Talvez tenha sido o sexto cálice de canhome ou as remontas discussões de bastidores, e não de comités de literatura, que suscitou, em nossa embriaguez, tais cogitações. A princípio, é óbvio que nem toda obra premiada é grande, de igual modo nem tudo que se propaga ou que se chama literatura é literário. Outrossim, diante das indefinições, convidaríamos os linguistas ou lexicógrafos para que substantivem ou adjectivem os escritos que nem literatura ou literário o é. Daí o cartão vermelho à grotesca barbaridade genérica de que tudo que se escreve é literário.

Um atentado ao progresso da nossa literatura é como se quiséssemos levar o mar aos nossos aposentos. Dizia Dias (2011, p. 18) que “não se repreende de leve num povo o que geralmente agrada a todos”. Julgamos que “todos” refere-se à maioria. Reforçamos, sem intenções maléficas, que não se convive de forma gentil com o crescimento exposicional da mediocridade. Daí a preocupação em sabermos, quais os critérios para se ditar que este ou aquele poeta é o melhor do ano. Se for pelas aparições, conversas de bar num ponto ínfimo do cabelo brasileiro, pelas vendas ou opiniões cor-de-rosa, então precisamos, radicalmente, contrapor a ideia morbidíssima de que o que é literário seja definido por grupos mercantis.

Outra quezília é o tratamento ou avaliação de ou sobre uma obra na perspectiva do senso comum. É uma questão problemática por estar revestida de opiniões emotivas e não de coerência literária. Lembra-nos Alain Graf (1997, p. 8) que “impor a sua opinião é mais fácil do que fundamentá-la”. Por isso, quando se fundamenta que este ou aquele livro não é literário, somos atacados pelo senso comum.

Na esteira contínua das cogitações, como é que diferentes sensibilidades literárias concorrem aos prémios Sagrada Esperança, António Jacinto e Prémio Nacional de Cultura e Arte na mesma categoria, sem se ter em conta a peculiaridade de cada género? Clarifiquemos, hipoteticamente, se fosse remetido aos prémios as obras: “Mayombe”, Pepetela; “A Vitória é uma Ilusão de Filósofos e Loucos”, João Tala; “Doutrina”, Lopito Feijó; “Um voo no mecanismo inerte do tempo”, José L. Mendonça; “Os Discursos Do Mestre Tamoda”, Uanhenga Xitu; “Quem Me Dera Ser Onda”, Manuel Rui. Devem concorrer por género ao invés de serem submetidas ao critério genérico. Contundo, se, por um lado, a não separação subjaz à tentativa de segregação dos géneros literários, por outro, é, indubitavelmente, um reconhecimento à produção literária.

A classificação universal fala em três géneros literários: Lírico; Narrativo; Dramático. Etimologicamente, a palavra género advém do latim «generu por genere». As discussões em volta dos géneros remontam desde a antiguidade greco-latina. Pensadores como Platão, Aristóteles e Horácio debruçaram-se exaustivamente em diferentes visões sobre a sua classificação. De certo modo, as referidas discussões têm servido de base para as recentes abordagens. Provavelmente, é das mais complexas discussões da nomenclatura literária. Sobre os primeiros esboços dum pensamento acerca do que hoje rotulamos de «género», Subsidia-nos Moisés (2003, p. 199): “encontra-se em As Rãs de Aristófanes (séc. V-IV a.C.)”. Por não serem homogéneos, apresentam suas complexidades, daí pensarmos não existirem géneros maiores ou menores. Por exemplo, segundo Delfos (1973, p. 152), “na Holanda a lírica é mais importante do que romance (…) trata-se de uma poesia fundamentalista, humanista fundada em bases neoplatónicas e ideais socialistas utópicas”. A palavra “Importante” implica ser relevante para os holandeses. Cada realidade com a sua história. Por exemplo, na literatura americana, contrariamente à holandesa, segundo Lohner (1973, p. 232), “a lírica [poesia] desenvolveu-se juntamente com a narrativa”. Por sua vez, a literatura angolana tem a sua base na oratura, mas, ao longo dos vários estágios evolutivos, esteve “quase” sempre relacionada ao jornalismo. Segundo Paxe (2010, p. 105), “o jornalismo, na nossa realidade histórica, sempre funcionou como suporte da literatura, ou seja, a literatura (…) ao invés do livro tinha como suporte o jornal”. O contexto acaba por desempenhar a função de árbitro-jogador.

Num paralelismo entre os prémios, o prémio Nobel de Literatura – são raras vezes, até a feitura da presente cogitação – acaba quase sempre por galardoar o romance, assim como o Camões. Para os prémios literários angolanos, o curso do rio já é diferente, privilegiando a lírica [poesia]. As nossas cogitações, para além de se incidir no itinerário das questões abordadas, questionam, de igual modo, a qualidade literária e revogam, rudemente, a produção da mesmice. A nossa extrema estranheza é relactivamente às academias, porque, primeiro, certos escritores/autores que ainda têm muito que provar tanto ao nível da produção poética como científica figuram-se como membros de academias em outras paragens do mundo. Segundo, quais são as reais motivações da não figuração de Eduardo Bonavena na Academia Angolana De Letras? Para Moisés (2013, p. 10), “(…) ainda se emprega a propósito da filosofia platónica e da vida no campus universitário”. Daí a nossa pulga: qual é o valor semântico da academia? Ficou mais uma vez registrado, nos talões da história, a ausência da autonomia intelectual na cultura académica angolana.

Segundo uma nota de imprensa (20h30, 15 de Setembro de 2016), “de acordo com estatuto, os membros da Academia Angolana de Letras devem cumprir dois de três requisitos: ter obra como objecto de estudo em universidades estrangeiras ou angolanas; ter ganho prémios literários ou de investigação científica em Angola ou no estrangeiro e ter obras que tenham sido objecto de ensaios em literaturas africanas de língua portuguesa”. Requisito atípico, pois toda gente ganha prémios, toda obra é estudada ou pelos textos menos conseguidos ou pela qualidade. Porém, nem toda obra é premiada. Hoje, deve-se conciliar o binómio investigação-produção (científica, de estudos literários e poética). O que sustenta uma academia é o inconformismo científico, por revolucionar o ser pensante, dar respostas aos variados fenómenos literários e linguísticos, inclusive sociais. Pelo que a referida Academia parece ser uma criança que veio ao mundo de pernas e não de cabeça. Daí a razão de se pensar que os pés têm a função do cérebro.

Resumidamente, desaconselhamos leituras intencionais.

Bibliografia

 

Delfos, L. (1973). História das Literaturas Universais. Lisboa: Editorial Estampa
Dias, G. (2011). Saber escrever Saber Falar. Mirandela-Gráficas Lda
(2014). Dicionário Integral da Língua Portuguesa. Lisboa: Texto Editores
Graf, A. (1997). As Grandes Correntes da Filosofia Antiga. Gradiva Editora
Lohner, E. (1973). História das Literaturas Universais. Lisboa: Editorial Estampa
Moisés, M. (2013). Dicionário de Termos Literários. (12ª ed.). São Paulo: Editora Cultrix
Paxe, A. (2010). Maka Revista de Literatura e Artes. Luanda: UEA