O Palácio de ferro, em Luanda, no dia 26 de Outubro não foi pequeno – longe disso – para receber o lançamento de mais uma obra literária, de uma jovem escritora, a mesma que enviou “Cartas a um ex-amor”. Uma parte do quintal do Palácio foi o local onde se juntaram um número considerável de pessoas para presenciar a apresentação de mais um “rebento” da Mira Clock, “Vozes da Cidade”. Pessoas de vários níveis, todos eles bem vestidos, tornaram o local bonito, mais do que já é. E diante deste cenário, ousei-me a contar o número de presentes, pelo menos, os sentados e davam mais de uma centena, arriscando-me a dizer que estavam aí quase duas centenas de pessoas. Perguntei-me então: quantos leitores há aqui? Serão todos leitores ou amigos, parentes que, sentindo-se obrigados pela relação com escritora, se fizeram presentes?

Questionei-me porque se sabe das dificuldades que a sociedade apresenta em relação à leitura, mas aquele cenário contradizia esta teoria. Ou a teoria não é teoria? Ou na verdade a juventude lê e os apologistas desta teoria é que são equivocados?

Se, realmente, a juventude não lê, e acho que não há como contrariar tal facto, embora não haja dados estatísticos, arrisco a dizer que das quase duzentas pessoas presentes no lançamento, muitos não são leitores. Se o fossem, seria equívoco pensar que, talvez, a teoria de que a juventude não lê deva ser repensada?

Vozes na cidade, livro de Mira Clock

Se levantarmos a hipótese de que a teoria deva ser repensada, então podemos acreditar que as “Vozes da Cidade” terá de estar pronta para ser lida por “leitores”, consequentemente para receber críticas, pois leitor é isso, além de ser aquele que lê com regularidade. Porém, até que ponto tem havido critica? Temos uma juventude com uma visão crítica ou somos uma juventude conformista, bajuladora? O conformista e bajulador não podem casar com o leitor. Este tem uma visão abrangente, que se alimenta de tudo que lê, não, simplesmente aceitando, mas questionando sempre. O bajulador não questiona, mente, omite e conformista é passivo.

Talvez devamos colocar as questões em sentindo contrário. Ao invés de questionar os prováveis leitores presentes no lançamento, questionamos a qualidade da “Vozes da Cidade”. Pois, é a qualidade do escritor que atrai leitores.

As duas anteriores obras – Desabrochar (poesia) e Cartas a um ex-amor (prosa) – da Mira acabaram por ser o cartão de apresentação da sua escrita, da sua qualidade como escritora. E quem apresenta esta qualidade são os leitores, os que já leram aquelas obras. Se estes não gostaram dos dois anteriores livros, vão levar exactamente esta informações a outros prováveis novos leitores, não havendo novos interessados. Mas se for boa, é esta informação que será levada, consequentemente elevando o número leitores interessados na sua escrita. Então, quantos novos leitores estariam no lançamento da Mira Clock, por consequência disso? Sinceramente, o cenário parecia-me muito afectivo, como se a maior parte dos presentes fossem parentes, amigos, pessoas próximas. E estes acabam sempre por estar presente, dando uma imagem enganadora de que se esteja a atrair o maior número de leitores possíveis.

Não estou aqui ainda a criticar esta obra, estou apenas a levantar hipóteses que nos possam ajudar a reflectir sobre o fenómeno que é a literatura nacional, principal a contemporânea. Vamos ler a obra “Vozes da Cidade” e responder a várias questões dúvidas aqui levantadas e criticar com conhecimento de causa e com cientificidade. Só não sei como estas críticas serão aceites, boas ou más. Mas precisa-se questionar.

Que reflictamos e questionemos sem tabus, receio. Precisa-se!