A escrita foi das primeiras formas que o ser humano encontrou para se perpetuar, com ela viaja pelos acontecimentos mas não os pode ver sem os olhos da mente. É então que surge a necessidade de captar e criar imagens de momentos únicos para que estes não sobrepassem.

A primeira fotografia reconhecida pelo mundo, segundo nos conta a história através de diversos relatos, foi feita pelo francês Joseph Nicéphore Niépce em 1826, embora não se possa atribuir a sua evolução apenas a uma pessoa, pois muitas descobertas contribuíram para o desenvolvimento da fotografia que hoje conhecemos. Artistas plásticos, físicos e, principalmente, químicos destacaram-se grandemente neste percurso. Numa associação de condições ambientais e de iluminação a produtos químicos, os processos de revelação e fixação da fotografia são essencialmente físico-químicos.

A fotografia está no entrecruzamento de dois processos inteiramente distintos: um é de ordem química: trata-se da acção da luz sobre certas substâncias; outro é de ordem física: trata-se da formação da imagem através de um dispositivo óptico (Roland Barthes).

Desde os daguerreótipos, uma das primeiras formas de se fazer fotografia e que muito se destacou, até à produção em preto e branco (P&B), que nos remete ao surgimento da fotografia, houve muita evolução técnica. A fotografia colorida é um dos principais marcos desta evolução, apesar de ter sido um processo lento e que necessitou de muitos testes. A primeira fotografia colorida foi feita pelo britânico James Clerk Maxwell em 1861; ao passo que o primeiro filme colorido só aparece em 1907. Estes dois factos têm gerado muita confusão em torno das datas que marcam a fotografia. Alguns teóricos apontam 1907 como sendo a data da aparição da primeira fotografia colorida. Foi, no entanto, em 1888 que deu-se o eclipsar da fotografia enquanto objecto de consumo. Gabriella Esteves, no seu «Ensaio Sobre a Fotografia», diz que até hoje a fotografia colorida não alcançou a definição da escala de tons da sensibilidade do material preto e branco.

Percorrendo as páginas da história da fotografia no mundo, observamos que cada canto tem o seu próprio trajecto, face ao surgimento da mesma. Olhando para o nosso umbigo, vê-se emergir em Angola, cada vez mais, praticantes da área. Vimos quase que constantemente a divulgação de fotografias actuais e antigas em exposições fotográficas nas plataformas e redes sociais ou fora delas, mas, afinal, qual a história por trás destas imagens?

Centralizando-me no plano fotográfico angolano, meu desejo de conhecimento sobre a Fotografia adquire uma postura menos específica. Embora esta actividade seja antiga em Angola, ainda existe uma escassez de material bibliográfico sobre o assunto. Os especialistas e passeatas da área estão mais interessados em clicar e capturar do que em documentar a trajectória da captura.

A pobre aderência à escrita faz com que haja uma enorme dificuldade para se falar sobre os primórdios da fotografia angolana e, por esta falta de material de apoio, pouca gente se atreve a tocar no assunto. Os livros que falam dela são muito menos que pouco, os que existem apenas beliscam o tema e primam mais pela técnica, permitindo apenas observar o significante fotográfico. Quando o assunto é material histórico e/ou sociológico, o nosso mercado não tem muito a oferecer, porque não existem estudos divulgados sobre a fotografia enquanto fenómeno e contribuinte social.

Ao constatar este desagrado, e para tentar abordar o assunto com o mínimo de justeza, tive de fazer o uso de uma qualidade que é característica do povo angolano e africano no geral, no caso a oralidade, consultando fontes vivas. Nomes sonantes na fotografia angolana são, na sua maior parte, fotojornalistas, sendo que o jornalismo é das áreas que mais uso faz da fotografia, por também proporcionar alguma formação, e não só, pois a história da fotografia em Angola está intimamente ligada à história da imprensa e do cinema, a partir da qual é possível estabelecer uma cronologia de dados.

Durante as entrevistas, cada um foi falando segundo o seu par de olhos, já que cada um vê e vive o seu próprio mundo.

Minimalismo | Foto de Haroldo Correia

A fotografia acaba por ser a expressão mais íntima do fotógrafo sobre o que o rodeia, sendo, assim, uma das mais inusitadas descobertas do ser humano. Transforma um segundo numa imagem secular ou milenar.

Com o assombro da perca do instante em que o imaginário suplanta o real desejado, os portugueses trouxeram para Angola, nos finais do século XIX, a fotografia ainda em preto e branco (P&B), com o objectivo de retratar informações de zonas que eram exploradas para o seu rei.

Pela expansão colonial, alargou-se o interesse pela imagem, e chegavam mais fotógrafos em Luanda, trazendo consigo alguns órgãos de comunicação como a RTP. As fotografias serviam mais para capturar o poder e domínio português na exploração mineira, nos cafezais e nos campos de algodão…, até 1975.

No âmbito da massificação, a fotografia entra para as periferias quando alguns jovens angolanos, na ânsia de se tornarem fotógrafos, começam a integrar-se nos laboratórios como contínuos. O colono precisava encurtar os gastos e faziam dos contínuos empregados de limpeza, da limpeza passavam para impressores, e das impressoras para as câmaras era apenas um salto. Naquela época, para fotografar tinha de se saber imprimir. E para os angolanos, era necessário um documento do patrão a identificar que este pertence a um laboratório, pois a fotografia era somente permitida aos portugueses.

Enfio na agulha, a que muitos chamam de tempo, uma linha fina para costurar os recortes da história fotográfica angolana no período pós-colonial. Parte dos fotógrafos que trabalhavam nos laboratórios coloniais evoluíram as suas técnicas. Lino Guimarães, fotojornalista da Angop, diz que a maioria fez formação por correspondência e, durante essa época, tiveram várias dificuldades. Um dos grandes empecilhos era a aquisição de material, porque o que lhes era dado era já bastante obsoleto. Também tiveram várias dificuldades na impressão das fotografias, pois os elementos químicos eram nocivos para o organismo humano, chegando mesmo a causar danos graves aos fotógrafos. Muitos morreram por envenenamento naquela época, e os poucos que sobraram ficaram com várias sequelas, como a perda das unhas e queimaduras. Neste processo de elaboração da fotografia, era necessário um laboratório fechado, os fotógrafos estavam expostos a produtos químicos nocivos, que faziam parte dos processos análogos da fotografia.

De 1972 a 1980, havia apenas máquinas analógicas, de 100 a 400mm. Aparecem as primeiras fotografias coloridas produzidas por angolanos, totalmente rudimentares com uma imagem muito fraca e feitas em rolos. Era utilizado um processo de sete estágios para a obtenção de uma fotografia. Depois de tiradas, as fotografias eram levadas ao laboratório por seis minutos para a avaliação do material, faziam cinco minutos para serem reveladas utilizando o revelador, a seguir vinha a interrupção. Neste estágio, usava-se um produto químico que tinha a capacidade de interromper a revelação da fotografia, caso não fosse bem-feita. Enquanto decorria este processo o revelador continuava a agir até escurecer a fotografia por completo. Na fixação, utilizava-se o fixador que tinha a função de fixar a imagem no rolo. E na água era feita a lavagem das fotos, para se retirar os resíduos químicos presentes, e depois na estufa fazia-se a secagem do rolo numa temperatura que não poderia ultrapassar os 40ºc e, só assim, eram impressas num objecto chamado ampliador. O processo levava quase quatro horas para cada fotografia, sendo produzidas dez a quinze por dia.

Na década de 80, cria-se uma comissão representativa de fotógrafos, para adquirir material vindo de Portugal. Esta delegação era regida por J. Comercial que fazia a importação. Este período ficou marcado, primeiramente, pela dificuldade de aquisição de material, o que se superou mais tarde.

Em 1992, com o surgimento da guerra, a maior parte da população abrigava-se nos meios urbanos. Os Vietnamitas que trabalhavam como médicos viram, na fotografia, um meio rentável, e vendo a força do trabalho por parte dos jovens, eles importavam laboratórios de fotografia conhecido como Mine Labs, para as zonas periféricas. Nas zonas urbanas, já existiam alguns laboratórios como o Foto Ngufo, o Colorama na Avenida Brasil e o Foto Ventura na Baixa de Luanda.

Ao falar da fotografia em Angola, não se pode esquecer das instituições mais importantes no desenvolvimento, evolução e história da mesma. O DIP (Departamento de Informação e Propaganda), a actual ENFOTO (Empresa Nacional de Fotografia), e o Jornal de Angola. Eram estes os órgãos que cobriam as grandes actividades do país.

Os vietnamitas e os chineses trouxeram o estilo Kónica que trazia uma fotografia muito mas polida e vendiam as máquinas fotográficas a preço baixo, porque sabiam que teriam rendimento. Deram aulas práticas ensinando a utilizar o material. Contudo, uma das primeiras escolas de fotografia foi criada entre 1996 a 1997 no Maculusso pelo fotógrafo Paulo Oliveira Pinda, no sentido de dar mais conhecimento sobre a fotografia para profissionais e amadores.

Ao longo do período das eleições de 1992, a fotografia desempenhou um papel muito relevante ao registar tal período marcante para o nosso país. Nesta etapa, houve interacção e troca de experiências entre fotógrafos angolanos e os estrangeiros que vinham reportar o que se passava. Muitos fotógrafos foram capacitados para as eleições em seminários ministrados por brasileiros, alemães, americanos e portugueses.

Dentre os principais pioneiros da fotografia em Angola, destacam-se:

Francisco Bernardo, Paulino Damião (kota 50), Rogério Tutti, Pauolo Toneth, Lucas de Sousa, Pedro Salvador, Carlos Guimarães, Maurício Makembe, Carlos Mocco, Amper Rogério, Quintiliano dos Santos, Pinto Afonso. Entre outros.

Muitos desses eram funcionários de jornais enquanto outros faziam fotografia independente e amadora, devido carência de escolas especializadas na área. O amadorismo excessivo na fotografia é um fenómeno que até hoje se faz presente.

O avanço tecnológico melhorou o dia-a-dia da profissão, mas não mudou a essência da forma de se fazer fotografia. No que toca ao transporte internacional de imagens, observou-se uma enorme melhoria. Anteriormente, era necessária uma máquina chamada telefoto que tinha de estar unida a uma Companhia telefónica e custava o preço de uma máquina fotográfica moderna. Tinha de se ligar a agência Angola-Telecom, marcar a chamada e, por sua vez, a agência ligava ao destinatário que ficava à espera ao ligar também o seu telefoto. Precisava-se de muita atenção e cautela, porque se a ligação fosse interrompida tinha de se repetir o processo que durava quase duas horas. Actualmente, é um processo que se realiza em segundos.

Com as câmaras digitais, o trabalho ficou melhorado e facilitado. Começam a surgir em 1990 e chegam em Angola entre os anos 1998 a 2000. As primeiras usavam disquetes com capacidade de armazenar dez a quinze fotos, dando uma imagem mais nítida e próxima à realidade.

De 2000 até hoje a fotografia em Angola desenvolve de forma preguiçosa, discute-se a formação do fotógrafo e existência de escolas e centros de formação. Vão surgindo diversas associações destinadas a capacitação técnica e teórica do fotógrafo, observa-se cada vez mais a inclusão da fotografia nas diversas áreas sócias e principalmente como contribuinte económico. Desde o século XIX até hoje é visível uma evolução significativa das máquinas, dos suportes de armazenamentos, assim como da própria fotografia. O contexto fotográfico angolano, fora as capturas, publicações de livros de fotografias e exposições, em um pensamento clama por uma soma de reflexões. Nesse jogo de primazias entre a técnica e a teoria vem à tona a relevância de artigos mais desenvolvidos do que este, para que se possa resgatar a imagem histórica como aquela que permite paralisar o olhar e, deste modo, fazer emergir desejos e questionamentos, construindo vínculos entre o conhecimento histórico/sociológico e o técnico. Mereceria uma análise mais aprofundada sobre as premissas e implicações do trajecto da fotografia em Angola, no entanto os dados que tenho são insuficientes, sendo que, assim, forneço apenas uma chave interpretativa e eficiente para tentarmos compreender, analisar e investigar o que na verdade é a fotografia em Angola.