Como descrever Agualusa, o renomado escritor que vem conquistado o mundo através da sua escrita e forte personalidade? Com as suas próprias palavras, o autor descreve-se: “quem sou não ocupa muitas palavras, angolano em viagem, quase sem raça. Gosto do mar, de um céu em fogo ao fim da tarde. Nasci nas terras altas. Quero morrer em Benguela, como alternativa pode ser Olinda, no nordeste do Brasil”. A sua ascensão literária dá-se em 1988 no consagrado prémio literário Sonangol, na categoria Revelação, com o romance A Conjura, e, desde então, vem se destacando escrevendo: contos, crónicas, letras de canções, peças de teatro, livros infantis, documentários e romances e conquistando diversos prémios internacionais.

A escrita de Agualusa incomoda. Para o autor uma boa obra deve incomodar e confessa: “escrever diverte-me, e escrevo também, porque quero saber como termina o poema, o conto ou o romance. E ainda porque a escrita transforma o mundo. Ninguém acredita nisto e, no entanto, é a verdade”. É para muitos um mestre na mistura de géneros pela sua escrita versátil, mistura com frequência elementos de realismo mágico e sátira política. Toda a sua obra é um mar de identidades que atravessa a realidade de Angola. À medida que a lemos e conhecemos o autor, percebemos e fica-nos evidente que, além de qualquer viagem literária que o mesmo nos proporciona, é, na verdade, uma tentativa (in)consciente de decifrar o passado, o presente e o futuro de Angola.

Dentre as várias obras do autor, destacamos as seguintes:

O VENDEDOR DE PASSADOS (2004)

A obra parte da primícia de que todos precisamos de um passado para entender o nosso presente e o nosso futuro. É a partir deste cartão-de-visita que uma Osga, sim isso mesmo, uma Osga que, outrora, já foi homem e convive com Félix Ventura, narra os capítulos deste romance. Félix Ventura é um expert em criar novos passados para os abastados ricos que vão surgindo todos os dias em Angola. Em O vendedor de Passados, a verdade e a mentira coexistem de forma magistral, as tramas e subtramas que envolvem a obra fazem-nos percorrer cada página deste livro em busca de novos desfechos ou, quem sabe, de novos passados.

Obra Vencedora do Prémio  Independente – Ficção Estrangeira e adaptada para cinema (Brasil – 2016) com participação de Lázaro Ramos e Aline Morais

AS MULHERES DO MEU PAI (2007)

A propósito da tradução inglesa desta obra, Jennie Erdal, colunista do jornal The Guardian, destacou o seguinte:

“Mais do que um toque de realismo mágico temos aqui uma combinação do trivial com o fantástico: uma combinação do vulgar com o fantástico e um apagamento das convencionais distinções entre tragédia e comédia, uma obscura distinção entre o mágico e o cómico, com personagens apanhadas nas armadilhas do passado que continuam, contra a evidência dos factos, a acalentar a esperança de uma vida melhor sem abrirem mão da “capacidade de rir de própria desgraça”.
Na África de Agualusa, a vida real é assim mesmo. E, no entanto, ler este livro é como entrar num sonho alheio. A realidade é feita de uma parte de metafísica e três partes de milagre, com uma hábil mistura de factos, reportagem, política, poesia e confissão pessoal, para não mencionar as doses generosas de criatividade em
estado puro – tudo isto embalado em capítulos que são episódios curtos e em prosa cheia de ritmo e musicalidade”.

BARROCO TROPICAL (2009)

É um misto de ficção e realismo. Nela o autor nos transporta para uma Luanda turística dos anos 2020 e apresenta-nos um leque de personagens que, consciente ou inconscientemente e, quiçá, propositadamente, tendem a confundir-nos os limites existentes entre a realidade e a ficção. A par do enredo, a verosimilhança da trama com a realidade constituem um dos pontos fortes da narrativa, como é o caso de Bartolomeu Falcato, que é quase que uma personificação do autor: romancista de sucesso, prendado com uma bolsa de criação em Berlim (onde, curiosamente, Agualusa escreveu “O ano em que Zumbi tomou o Rio”).
Algumas particularidades no livro ressaltam o medo. O medo de como as ditaduras se imperam sobre as pessoas, sobre a forma como o medo transtorna as pessoas. A narrativa e o enredo deste romance permitem o leitor deliciar-se das representações burlescas que as personagens fazem das altas figuras da sociedade e, ao mesmo tempo, da crueza de vida dos menos abastados.

TEORIA GERAL DO ESQUECIMENTO (2012)

Trata-se de um romance que narra a história de uma mulher portuguesa que vai para Luanda contra a sua vontade e, na véspera da independência, 1975, acaba por ficar isolada durante trinta anos, confinada no apartamento de um edifício até ser resgatada por um menino de rua. Os acontecimentos que antecedem a independência em Angola fazem com que muitas pessoas abandonem o país às pressas, principalmente os estrangeiros. Ludovica Fernandes Mano é apanhada em meio a essa algazarra que toma a cidade capital. Tomada pelo medo, acaba por confinar-se como uma náufraga em seu apartamento, construindo uma parede que a isola do resto do mundo.

Obra finalista do Prémio Internacional Man Booker 2016 e vencedora do Prémio Internacional de Literatura de Dublin 2017

A SOCIEDADE DOS SONHADORES INVOLUNTÁRIOS (2017)

Mais do que tudo a obra é um manifesto contra a ditadura. Ambientada num contexto sociopolítico conturbado, um grupo de personagens distintas interligam-se e exprimem, através de sonhos, os seus desejos na luta contra a ditadura que impera em Angola.
Neste romance, mais uma vez, Agualusa faz uso dos recursos mágicos e fantásticos para absorver realidade e construir uma narrativa forte com personagens cujas semelhanças nos remetem a um passado recente vivido pelos activistas angolanos do caso os 15+2 (quinze mais dois).
A par de toda a conjuntura que constitui a obra, são visíveis as múltiplas reflexões e utopias que a mesma é capaz de evocar, tornando a leitura agradável e fluída para qualquer leitor.

SOBRE O AUTOR

José Eduardo Agualusa, nasceu em Angola, na província do Huambo, em 1960. É jornalista, escritor e membro da União dos Escritores Angolanos.  Estudou agronomia e silvicultura em Lisboa, Portugal e as suas obras estão traduzidas em 25 idiomas.
Beneficiou de três bolsas de criação literária: a primeira, concedida pelo Centro Nacional de Cultura em 1997 para escrever Nação crioula, a segunda em 2000, concedida pela Fundação Oriente, lhe permitiu visitar Goa durante 3 meses e na sequência da qual escreveu Um estranho em Goa; e a terceira em 2001, concedida pela instituição alemã Deutscher Akademischer Austauschdienst. Graças a esta bolsa viveu um ano em Berlim, e foi lá que escreveu O Ano em que Zumbi Tomou o Rio.
No início de 2009 a convite da Fundação Holandesa para a Literatura, passou dois meses em Amsterdam na Residência para Escritores, onde acabou de escrever Barroco tropical.
 O seu primeiro romance, A Conjura, recebeu o Prémio de Revelação Sonangol. Com Nação Crioula foi distinguido com o Grande Prémio Literário RTP. Fronteiras Perdidas obteve o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco da Associação Portuguesa de Escritores, enquanto Estranhões e Bizarrocos obteve o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens, em 2002. 
Em 2007 recebeu o prestigioso “Prémio Independente de Ficção Estrangeira”, promovido pelo diário britânico The Independent em colaboração com o Conselho das Artes do Reino Unido, pelo livro O Vendedor de Passados. Foi o primeiro escritor africano a receber tal distinção.
Em 2017, ganhou o Prémio Literário Internacional IMPAC de Dublin pela obra Teoria Geral do Esquecimento.