Se se torna conveniente falar duma «tradução possível», reconhecendo, de imediato, as possibilidades e impossibilidades inerentes a este processo, toda a tradução literária não passaria de reelaboração ou transcrição artístico-linguística de determinado material textual escrito numa língua A para outra língua B. Todo o processo de reelaboração implica uma certa recriação. O que os poetas, prosadores e dramaturgos produzem – no âmbito da intertextualidade, categoria implícita dos textos literários – não passa de recriação. A obra literária é um facto cultural decorrente dum processo de recriação. Assim sendo, a tradução literária é, em certo sentido, sinónima de criação literária.

Vários teóricos da tradução e especialistas em literatura comparada evidenciam a natureza criativa da tradução literária. Para Britto (2012, p.11), a tradução literária é um acto de «recriar obras literárias em outros idiomas». Frota (2000, p.16) acrescenta dizendo que «o papel da tradução é – e tem sido sempre – o de criar, de produzir significados».

Toda a tradução literária, alerta Carvalhal (1993, p.47), «é um acto criativo (…), uma prática de produção textual, paralela à própria criação literária». No entanto, admite haver distinções entre ambas as práticas, afirmando serem estas «actividades paralelas que correm em sentido inverso». Carvalhal (1993, p.47), referindo-se à criação literária, diz que «a criação livre não delimita o seu início» ao passo que toda a tradução tem sempre um princípio: o texto de partida.

A distinção, acima apresentada, entre tradução literária e criação literária carece de rigor e de mais argumentos. Se atendermos às considerações de Kristeva (1974, p.13), segundo as quais «todo o texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de outro texto», não haverá um «texto primeiro». Carvalhal (1993) ignora um princípio recorrente nos textos literários: a intertextualidade – definida por Silva (2010,625) como «a interacção semiótica de um texto com outro (s) texto (s)». O texto literário insere-se num plano dialogista com vários textos, entendendo-se «texto» como um discurso oral ou escrito.

Voltando à questão da tradução literária como um acto criativo, nota-se que Daniel Hahn facturou um montante equivalente a 25 mil euros pela tradução da obra «Teoria Geral do Esquecimento» (General Theory of Oblivion) do escritor angolano José Eduardo Agualusa, vencedor do International Dublin Literary Award 2017, demostrando a importância do tradutor para sucesso da obra inserida num novo contexto sociocultural, aliás, pensando como Benjamin (2001, p.193), «é a tradução que, ao renovar a vida do original, torna-se responsável pela fama da obra e não o inverso».

Bibliografia

  • Benjamin, W. (2001). A tarefa do tradutor. (F. Camacho trad.). Humboldt, Munique, F. Bruckmann.
  • Britto, P. H. (2012). A tradução literária. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
  • Carvalhal, T. Fr. (1993). A tradução literária. Em Organon. (v.7): Porto Alegre.
  • Frota, M. P. (2000). A singularidade na escrita tradutora. Campinas: Pontes.
  • Kristeva, J. (1974). Introdução à semanálise. ( H. F. Ferraz, Trad.). São Paulo: Perspectiva.
  • Silva, V. M. A. (2010). Teoria da Literatura. (8ª ed.). Coimbra: Almedina.