Eis que me ocorre toda a metafísica sempre que os intestinos me forçam a sujeitar-me aos desígnios da pia (sanita). Uma espécie de metaquímica se processando secreta mente: dor, prazer, sangue coagulado, fatal amor, porque insistimos. A pátria acontece-me nesse instante de divina consagração. Cagar é a forma mais rápida de alcançar o reino de deusdiabo a partir de Angola. Instante filosófico. Um violento processo psíquico. Fecho os olhos e elevo-me à altura de qualquer profana acção. Por baixo, desce o que tem de descer; por cima, é a pátria nua e crua que se me abre trans parente.

E vejo, não muito distante daqui, porque é aqui, onde uma equipa de futebol aceitara participar duma competição fútil bolística, ‘‘assumidamente irregular’’ – assim acreditavam. Os dirigentes do clube reclamavam mais que o Tomás Faria e o Bruno de Carvalho, mais que o Zeca Amaral e o Jorge Jesus, antes mesmo de o campeonato começar. Tudo começara de forma desigual. Sabiam, à partida, que estavam para defrontar o quase invencível ‘‘Barcelona’’ e entraram nessa luta de anões e gigantes: La Liga contra Gira Bola pode?! Talvez tivessem pensado em David, o derrubador de gigantes – não tão anacrónico como um exército de índios com armas ancestrais a derrubar a Rússia, a China, a Alemanha e a Coreia do Norte ou os Estados Unidos da América, a França, Inglaterra, e a Coreia do Sul. Não tão, como uma equipa paraolímpica a levar de vencida a selecção nacional de futebol?!
Antes da consumação do previsível, aconteceram eventos surreais. Angola acontecia-me prolepse. Era um vídeo avançando rápido ou um autocarro deixando para trás a mil quilómetros por segundo o matagal numa auto-estrada que não temos. A pátria corria depressa e eu espremi-a com sacrificada alma. Eu vi o impossível a ser erguido pelo amanhecer.

Sempre acreditei em ovnis. Sempre soube que o mundo é governado a partir de cima. Não falo dos Estados Unidos nem da Rússia ou, eventualmente, da China. A primeira vez que vi uma nave espacial foi no período eleito oral. Como tenho de evitar o engarrafamento, tive de sair de casa às 4 da manhã. Por sorte, um demónio deu-me boleia em sua vassoura de ferro velho. Com aquele Toyota com mais idade que o deus em ‘‘su posto’’ repouso (su posto: deve ser espanhol – não estou mbora a insinuar nada!), seguia mortalmente pisando o asfalto com um ímpeto de embondeiro caído e, às 4:30, caía sobre a minha cabeça no mercado. A noite ainda era aquela manhã – madrugada fenomenal: o desvanecer de Deus. Eis que de longe vi nascer uma luz e um som que me chamava. Era o som da nave. Pronto! Afinal, Deus não existe mesmo! Apenas alguns santos, anjos e o demónio que me trouxe até aqui. O som da nave soava como que um encanto de kianda. Aproximava-me da luz a passos lentos. Faltando dois metros, a nave revelou-se-me uma enorme máquina guiada a motor, utilizada na construção de arranha-céus. Empurrei o tempo para era colonial e vi escravos a trabalharem com patriotismo. Eram chineses e angolanos puxando pela pátria. Havia apenas betão armado; quando regressei do serviço de escravo, havia um enorme viaduto que deveria ser ‘‘o maior de África’’. Tudo o que se faz por aqui é o maior de África: inacabados estádios de futebol, hospitais com fissuras, aeroportos, filhos e blá blá blá. No dia seguinte, passei pelo viaduto – ‘‘o maior de África’’ –, não havia mais nada. Voltei das minas da edução e encontrei enormes jardins e ornados viadutos históricos sobre estradas pretas e não esburacadas. ‘‘Porras…! Se fosse sempre assim?!’’

Mas não foi só isso! Essa foi, seguramente, as eleições mais divertidas de sempre. Um ponto para o Guiness! Prometeram-nos Dubai e Califórnia e, pior ainda: prometeram-nos extinguir a corrupção e o nepotismo, e o facilitismo, e o cabritismo, e o partidarismo; prometeram-nos empregos para todos, diamantes para todos e vida eterna.

Porém, todo este surrealismo convertera-se em realismo utópico quando vi o bravo Mandúmem Alves, cheio de moral e com históricas glórias de batalhas vencidas, a espancar Kimpa Vita. Confesso estar entre os 10 contentes, mas a corda da minha esperança não está atada à prima Vera. Confesso estar entre os incrédulos. Não boto o futuro em mãos humanas. A solução será o acaso.