Os dias que seguem o curso do rio-tempo ou do tempo-rio revelam-nos quão aborrecida, volátil, vazia e frágil é a vida. Confinado dentro das quatro paredes a que o génio criativo – ser humano – decidiu, unilateralmente, chamar de casa, questiono-me: será que é desta que hei-de conhecer a mulher que, durante todos esses anos, partilha comigo o mesmo espaço exíguo? Na qualidade de maioral (falso maioral), pensei que teria o controlo de tudo, até da minha própria sombra, mas o que deveria evitar não evitei, sou responsável pelo desequilíbrio do sistema que faz eco; as grandezas maníacas de ser o topo da cadeia alimentar levaram-me para descaminhos ou caminhos ínvios. Mais uma vez reitero, não pude evitar, mas não gostaria que fosse desta forma grotesca e implacável que teria de conhecer, de cor, os meus filhos, nome, idade, peso, escolaridade, comportamento, seus medos e seus anseios.


De que vale o status quo que granjeio se não me conheço a mim mesmo nem a sociedade que forjo através dos laços de família?  Tudo o que vislumbro à minha volta aborrece-me, não encontro prazer nos novos condicionalismos sociais, na nova configuração de estar, de agir e, quiçá, de ser. Excepcionais medidas ou medidas excepcionais, soberanas emergências, esses jargões político-jurídicos que se me impõem têm mostrado que tenho liberdade e controlo absoluto sobre o nada. Ao fim e ao cabo, a liberdade é um álcool em gel ou etílico, que morre na palma da mão em cada fricção.


Não auguro bons ventos! Em casa disputo o controlo remoto contra a prole, os desenhos parecem-me desanimados, e toda essa linguagem televisionada é um universo paralelo e estranho para mim. Para certas mundivivências, mundievidências e contextos, somos analfabetos.


Não somos adultos a todo o momento. As crianças, esses seres angelicais, gerem melhor as emoções e estão se marimbando para o imundo mundo dos possíveis adultos. Uma catadupa de sentimentos mistos e confusos esventram-me a alma.
Dou um trago numa cerveja, dou umas boas baforadas num cigarro até vê-lo a se transformar em beatas, mas nem com isso consigo adiar ou dar um tiro certeiro na cabeça do tédio.

Quem Ludo pensa que é? Essa sofista de primeiro grau quer vender-me, a todo o custo, o seu manual de instruções de isolamento, a que decidiu chamar de Teoria Geral do Esquecimento, a mando dum(a)tal Água que sabe à lusa, que instrui para me emparedar, para não sair de casa, porque os tempos de hoje são apocalípticos e de reclusão obrigatória. Não me quero isolar, quero, antes, porém, evadir-me de casa ou, no mínimo, abrir um enorme buraco negro para entrever se lá fora o mundo continua a ser mundo.  É nessa hora que se alcança a inutilidade plena da vida, esse balão insuflável que se perde no ar por mínima precipitação.


E qual é a solução? Matar o palhaço que há em mim e fazer (re)surgir o rei. Mas o rei, ao fim e ao cabo, transfigura-se, também, em palhaço. Atire a primeira pedra quem nunca execrou a vida. Amaldiçoar ou filhadaputar a vida é o que faz qualquer mero mortal longe dos dogmas e fingimentos, e numa situação de pressão e incertezas, pior ainda. Se a imunidade do meu status quo fosse sanitária, essas horas o mundo estaria confinado na minha mala de viagem.