexto.”

As palavras que abaixo direi não devem ser lidas, devem, ad litteram, ser ouvidas:

  1. «A Carta de Virginia Woolf» e as «Cartas a Um Jovem Poeta», assinadas pelo tal Maria Rilke que, nascido em Praga, então capital da Boémia integrada no Estado dos Habsburgos, em vida atendia pelo simples nome de Rainer, hoje por hoje, abro bem a minha glote para gritar isso, estão, até certo ponto, DESACTUALIZADAS, pois que, hodiernamente, em Angola, é mais fácil encontrar jovens com cucas a saírem fumo nas mãos do que jovens com desígnios de ser escritor/poeta. Por outra, os actuais pacatos jovens que se dizem poetas já sabem que só se chega a bom poeta conhecendo a língua na qual se quer escrever, lendo os vates da literatura angolana e do resto do mundo, praticando a escrita e, acima de tudo, lendo, lendo, lendo e lendo durante 24/26 horas por dia, conhecendo a história e sendo enciclopédico.
  2. A conclusão do «Texto Obrigatório, sem & com Assunto, para jovens poetas» pode ser vista de dois ângulos: Primeiro, num ÂNGULO HIPERBÓLICO, em que, no mínimo, os 30 anos propostos para que um jovem poeta publique devem ser entendidos como a perseverança ou a cautela que o jovem poeta deverá ter antes de ter (redonda ânsia!) a pretensão de publicar uma obra literária. E, segundo, num ÂNGULO NÃO SADIO, no qual os 30 anos, no mínimo, propostos para que um jovem poeta publique são percebidos como uma sugestão de quem não quer ver novos valores – poetas – surgirem na instituição Literatura Angolana, trazendo, à tona, a idosa tradição de que o poder e todas as outras benesses, em África, são apenas para os anciãos, os que já viveram bastante e estão quase a morrer, de morte matada ou de morte morrida.

São três horas da matina e 40 minutos, sentado numa cadeira de plástico, junto do objecto que, no meu santuário-quarto, faz o papel de escrivaninha, muito diferente da escrivaninha do poeta doutrinário e/ou daquela escrivaninha do poeta Pessoa que o famoso pessoano João Paulo Cavalcanti Filho, em comunhão com a Royale máquina de escrever do senhor Fernando, arrematou por uns míseros 90 e tal mil euros, num leilão em Lisboa. Os meus olhos já estão pesados, clamam por sono. Destarte, não termino por aqui, todavia, se o que Lopito Feijóo queria dizer é o segundo ângulo de interpretação que proponho neste analecto, fica claro que, com todas as condições criadas para a publicação da obra de um jovem poeta – entre os 20 aos 29 anos –, só aceitarão seguir a sua conclusão e/ou sugestão aqueles que são esponjas, que escutam e concordam com tudo que os vates expressam e, sem que, depois de escutarem ou lerem as palavras dos vates, consigam fazer um juízo de valor, dizem uníssonos: “Magister dixit! (o mestre disse, orientou!)”

Outrossim, se, na alçada de Sartre e Nisa, se aprende a escrever escrevendo, aconselho os jovens poetas, ao contrário do mestre Lopito e da lírica prosadora fascinada por versos que foi Virginia Woolf, a publicarem as suas obras mesmo antes dos 30 anos desde que procurem, em cada obra, melhorar a qualidade, ou seja, que corrijam o que está mal e melhorem o que está bem nas suas poéticas, pois, refazendo as palavras do velho Xitu, com o tempo, saberão se o que escreveram e publicaram, na mocidade, tinha muita ou pouca pujança.

Desculpemme, mas já não dá mesmo para continuar a escrever, são quatro horas da matina. O colchão chama por mim, e, de tanto peso, daqui a pouco, os meus olhos fechar-se-ão. Portanto, depois das insónias, cheio de sono, em bom latim, sabulo (lêse canto):

Ave!
Res, non verba.
Si vis pacem, para bellum.
Errare humanum est.
Errarando corrigitur error

(Saúde! Deus te salve!
Obra, não palavras
Se quiseres paz, prepare a guerra
Errar é humano, não há ser perfeito
Errando se corrige o erro)